Eu achava que W.I.T.C.H. era só uma revista. Anos depois percebi que era uma aula de publicidade
Quando a gente é criança, não pensa muito sobre por que gosta de alguma coisa. A gente simplesmente gosta. Ninguém olha para uma revista aos dez anos e pensa: “Nossa, que excelente estratégia de posicionamento de marca”. Você olha para a capa, reconhece suas personagens favoritas e quer saber o que tem ali dentro. Com W.I.T.C.H. não era diferente.
Will, Irma, Taranee, Cornélia e Hay Lin eram cinco garotas que precisavam lidar com escola, amizade, família, inseguranças, meninos e todos aqueles pequenos dramas que pareciam gigantes quando éramos mais novas. A diferença é que, no meio disso tudo, elas também tinham poderes ligados aos elementos e a responsabilidade nada simples de proteger outros mundos. Para quem nunca teve contato com W.I.T.C.H., talvez isso já explique parte do apelo: era fantasia, mas também era cotidiano. As personagens tinham poderes mágicos, mas continuavam enfrentando problemas suficientemente comuns para que outras meninas pudessem se identificar com elas.
Durante muito tempo foi assim que enxerguei esse universo. Até conhecer uma dissertação de mestrado chamada O Complexo W.I.T.C.H.: acionando a magia para formar garotinhas nas redes do consumo, escrita por Camille Jacques Prates em 2008. O trabalho investiga W.I.T.C.H. a partir dos Estudos Culturais em Educação e tenta entender como mídia, comportamento e consumo se encontravam naquele universo. E foi aí que comecei a olhar para aquelas cinco bruxinhas de uma maneira completamente diferente.
W.I.T.C.H. nunca foi apenas uma revista
Uma das primeiras coisas que me chamou atenção na dissertação foi justamente a escolha da palavra “Complexo”. A autora não estuda apenas as histórias em quadrinhos. Ela considera a revista, a série animada, os chamados Livros Secretos e uma enorme quantidade de produtos e artefatos relacionados à marca. Para a pesquisa, foram selecionadas 24 revistas publicadas entre janeiro de 2006 e dezembro de 2007 e os onze volumes da coleção Livros Secretos, além da observação de outros produtos ligados às personagens.
E quando começamos a observar tudo junto, a coisa fica muito mais interessante. Existiam cadernos, fichários, blocos, acessórios, amuletos, colares, brincos, chaveiros, itens de beleza e diversos outros objetos relacionados às personagens. Isso significava que você poderia terminar de ler uma história e continuar encontrando W.I.T.C.H. em outros momentos da sua vida. Estava na televisão, na livraria, no material escolar, nos acessórios e nos brindes. E é aqui que a criança que gostava de W.I.T.C.H. dentro de mim dá espaço para a estudante de Publicidade perguntar: em que momento deixamos de consumir uma história e começamos a consumir um universo?
Hoje eu sei o nome de parte disso: branding
Existe uma ideia sobre branding que eu gosto bastante: uma marca não é simplesmente sua logo. A identidade visual ajuda a reconhecê-la, mas uma marca também é formada pelos significados que aprendemos a associar a ela. Quando ela é forte, determinadas cores, personagens, símbolos ou sentimentos conseguem despertar uma quantidade enorme de referências que acumulamos ao longo do tempo.
W.I.T.C.H. fazia isso muito bem. Existiam cinco personagens com personalidades diferentes, uma estética própria, magia, amizade, romance, uma linguagem direcionada às meninas e símbolos que faziam sentido dentro daquele universo. O Coração de Kandrakar, por exemplo, não precisava ser simplesmente um acessório bonito para uma fã. Ele carregava uma história. Uma pessoa que nunca conheceu W.I.T.C.H. poderia olhar para aquele objeto e enxergar apenas um colar. Uma fã poderia olhar para exatamente o mesmo objeto e lembrar das personagens, das histórias e de tudo aquilo que havia construído emocionalmente acompanhando a franquia.
O objeto continua sendo o mesmo, mas seu significado muda. E é justamente nesse espaço que uma marca pode se tornar muito maior do que o produto físico que está sendo vendido.
Talvez eu não quisesse o produto. Eu queria um pedaço daquele universo
Essa é uma das coisas que mais me fascinam quando penso em publicidade: raramente consumimos objetos apenas por suas funções práticas. Uma camiseta serve para vestir, uma caneca serve para beber alguma coisa e um caderno serve para escrever. Mas coloque sua banda favorita naquela camiseta, uma franquia que você ama naquela caneca ou uma personagem que marcou sua infância naquele caderno e, de repente, aquele objeto ganhou uma segunda função. Ele também passou a comunicar alguma coisa sobre você.
É o que podemos compreender como consumo simbólico. Quando uma menina escolhia um caderno W.I.T.C.H., por exemplo, ela não estava necessariamente escolhendo apenas folhas encadernadas. Estava levando aquele universo para a escola e mostrando, de alguma maneira, que gostava e fazia parte daquela comunidade de fãs. Talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores forças de marcas construídas ao redor de personagens: elas conseguem sair da tela ou do papel e entrar na vida cotidiana. Você não precisa estar lendo a história para continuar participando dela.
E havia muito mais do que produtos
Olhando para W.I.T.C.H. hoje, acho que o mais interessante nem é perceber quantos produtos existiam, mas entender como aquele universo conseguia conversar tão bem com as meninas que o acompanhavam. Não era só sobre salvar mundos ou controlar elementos. No meio da magia estavam assuntos muito mais próximos da nossa realidade: amizade, escola, autoestima, aparência, família, primeiros interesses amorosos e aquela confusão que é começar a crescer sem entender muito bem quem você é.
E talvez fosse justamente essa mistura que tornasse tudo tão fácil de consumir. Eu não precisava me identificar com a experiência de ser uma guardiã de Kandrakar, obviamente, mas conseguia me identificar com uma personagem insegura, com uma briga entre amigas, com uma dúvida sobre aparência ou com alguma situação da escola. A fantasia chamava atenção, mas eram essas pequenas coisas do cotidiano que faziam aquelas personagens parecerem próximas.
Só que, olhando agora, percebo outra coisa: enquanto acompanhávamos aquelas histórias, também recebíamos pequenas referências sobre como ser menina. O que vestir, como lidar com uma amiga, como chamar atenção de um garoto, como se sentir bonita, como melhorar a autoestima ou como reagir a determinadas situações. Isso aparecia nas histórias, nos testes, nas matérias e nos Livros Secretos. Não era necessariamente uma ordem dizendo “seja assim”, mas existia ali uma ideia de feminilidade sendo apresentada para aquelas leitoras.
E isso me faz pensar bastante sobre quem participa da construção daquilo que entendemos como “ser menina”. Família, escola e amigos obviamente fazem parte disso, mas a cultura que consumimos também está presente. As revistas que líamos, as personagens que admirávamos, as novelas, os filmes e os desenhos acabavam nos apresentando modelos de beleza, comportamento, amizade, romance e até de consumo.
Hoje, percebo como essa identificação é valiosa. Uma marca que conhece seu público não precisa falar somente sobre aquilo que vende. Ela entende o que esse público sente, deseja, teme, conversa e vive. Quando consegue fazer isso de maneira convincente, deixa de ocupar apenas um espaço comercial e começa a fazer parte do repertório daquela pessoa.
E talvez fosse justamente essa mistura que tornasse tudo tão fácil de consumir. Eu não precisava me identificar com a experiência de ser uma guardiã de Kandrakar, obviamente, mas conseguia me identificar com uma personagem insegura, com uma briga entre amigas, com uma dúvida sobre aparência ou com alguma situação da escola. A fantasia chamava atenção, mas eram essas pequenas coisas do cotidiano que faziam aquelas personagens parecerem próximas.
Só que, olhando agora, percebo outra coisa: enquanto acompanhávamos aquelas histórias, também recebíamos pequenas referências sobre como ser menina. O que vestir, como lidar com uma amiga, como chamar atenção de um garoto, como se sentir bonita, como melhorar a autoestima ou como reagir a determinadas situações. Isso aparecia nas histórias, nos testes, nas matérias e nos Livros Secretos. Não era necessariamente uma ordem dizendo “seja assim”, mas existia ali uma ideia de feminilidade sendo apresentada para aquelas leitoras.
E isso me faz pensar bastante sobre quem participa da construção daquilo que entendemos como “ser menina”. Família, escola e amigos obviamente fazem parte disso, mas a cultura que consumimos também está presente. As revistas que líamos, as personagens que admirávamos, as novelas, os filmes e os desenhos acabavam nos apresentando modelos de beleza, comportamento, amizade, romance e até de consumo.
Hoje, percebo como essa identificação é valiosa. Uma marca que conhece seu público não precisa falar somente sobre aquilo que vende. Ela entende o que esse público sente, deseja, teme, conversa e vive. Quando consegue fazer isso de maneira convincente, deixa de ocupar apenas um espaço comercial e começa a fazer parte do repertório daquela pessoa.
A publicidade não precisa gritar “compre!”
Talvez uma das coisas que mais tenham mudado na minha maneira de enxergar as propagandas seja entender que ela não começa e termina no anúncio. Durante muito tempo, quando pensava em propaganda, imaginava comercial de televisão, página de revista, outdoor ou alguém apresentando diretamente um produto. Só que uma marca também é construída em tudo aquilo que acontece antes da compra.
Ela é construída quando reconheço uma personagem, quando gosto da estética daquele universo, quando começo a ter uma favorita, quando converso sobre aquilo com minhas amigas ou quando vejo um símbolo e imediatamente sei o que ele significa. Quando finalmente encontro um produto em uma loja, aquela não é necessariamente a primeira vez que a marca está falando comigo.
O caderno não precisava me apresentar as personagens porque eu já conhecia aquelas garotas. O acessório não precisava explicar o significado de um símbolo porque a história já tinha feito isso. A conversa tinha começado muito antes. Para mim, essa é uma das grandes lições publicitárias desse universo.
Talvez o verdadeiro produto fosse o próprio universo W.I.T.C.H.
Um caderno W.I.T.C.H. continuava sendo um caderno, mas carregava personagens, símbolos e histórias com os quais a leitora já tinha criado alguma relação. Isso ajuda a explicar por que compramos camisetas de bandas, edições especiais de livros ou objetos de séries que amamos mesmo quando já temos coisas que cumprem exatamente a mesma função. Não estamos comprando somente a utilidade daquele objeto. Existe memória, identificação e pertencimento envolvidos.
Talvez por isso eu pense hoje que o verdadeiro produto de W.I.T.C.H. não fosse somente a revista, o desenho ou os acessórios, mas o próprio universo construído ao redor deles. Os objetos poderiam desaparecer, mas as personagens, as referências e as memórias permaneciam.
E é aqui que a nostalgia bate mais forte. Porque talvez muitas de nós não lembremos exatamente de uma matéria que lemos ou de um produto que tivemos, mas conseguimos lembrar de como aquele universo fazia a gente se sentir. E, tantos anos depois, também conseguimos perceber que aquelas revistas e personagens estavam participando de uma fase em que ainda estávamos descobrindo nossos gostos, nossa aparência, nossas amizades e até aquilo que significava “ser menina”.
Talvez por isso eu pense hoje que o verdadeiro produto de W.I.T.C.H. não fosse somente a revista, o desenho ou os acessórios, mas o próprio universo construído ao redor deles. Os objetos poderiam desaparecer, mas as personagens, as referências e as memórias permaneciam.
E é aqui que a nostalgia bate mais forte. Porque talvez muitas de nós não lembremos exatamente de uma matéria que lemos ou de um produto que tivemos, mas conseguimos lembrar de como aquele universo fazia a gente se sentir. E, tantos anos depois, também conseguimos perceber que aquelas revistas e personagens estavam participando de uma fase em que ainda estávamos descobrindo nossos gostos, nossa aparência, nossas amizades e até aquilo que significava “ser menina”.
O que ficou depois da magia
Revisitar W.I.T.C.H. depois de começar a faculdade me fez enxergar uma segunda camada naquele universo. Antes eu via cinco garotas com poderes mágicos, histórias, testes e personagens com quem era possível me identificar. Hoje também consigo perceber branding, público-alvo, storytelling, licenciamento e consumo simbólico, mas principalmente consigo enxergar como mídia, comportamento e consumo podem estar muito mais próximos do que parecem.
E não gosto de resumir essa descoberta a “eu estava sendo manipulada pelo marketing”. Podemos gostar genuinamente de uma história e, ao mesmo tempo, reconhecer que existe toda uma estrutura comercial e cultural ao redor dela. Para mim, entender academicamente tornou mais interessante justamente entender por que gostamos de determinadas coisas, como elas participam da nossa vida e por que algumas continuam significando algo tantos anos depois.
Mas enquanto escrevia tudo isso, uma pergunta não saiu da minha cabeça: se revistas como W.I.T.C.H. ajudavam a apresentar para meninas da minha geração referências sobre beleza, comportamento, amizade, romance e consumo, quem ocupa esse espaço hoje?
A revista mensal perdeu espaço. Em compensação, temos TikTok, Instagram, YouTube, influenciadoras, trends, rotinas de skincare, “aesthetic”, moda, produtos virais e uma quantidade de referências que chega até meninas cada vez mais rápido. Talvez o meio tenha mudado, mas a pergunta sobre quem participa da construção do que significa “ser menina” continua extremamente atual.“As crianças devem ser ensinadas a como pensar, não o que pensar.”— Margaret Mead, Coming of Age in Samoa (1928)
E não gosto de resumir essa descoberta a “eu estava sendo manipulada pelo marketing”. Podemos gostar genuinamente de uma história e, ao mesmo tempo, reconhecer que existe toda uma estrutura comercial e cultural ao redor dela. Para mim, entender academicamente tornou mais interessante justamente entender por que gostamos de determinadas coisas, como elas participam da nossa vida e por que algumas continuam significando algo tantos anos depois.
Mas enquanto escrevia tudo isso, uma pergunta não saiu da minha cabeça: se revistas como W.I.T.C.H. ajudavam a apresentar para meninas da minha geração referências sobre beleza, comportamento, amizade, romance e consumo, quem ocupa esse espaço hoje?
A revista mensal perdeu espaço. Em compensação, temos TikTok, Instagram, YouTube, influenciadoras, trends, rotinas de skincare, “aesthetic”, moda, produtos virais e uma quantidade de referências que chega até meninas cada vez mais rápido. Talvez o meio tenha mudado, mas a pergunta sobre quem participa da construção do que significa “ser menina” continua extremamente atual.
“As crianças devem ser ensinadas a como pensar, não o que pensar.”
— Margaret Mead, Coming of Age in Samoa (1928)
E é justamente sobre isso que quero conversar no próximo post:
De W.I.T.C.H. ao TikTok: quem está ensinando as meninas a serem meninas? Porque se W.I.T.C.H. já conseguia misturar entretenimento, comportamento, identidade e consumo dentro de uma revista, o que acontece quando tudo isso cabe em um feed que nunca termina?

.jpeg)
.jpeg)
Apaixonadinha
Em reta final de prova
Não Inviabilize
Yellowface: A Impostora
Frieren, ep 13
3 comentários. Clique aqui para comentar também!
Cara, isso fez um BOOOM na minha mente. Óbvio que não foi só com Witch, hoje ainda sou facilmente influenciada a comprar algo quando tem uma temática que me agrada. Harry Potter por exemplo, é um universo do qual sou completamente apaixonada e hoje existem milhares de produtos para todas as áreas da tua vida com tal tema. Eu nunca tinha parado pra pensar nesse ponto, sobre quais meios ocupam o espaço das revistas e esses conteúdos que amávamos consumir naquela época, não vou ser hipócrita, amo rolar tela, mas eu não percebia que aquilo tinha um espaço na nossa vida e que hoje talvez nem tenha substituto.
ResponderExcluirAmei a temática de hoje. De verdade.
Vou ser bem clichê e terminar dizendo que vivemos uma época incrível!
Como marketeira com mestrado em Estudos Culturais, vou procurar essa dissertação agora mesmo!
ResponderExcluirAmo WITCH e me influenciou muito crescendo, apesar de que eu me importava menos com as questões cotidianas do que com o mundo mágico na época. Quando os conflitos começaram a se sobrepor, eu tinha migrado para outros quadrinhos, especialmente mangá.
E WITCH nem é o exemplo mais bem-sucedido de construção e manutenção de marca: coisas como Harry Potter e Sailor Moon nunca saíram de moda e têm produto de tudo deles.
Texto muito bacana!
"Podemos gostar genuinamente de uma história e, ao mesmo tempo, reconhecer que existe toda uma estrutura comercial e cultural ao redor dela."
ResponderExcluirImportantíssimo isso!!
Acompanhei um pouquinho de Witch na época também através da minha irmã, adorei o post e as memórias que me trouxe