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A Cachorra - Pilar Quintana

A Cachorra (originalmente La perra, 2017), da colombiana Pilar Quintana, não estava na minha lista, mas chegou como esses livros costumam chegar: no momento certo, com uma intensidade que não pede licença. Ambientada no litoral pacífico colombiano, a narrativa acompanha Damaris, uma mulher negra que carrega no corpo e na alma o peso de uma maternidade que nunca veio. Quando adota uma cadela e a nomeia Shirley, o mesmo nome que daria à filha que não teve, algo se rompe por dentro de forma quase imperceptível. É ali que o livro começa a cobrar seu preço emocional.

O que Pilar Quintana constrói com delicadeza e crueldade é o retrato de uma carência que vai se enraizando. Damaris projeta em Shirley tudo o que represou por anos, e acompanhar essa relação é desconfortante porque é reconhecível. A maternidade aqui não é celebrada nem condenada, ela é dissecada em sua complexidade mais sombria: o desejo não correspondido, as frustrações que viram ferida, os traumas do passado que habitam o presente como fantasmas que nunca foram embora.

A autora revelou em entrevista à FLIP que sua obra é atravessada por simbolismos que passam despercebidos em uma primeira leitura. O mar engole as pessoas e as cospe deformadas. A selva as devolve em estado pior. São monstros que habitam a paisagem, mas a grande virada do livro é perceber que o monstro mais assustador mora dentro da própria Damaris. Ela se torna aquilo que temia, e essa transformação é narrada sem julgamento e sem salvação fácil. Pilar uma vez perguntou sobre sua própria escrita: "O que precisa acontecer na minha vida para que eu me converta em um ser horrível que eu não reconheça?" Essa pergunta pulsa em cada página.



Vale deixar aqui uma curiosidade que diz muito sobre o livro: Pilar Quintana o escreveu no celular, em fragmentos roubados enquanto amamentava o próprio filho. Há algo de poético e perturbador nisso, uma obra sobre o vazio da maternidade gestada justamente dentro dela. A Cachorra é pequeno em páginas e imenso no que deixa. Recomendo, mas com aviso: ele não sai de você tão facilmente.

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