Minha vó ja viu uma mula sem cabeça !

by - julho 14, 2026

Tia Ilma & Vózinha

Eu tinha uns 8 ou 9 anos. Minha vó Iris, essa mulher que eu conhecia mais pelo cheiro do que pelas histórias, estava comigo em casa. Ela veio de longe, lá do interior do Maranhão, trazendo só uma filha na bagagem. Os outros dois filhos ficaram pelo caminho da vida, e o contato se perdeu como perfume no ar.

E falando em perfume: vozinha cheirava a Derby vermelho misturado com Avon Sweet Honesty. Uma combinação só dela. E tinha aquela unha em formato de gancho, sempre pintada de vermelho rebu com uma pitada de maçã do amor.

Naquele dia eu tinha voltado do colégio de freira (assunto para outra hora). Começou a chover. Fui fechar as janelas. E então, paft, a luz caiu.

Foi aí que vovó Iris decidiu que aquela era a noite perfeita para contar um segredo.

— Carol, ela disse, com a voz baixinha de quem vai contar algo proibido, eu era uma menina jovem, bonita como você. E minha mãe sempre me disse: fica longe daquela vizinha.

Eu não entendi nada. Mas fiquei quietinha, esperando.

— Até que, numa noite, dona Cleuza bateu na minha porta pedindo ajuda. Disse que tinha algo estranho na casa dela. Quando fui ver e lá estava um rato gigante, enorme, um bicho de arrepiar. Corremos atrás dele, quebramos duas vassouras, mas conseguimos expulsar o intruso.

Depois de toda aquela confusão, dona Cleuza foi até a cozinha. E não voltou.

— Fiquei preocupada — continuou vovó — fui atrás dela. E foi aí que vi: metade cavalo, metade fogo. Uma coisa que não cabia em nenhuma palavra que eu conhecesse. Fiquei ali, muda, enquanto o tempo esticava como chiclete. E então aquela criatura saiu correndo, porta afora, rumo à noite.

Minha vó parou. Os olhos foram ficando distantes, como se ela estivesse ali, décadas atrás, revivendo cada segundo.

— Corri atrás dela. Entrei no mato escuro da vila sem pensar duas vezes. Não sabia o que era aquele ser, só sabia que precisava entender. Será que o bicho comeu Cleuza? Será que ela fugiu por outra porta? Mil perguntas, nenhuma resposta, só as pernas correndo sozinhas.

— A criatura parou numa clareira. Se virou. E eu virei também na direção contrária! Corri pra casa, me tranquei no quarto e chorei um bom tempo.

Foi a mãe dela (minha bisa) quem completou a história depois.

Cleuza tinha só 16 anos e tinha se apaixonado por seu Cícero, o padre novo que chegara na cidade fazia pouco tempo. A família toda vibrava vendo a menina correr pra igreja toda quinta e domingo sem saber que era o coração, não a fé, que a levava até lá.

Numa quinta-feira de verão, ao sair do quarto, Cleuza virou aquela forma animalesca. E saiu correndo por sete cidades, deixando um rastro de sangue de tudo que cruzava seu caminho. Já fazia três meses que aquilo acontecia, sempre que a paixão proibida por um padre voltava a bater forte. Só havia um jeito de quebrar o feitiço: Cícero precisava enfrentá-la, cara a cara, na forma de fera. Mas ele tinha medo. E, de um jeito totalmente errado, também gostava dela e não queria machucar.

Vovó Iris voltou o olhar para mim, como quem acorda de um sonho.

— Cleuza viveu só até os 17 anos. Não aguentou mais aquela vida. Às vezes penso que eu podia ter ajudado, de alguma forma não sei bem qual. Mas o medo falou mais alto. Espero que, onde quer que ela esteja agora, tenha finalmente encontrado seu amor de verdade.

— E Cícero?

— Deixou de ser padre. A culpa foi maior que a batina.





Obrigada para quem leu até esse ponto, esse é o tema 02: Algo que te contaram e você nunca esqueceu,  do desafio de 30 post em 30 dias. 

Amanhã volto com mais e espero que goste desse breve relato, in memoriam. 

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