Querida Julia

by - junho 25, 2026

Querida Julia,

Eu fico pensando em você às vezes. Em como você tinha 32 anos, uma vida organizada, um marido diplomata, uma mudança para Paris e, de repente, uma cozinha que mudou tudo. Não foi na infância, não foi quando todo mundo diz que "tem que ser". Foi na hora certa, que era a sua hora, e só a sua.

Você disse uma vez que foi quando parou de apenas comer e começou a cozinhar que tudo mudou. E eu entendo isso de um jeito que é difícil de explicar. Tem algo muito poderoso em descobrir que você é capaz de criar, de transformar ingredientes em algo que emociona pessoas. Mas acho que o que você realmente descobriu naquela cozinha parisiense não foi só uma técnica ou uma receita. Foi você mesma.



E isso me faz pensar em tantas outras mulheres que fizeram o mesmo, cada uma do seu jeito e no seu tempo. A Palmirinha, por exemplo. Ela que por tanto tempo foi vista como "aquela vovó simpática que cozinha na televisão", como se isso fosse pouco, como se o talento e a dedicação dela coubessem dentro de um estereótipo fácil de engolir. Mas não cabiam. Ela era muito maior do que o espaço que tentaram reservar pra ela, e foi ocupando cada centímetro além disso com uma graça que só ela tinha.

A sociedade tem esse costume estranho de decidir quando a história de alguém acabou. Especialmente a história das mulheres. Casou? Acabou. Teve filho? Acabou. Passou dos 30? Ah, então com certeza acabou. Como se a vida fosse uma janela pequena que se fecha rápido demais e quem não passou por ela a tempo azar o seu. Mas Julia, você provou que essa janela não existe. Ou melhor, que a gente pode simplesmente abrir uma porta quando bem entender.

Tem uma outra mulher que eu penso muito quando penso em você, embora as histórias de vocês sejam completamente diferentes. Carolina Maria de Jesus. Uma mulher que nasceu sem nada, que catava papel pelas ruas de São Paulo e que, toda vez que encontrava um livro no meio do lixo, não via descarte. Via saída. Via um mundo que existia além do que tinham reservado pra ela. Ela escrevia num caderno surrado o que via, o que sentia, o que a sociedade preferia ignorar. E criou uma obra que até hoje sacode quem lê. O reconhecimento veio tarde, veio depois que ela se foi, mas veio. E não pôde mais ser tirado.

O que me inspira em todas vocês não é só a conquista, sabe? É a teimosia bonita de querer mais quando ninguém pedia que você quisesse. De se recusar a ser só o que o mundo tinha planejado. Você podia ter ficado em Paris apenas como a esposa do diplomata, jantando em restaurantes bonitos e vivendo uma vida perfeitamente aceitável. Mas você escolheu o avental, a manteiga, as panelas quentes e o trabalho duro de aprender do zero.

E isso, Julia, é o tipo de coisa que me faz acreditar que a gente escreve o próprio roteiro. Que o futuro não é uma sentença, é uma escolha que a gente faz todo dia, mesmo quando dói, mesmo quando parece tarde demais, mesmo quando ninguém ainda consegue enxergar o que você enxerga em si mesma.
Obrigada por ter cozinhado. Por ter insistido. Por ter mostrado que era possível.

Com carinho e um pouco de fome,
Carol.

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