Nunca consegui te dizer isso...
Oi, tia.
Tem tanta coisa que eu queria te dizer.
A principal delas é que eu não larguei os estudos, como você sempre me pedia. Continuei. Espero que, de alguma forma, isso tenha te dado orgulho, assim como à nossa família.
Também sinto sua falta. A Dani e o Fungão também. Faz tantos anos, né?
Existem perguntas que ficaram presas comigo porque, bem, você não está mais aqui para respondê-las. Por que você não largou o cigarro quando recebeu o diagnóstico? Por que não mudou de vida para ficar mais alguns anos com a gente? Por que nunca voltou para sua terra natal, que você dizia sentir tanta saudade, e preferiu passar a vida inteira cuidando dos filhos dos outros?
Durante muito tempo eu senti raiva. Raiva da forma como você partiu. Raiva por acreditar que você não tinha feito tudo o que podia para continuar aqui com a gente.
Só que crescer também significa enxergar as pessoas além das nossas dores.
Hoje eu entendo um pouco mais da mulher que você foi. Entendo que você carregava uma infância marcada pela pobreza, pelo abuso psicológico e sexual. Entendo que a bebida e o cigarro talvez tenham sido a forma mais fácil que você encontrou para suportar tudo isso enquanto seguia em frente. Você trabalhava como se não existisse amanhã e, olhando agora, já adulta, percebo que talvez realmente não existisse outro caminho que fizesse sentido para você naquele momento.
Você tentou lutar do jeito que conseguiu.
E, pela primeira vez, sinto que consigo perdoar aquele sentimento que carreguei por tantos anos. Perdoar a ideia de que você simplesmente tinha escolhido nos deixar aqui. Ainda existem dias em que esses sentimentos se misturam, entram em conflito e voltam à superfície, mas eles já não ocupam o mesmo espaço de antes.
Hoje, acima de tudo, existe gratidão.
Gratidão por ter me mostrado a beleza da vida sempre que podia. Por me levar à praia. Por ter organizado uma festa de aniversário na escola só para me ver feliz. Por me ensinar como funcionava o jogo do bicho, e também a jogar sueca. Por tantas memórias pequenas que, com o tempo, se tornaram gigantes.
Obrigada por ter me deixado fazer parte da sua vida.
Espero que, onde quer que você esteja, exista paz.
E espero que um dia a gente se encontre de novo.
Eu te amo (e podia te me ensinado o que era pirocoptero, viu?)


Amando e sendo amada ?
Preciso voltar estudar para a prova
Divã da Diva
Nadinha
Friends, temp 3
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