Quando o amor deixa de ser amor ? | O Pergaminho Esquecido BEDA #01
Eu sempre fui muito dessas pessoas que terminam um filme e ficam pensando nele por horas. Às vezes penso na história, às vezes em algum personagem específico e, em alguns casos, fico pensando em como aquela situação seria se acontecesse comigo. Acho que é justamente aí que entra uma das coisas que mais gosto no cinema: ele consegue colocar diante da gente situações que talvez nunca tenhamos vivido, mas que, de alguma forma, nos fazem refletir sobre a nossa própria vida.
Eu acredito muito na capacidade terapêutica do cinema. Se antes as pessoas se reuniam ao redor de uma fogueira para contar histórias, hoje fazemos praticamente a mesma coisa, só que empoleirados no sofá, com uma televisão enorme na nossa frente e, provavelmente, um balde de pipoca do lado. A diferença é que agora temos atores, diretores, roteiristas e histórias vindas dos mais diferentes lugares para nos fazer companhia.
E foi pensando nisso que resolvi falar sobre relacionamentos abusivos através de alguns filmes. Não porque cinema tenha resposta para tudo, muito menos porque um filme vá ensinar alguém a reconhecer uma relação abusiva, mas porque algumas histórias conseguem mostrar coisas que, quando estamos dentro de uma situação, podem ser muito difíceis de enxergar.
Porque relacionamento abusivo nem sempre começa com uma agressão. Às vezes começa com um "não gosto daquele seu amigo", passa para um "você não precisa sair sem mim", depois vira "se você realmente me amasse, não faria isso". Quando percebemos, estamos justificando comportamentos que, olhando de fora, parecem completamente absurdos.
E eu acho que esse é um dos pontos mais assustadores: quem está dentro da situação nem sempre percebe quando a linha foi ultrapassada.
Por isso, antes de entrar nos filmes, já deixo aqui um aviso que considero importante: o primeiro sinal de abuso merece atenção. Não é preciso esperar uma agressão física, uma ameaça ou uma situação extrema para entender que alguma coisa está errada.
Se você consegue sair com segurança, saia. Se naquele momento você não consegue, principalmente por questões financeiras, dependência ou falta de uma rede de apoio, comece a se preparar. Guarde dinheiro, organize seus documentos, converse com alguém de confiança e construa, aos poucos, uma possibilidade de saída.
Não estou dizendo isso como se fosse simples. Aliás, acho que uma das maiores injustiças quando falamos sobre relacionamentos abusivos é olhar para alguém que está sofrendo e simplesmente dizer: "é só terminar". Se fosse tão fácil, provavelmente ninguém permaneceria em uma situação assim.
Agora vamos aos filmes.
O Drama
Um casal feliz e recém-noivado é colocado à prova quando uma revelação inesperada faz com que a semana do casamento saia completamente dos trilhos.
O Drama acompanha os dias que antecedem o casamento de Charlie, interpretado por Robert Pattinson, e Emma, vivida por Zendaya. Eles parecem aquele casal moderno, apaixonado e levemente desesperado com a quantidade de coisas que precisam resolver antes do casamento. E sinceramente? Só de pensar em organizar uma festa desse tamanho eu já estaria querendo fugir pela janela.
Durante uma degustação para escolher comidas e bebidas para a cerimônia, junto de um casal de amigos, surge uma pergunta aparentemente inocente: qual foi a pior coisa que vocês já fizeram?
Os quatro respondem. Só que a resposta de Emma muda completamente o clima da conversa.
A partir daí, aquilo que parecia ser apenas mais uma história sobre um casal apaixonado começa a ganhar outras camadas. E gosto bastante desse tipo de história porque ela mexe com uma coisa muito básica das nossas relações: quanto realmente conhecemos alguém?
Às vezes convivemos anos com uma pessoa e ainda existem partes dela que desconhecemos completamente. E não estou falando necessariamente de grandes segredos. Pode ser a maneira como ela reage quando é contrariada, como trata outras pessoas ou como lida com situações em que não consegue controlar o que está acontecendo.
Talvez por isso O Drama funcione tão bem como ponto de partida para esse assunto. Nem sempre o problema está estampado na testa de alguém. Algumas coisas só aparecem quando a pessoa é colocada diante de uma situação que foge do seu controle.
É Assim Que Acaba
Aqui já entramos em um território bem mais doloroso.
É Assim Que Acaba é muito mais do que uma história de romance. É uma história sobre ciclos, traumas de infância e, principalmente, sobre a dificuldade de reconhecer quando uma relação que deveria ser amorosa começa a se tornar perigosa.
A trama acompanha Lily, interpretada por Blake Lively, enquanto sua vida adulta começa a se misturar com lembranças da infância. Nos flashbacks, conhecemos o relacionamento abusivo de seus pais e também Atlas, seu primeiro amor.
Quando Lily conhece Ryle, interpretado por Justin Baldoni, tudo parece caminhar para aquela história de romance que a gente já conhece. Existe química, existe paixão e existe aquela sensação de que finalmente encontramos alguém especial.
Só que, aos poucos, aparecem comportamentos que não podem ser ignorados.
E talvez essa seja a parte que mais me incomoda nesse tipo de história. Quando assistimos de fora, é muito fácil pensar: "Meu Deus, por que ela ainda está com ele?". Mas a personagem não está vendo apenas o pior daquele homem. Ela também se lembra de quem ele era nos momentos bons, das coisas que viveram juntos, dos pedidos de desculpa e das promessas de que aquilo nunca mais vai acontecer.
É muito fácil julgar uma pessoa quando estamos sentados confortavelmente no sofá, comendo pipoca e sabendo exatamente tudo o que está acontecendo. Na vida real, infelizmente, ninguém recebe o roteiro antecipadamente.
O filme também mostra como os nossos próprios traumas podem influenciar aquilo que aceitamos em um relacionamento. Lily cresceu vendo a mãe sofrer violência e, mesmo assim, precisa enfrentar a própria dificuldade de reconhecer que está repetindo um ciclo.
E acho que esse é um dos pontos mais importantes da história: amar alguém não significa ser obrigado a suportar aquilo que essa pessoa faz com você.
Garota Exemplar
No dia do seu aniversário de casamento, Amy Dunne, interpretada por Rosamund Pike, desaparece. Tudo indica que ela pode ter sido sequestrada e, conforme a investigação avança, o principal suspeito passa a ser seu marido, Nick Dunne, vivido por Ben Affleck.
A partir daí, temos um verdadeiro jogo de gato e rato.
A direção de David Fincher, combinada ao roteiro de Gillian Flynn, autora do livro que deu origem ao filme, transforma a história em um suspense cheio de reviravoltas. A narrativa alterna entre o presente e os acontecimentos do passado, mostrando diferentes versões daquele casamento e fazendo o espectador questionar praticamente tudo.
E aqui temos uma diferença importante em relação aos outros filmes da lista: em Garota Exemplar, a mulher também pode ocupar o papel de abusadora.
Amy é uma personagem extremamente manipuladora. Ela controla situações, pessoas e narrativas para conseguir aquilo que deseja. E isso é importante porque, quando falamos de relacionamentos abusivos, existe uma tendência de imaginar automaticamente o homem como agressor e a mulher como vítima.
Só que abuso não funciona dessa maneira.
Mulheres também podem controlar, manipular, ameaçar, humilhar e exercer violência psicológica ou física. E acho interessante que o cinema também mostre esse lado, porque reconhecer que isso existe não diminui em nada a importância de discutir a violência contra as mulheres.
Aliás, *Garota Exemplar* talvez seja um dos melhores exemplos de como uma relação pode se tornar um verdadeiro jogo psicológico. E, nesse caso, eu definitivamente não recomendaria ninguém tentar copiar as estratégias da Amy. Pelo bem da humanidade e dos nossos boletins de ocorrência.
A Cor Púrpura
Na versão de 2023, adaptada do musical da Broadway, acompanhamos Celie, interpretada por Fantasia Barrino, uma mulher que passa boa parte da vida enfrentando situações de violência e abuso.
Celie é abusada pelo próprio pai, engravida e é afastada dos filhos. Depois, é entregue para viver com Mister, interpretado por Colman Domingo, em uma relação marcada por violência, controle e humilhação.
Sua principal ligação afetiva é com a irmã Nettie, mas as duas acabam separadas depois que Nettie também sofre uma situação de violência e é expulsa de casa.
A história é pesada. Muito pesada, na verdade. Mas existe algo interessante nessa versão de A Cor Púrpura: entre músicas, dança e momentos de leveza, acompanhamos uma mulher tentando descobrir quem ela é depois de passar tanto tempo sendo tratada como se não fosse ninguém.
E acho que isso é algo que muitas histórias sobre violência esquecem de mostrar. A vítima não é apenas a violência que sofreu.
Existe uma pessoa ali. Com sonhos, desejos, vontades, personalidade e uma vida inteira que pode continuar depois daquele relacionamento.
É uma coisa que parece óbvia quando escrevemos, mas que nem sempre é lembrada quando falamos sobre violência doméstica.
E quando a mulher é a abusadora?
Eu não queria falar sobre relacionamentos abusivos sem tocar nesse assunto, porque também acho importante não transformar a discussão em uma espécie de "homens fazem, mulheres sofrem".
Não é tão simples assim.
Garota Exemplar é um ótimo exemplo de personagem feminina abusiva e manipuladora, mas existem outras histórias que também brincam com essa inversão de papéis.
Atração Fatal, por exemplo, apresenta Alex, interpretada por Glenn Close, que passa a perseguir e ameaçar o homem com quem se envolveu. É um filme interessante justamente porque mostra como uma relação pode sair completamente do controle e como obsessão e manipulação não são características exclusivamente masculinas.
E, embora não seja exatamente uma história sobre relacionamento amoroso, A Órfã também traz uma personagem feminina que manipula as pessoas ao seu redor e constrói uma identidade para conseguir o que quer.
Talvez seja importante falar disso porque, no fim das contas, abuso não tem um único rosto.
Pode ser homem. Pode ser mulher. Pode acontecer em um namoro, casamento, amizade ou até dentro da família.
O que torna uma relação abusiva não é o gênero de quem está nela, mas o comportamento.
Mas como saber quando passou do limite?
Essa talvez seja a parte mais difícil.
Porque ninguém começa um relacionamento pensando: "hoje vou escolher uma pessoa abusiva para fazer parte da minha vida". Se fosse assim, seria muito mais fácil.
O problema é que os sinais podem aparecer aos poucos.
É a pessoa que quer saber onde você está o tempo inteiro. Que escolhe suas roupas. Que não gosta dos seus amigos. Que transforma qualquer conversa em uma discussão. Que faz você se sentir culpado por tudo. Que pede desculpas e depois repete o mesmo comportamento. Que diz que está fazendo aquilo porque ama você.
E talvez a frase que mais precise ser repetida seja essa:
- Controle não é cuidado.
- Ciúme não é prova de amor.
- Humilhação não é sinceridade.
- Medo não deveria fazer parte de um relacionamento.
- E você não precisa esperar a situação ficar insuportável para levar esses sinais a sério.
Se você está percebendo que alguma coisa está errada, converse com alguém. Não se isole. Se for possível sair, saia. Se não for, comece a construir sua independência. Ter uma reserva financeira, documentos organizados e uma rede de pessoas em quem você confia pode parecer pouco, mas pode fazer uma diferença enorme quando chegar a hora de tomar uma decisão.
E aqui entra uma coisa que considero muito importante: você não precisa ter certeza absoluta de que "é abusivo o suficiente" para pedir ajuda.
Se alguma coisa está fazendo você se sentir inseguro, diminuído ou com medo, isso já merece atenção.
No fim, talvez seja por isso que eu goste tanto de filmes. Eles nos permitem observar histórias que não são nossas e, de vez em quando, reconhecer alguma coisa nelas.
Esse post faz parte do O Pergaminho Esquecido : Guardado desde Março 2026





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1 comentários. Clique aqui para comentar também!
Oii!
ResponderExcluirEu já terminei um relacionamento depois de assistir 'Normal People' e sentir que eu não era amada do jeito que eu gostaria, que eu tinha que ficar escondendo meus sentimentos e mascarando eles. O lance de olhar para o parceiro e não ver aquele amor no olhar, nem em mim por ele e nem de mim comigo mesma. Foi terminar e eu vi que meu brilho foi voltando.
Já vi vários casos de mulheres terminando relacionamentos por causa de ACOTAR, quando viam que o feérico fazia love bombing, mas trancava a mocinha em casa e não encorajava nada do que ela fazia.
Amei teu post e tua reflexão. A gente deveria falar mais sobre isso!
Abração
https://falacatarina.com/blog/