Interferências
O som que inaugura a minha memória não é o de uma notificação, mas o da água batendo no tanque durante a madrugada. Era o ritmo das tarefas domésticas da minha tia e da minha avó, sempre acompanhado pelo chiado de um rádio de pilha que parecia filtrar a realidade. Naquela época, a rádio AM não era um acessório; era uma entidade que preenchia a casa e transformava o cansaço em algo compartilhado. O som não era um muro, era uma ponte que unia o sabão em pó ao resto do mundo.
No centro dessa experiência, surgia o locutor de voz aveludada, o mestre das traduções de músicas românticas. Ele era o simulacro de um algo que o cotidiano não oferecia, traduzindo sentimentos estrangeiros para quem estava com as mãos na água e os pés no chão. Havia uma humanidade naquela imperfeição, uma conexão que parecia palpável. Ele não falava para um algoritmo; ele falava para mulheres que precisavam que o silêncio da casa fosse preenchido por uma fantasia qualquer.
Hoje, o cenário mudou e o som se tornou um escudo individual. Percebo como cada pessoa ao meu redor está protegida por sua própria parede invisível. O fone de ouvido é a nossa fronteira definitiva, o dispositivo que nos permite estar cercadas de gente enquanto garantimos que ninguém consiga nos acessar. Evoluímos do rádio coletivo, que todos na sala ouviam, para o podcast particular, que ninguém ao lado pode escutar.
É nesse isolamento acústico que eu gravo o Medianerax. O nome não é apenas uma homenagem ao filme argentino, mas um diagnóstico da minha própria vida. Uso o microfone para falar sobre temas que a pressa urbana me impede de dizer no dia a dia. É a ironia máxima da nossa era: crio um programa de áudio para expressar o que não consigo falar cara a cara com quem divide o elevador comigo. Sou especialista em monólogos gravados e analfabeta em conversas casuais.
O locutor da minha infância era um personagem, mas ele falava para uma comunidade. Eu, por outro lado, busco o podcast como uma forma de solidão acompanhada. Ouvimos horas de conversas de estranhos para suprir a falta que faz um diálogo real, aquele que exige contato visual e a coragem de ser interrompida. Estamos tão viciadas na conveniência do áudio editado que o silêncio de um encontro físico passou a ser insuportável, um erro de sistema que precisamos corrigir com o próximo play.
A arquitetura das cidades, com suas janelas que dão para paredes cegas, encontrou o seu equivalente tecnológico: O fone de ouvido, uma janela que abrimos para o mundo, mas que curiosamente nos mantém trancadas do lado de dentro. O marketing nos vendeu a ideia de conexão, mas o que vejo são milhares de pessoas ouvindo traduções de realidades alheias enquanto desaprendem a traduzir o que sentem para quem está sentado logo ali, na porta ao lado.
A voz sedutora do rádio antigo foi substituída por uma perfeição sintética e por algoritmos que reforçam apenas o que já pensamos. Perdemos o chiado, a interferência e o acaso de ouvir algo que não escolhemos. No Medianerax, tento derrubar esses muros, mas não deixo de notar o paradoxo: sou uma publicitária falando para o vazio, esperando que minha voz alcance outra mulher que, assim como eu, também está usando um fone para se esconder da multidão.
Se o rádio de pilha era o som da casa aberta, o podcast é o som da porta trancada. Preenchemos o vazio com vozes constantes para não termos que lidar com o eco dos nossos próprios pensamentos ou com o desconforto de um "olá" inesperado. No fim das contas, a tecnologia nos deu o poder de escolher a trilha sonora da nossa vida, mas nos tirou a habilidade de dançar com quem não conhecemos o ritmo.
Se todos decidissem tirar os fones de ouvido no mesmo segundo em um lugar lotado, você acha que finalmente começaríamos a conversar ou o silêncio seria aterrorizante demais para suportar?
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