Como parei de consumir e passei a criar
Dez horas,
Não nove,
Não oito,
Exatas: Dez horas.
Não nove,
Não oito,
Exatas: Dez horas.
O diagnóstico das 10 horas de tela foi o fundo do poço, mas a subida começou degrau por degrau, literalmente. Entre o hall do elevador e a porta do meu apartamento alugado, eu percebi que a minha vida estava tão padronizada quanto a pintura bege da imobiliária. Olhei para o lado e vi a porta da vizinha: um crochê feito à mão, uma cor que não estava no catálogo, uma marca de existência. Ali, no meio do concreto frio, entendi que eu era a única pessoa no andar vivendo sem deixar digitais.
Parei de consumir o estilo de vida dos outros quando percebi que a minha própria casa — e a minha própria mente — eram apenas depósitos de escolhas alheias. O "como" eu comecei não teve trilha sonora épica nem um plano de negócios estruturado. Foi um movimento de legítima defesa. Comecei resgatando esse blog, que antes era só um confessionário para dias de raiva ou fossa, e transformei o luto da minha atenção em um processo catártico de escrita. Escrever deixou de ser uma reação ao que me machucava para virar a ferramenta que moldava o que eu queria ver.
Depois veio o podcast e os vídeos. Não para "gerar conteúdo", esse termo higienizado que a publicidade ama, mas para testar o som da minha própria voz fora do eco das reuniões de agência. Usei o hardware que eu já tinha — o notebook do trabalho, a câmera que antes só servia para freelas burocráticos — para rodar um software novo, autoral e sem patch de atualização do algoritmo. Criar passou a ser o meu jeito de mobiliar um apartamento que, por contrato, eu não posso pintar, mas que por direito eu posso preencher.
A virada de chave aconteceu na simplicidade do olhar. Voltei a estudar a escola folkiana de comunicação, buscando entender como a cultura popular e o cotidiano real se comunicam sem precisar de um orçamento de seis dígitos. Comecei a fotografar o que não é "instagramável": a luz que bate de um jeito estranho no pelo do gato, a flor que insiste em nascer na rachadura da calçada do Rio, o caos estético das ruas que a gente ignora enquanto está com o rosto colado no celular.
Essa transição não foi sobre ser "produtiva", foi sobre ser presente. É muito fácil se perder na teoria da comunicação e esquecer de se comunicar com o mundo ao redor. Quando eu troco duas horas de *scroll* por uma hora estudando algo que realmente me instiga, eu estou fazendo uma curadoria de alma. Estou escolhendo quais tijolos vão sustentar a minha estrutura mental em vez de aceitar o entulho que o algoritmo despeja na minha porta todo santo dia.
O processo é quase físico. Você sente o músculo da criatividade voltando a ter tônus. No início, dói encarar o silêncio sem o ruído constante de um podcast de terceiros no fone de ouvido. Mas depois, você começa a ouvir o barulho das suas próprias ideias batendo na parede. A fotografia de rua e os textos no blog viraram o meu "crochê na porta": uma sinalização para o mundo de que, por trás daquela entrada padrão de prédio comercial, existe alguém que ainda se recusa a ser apenas uma estatística de tráfego.
Hoje, as 10 horas de tela diminuíram porque o mundo lá fora ficou interessante demais para ser visto apenas pelo reflexo do vidro. Criar me deu o controle remoto de volta. Se o meu trabalho como publicitária é construir mundos para as marcas, o meu trabalho como pessoa é garantir que o meu mundo privado não seja uma franquia genérica. A estética do abandono deu lugar à estética da ocupação.
Eu parei de consumir para não ser consumida. Passei a criar para não ser esquecida por mim mesma no meio desse fluxo infinito de dados que não dizem nada. A minha porta agora tem vida, os meus gatos têm registros que nenhuma IA conseguiria simular e o meu repertório não é mais uma prateleira de supermercado; é um arquivo vivo de quem decidiu, finalmente, sair do papel de coadjuvante.

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