Os sonhos que adormecem
Bom, não é novidade para quem me conhece que, quando era pequena, eu queria ser uma freira astronauta. Parece uma combinação improvável, eu sei, mas existe uma explicação.
Eu morava perto de um observatório em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, e passava horas por lá. Sempre achei fascinante pensar que somos apenas um pontinho perdido na imensidão do universo. A parte de querer ser freira tem uma história um pouco mais profunda. Eu cresci em uma família muito simples. Todos trabalhavam muito, em empregos que mal pagavam as contas. Nunca nos faltou amor, comida ou cuidado, e eu sempre me considerei privilegiada perto de muitas pessoas ao meu redor, mas isso não significa que vivíamos com conforto. Nossa casa tinha pouco mais de 50 m² e morávamos eu, minha mãe, minha avó, minha tia, meu tio e dois primos. Era uma casa cheia, barulhenta e apertada.
Além da escola pela manhã, eu passava as tardes em um colégio administrado por freiras. Lá aprendi costura, ballet, idiomas, capoeira e ainda tinha reforço escolar. Era um ambiente bonito, organizado e muito acolhedor. Para uma criança que vivia em uma casa tão pequena, aquele lugar parecia um outro mundo. Quando descobri que, se entrasse para a congregação, poderia morar em um internato e ainda sair formada em Enfermagem, meu coração se encheu de esperança. Eu seria a primeira pessoa da família a concluir os estudos e ter uma profissão. Minha mãe, porém, nunca permitiu. Na época eu fiquei revoltada; hoje entendo que ela tomou a melhor decisão.
Com o tempo, fui crescendo e aprendendo a calcular riscos. Passei a ouvir frases como "isso não dá dinheiro", "isso é impossível" e "seja mais realista". Sem perceber, aquela coragem típica da infância foi diminuindo. Não porque eu tivesse me tornado menos capaz, mas porque comecei a enxergar tudo o que poderia dar errado. Nessa fase, deixei de lado outro sonho: o de cursar Jornalismo. Antes disso, o sonho de ser astronauta já tinha ido embora quando descobri que Física definitivamente não era o meu forte. (Alguns sonhos precisam enfrentar a realidade... e as fórmulas também.)
Acabei entrando em Comércio Exterior por acreditar que era uma escolha mais segura. Mas durei apenas três semestres. Não era o que eu queria para a minha vida. Tranquei a faculdade e mergulhei de vez na vida adulta. Trabalhei ainda mais, deixei os estudos para depois e, como acontece com muita gente que tem apenas o ensino médio, precisei encontrar formas de sobreviver. Voltei para as ruas vendendo doces, bolos, salgados e até almoço em pontos de táxi e obras. Dá para ganhar dinheiro, mas também exige um esforço enorme.
Foi justamente nesse período que reencontrei uma paixão antiga: a comunicação. Eu sempre fazia "uma artezinha" para familiares e amigos, mas nunca imaginei que aquilo pudesse se transformar em profissão. Aos poucos fui estudando, aprendendo, trabalhando cada vez mais na área e minha vida mudou completamente. Já se passaram seis anos desde que comecei essa caminhada. Não concluí a faculdade de Marketing porque me mudei de estado, mas hoje estou no último período de Publicidade e Propaganda e, assim que terminar, pretendo finalmente realizar o sonho que deixei adormecido há mais de uma década: cursar Jornalismo. Hoje trabalho com aquilo que amo, consigo me sustentar com a minha profissão e, mesmo sabendo que é uma área que exige aprendizado constante, posso dizer que encontrei o meu lugar.
Acho que crescer também é isso: deixar algumas versões de nós pelo caminho. A menina que queria ser freira astronauta não existe mais, mas ela me ensinou a sonhar sem medo. A adolescente que desistiu do Jornalismo também ficou para trás, mas o sonho permaneceu em silêncio, esperando a hora certa de voltar. Nem todo sonho da infância morre. Alguns apenas adormecem enquanto a vida nos ensina o caminho. E, às vezes, a maior coragem da vida adulta é justamente ter a humildade de reencontrar aquilo que um dia fez nossos olhos brilharem.
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