Quem está ensinando as meninas a serem meninas?

by - setembro 19, 2026

No texto anterior, enquanto escrevia sobre W.I.T.C.H. e tentava entender por que aquelas cinco personagens fizeram parte da infância de tantas meninas, uma pergunta ficou na minha cabeça: se revistas, desenhos, filmes e programas de televisão ajudavam a construir nossas referências sobre o que significava ser menina, quem está fazendo isso hoje?

Talvez a resposta mais óbvia esteja na tela que carregamos no bolso. Quando eu era mais nova, existia um intervalo maior entre uma referência e outra. Você comprava uma revista e passava algum tempo com aquela edição, esperava o próximo episódio de uma série, assistia a um programa em determinado horário e depois conversava sobre aquilo na escola. As referências existiam e eram muitas, mas havia algum tipo de começo e fim. Hoje temos um feed que praticamente nunca termina.

TikTok, Instagram, YouTube e outras plataformas acompanham meninas durante boa parte do dia e falam sobre praticamente tudo: como se vestir, como se maquiar, como cuidar da pele, o que comprar, como beijar, como saber se alguém está interessado em você, como deve ser um relacionamento, o que comer, como se exercitar, como estudar e até como organizar uma rotina perfeita. A pergunta, então, deixa de ser apenas “o que as meninas estão assistindo?” e passa a ser: o que elas estão aprendendo enquanto assistem?

W.I.T.C.H. também ensinava como ser menina

Foi justamente isso que começou a me chamar atenção enquanto pesquisava para o primeiro texto. W.I.T.C.H. não dizia apenas como derrotar um vilão. Existiam testes, matérias e livros falando sobre amizade, aparência, autoestima, escola, garotos e relacionamentos. As personagens funcionavam também como referências de comportamento. Em outras palavras, enquanto acompanhávamos uma história sobre magia, recebíamos pequenas respostas para perguntas muito reais sobre crescer.

E W.I.T.C.H. obviamente não estava sozinho nisso. Revistas adolescentes, programas de televisão, filmes, novelas, desenhos e celebridades fizeram isso durante décadas. A cultura sempre participou da construção das nossas referências sobre feminilidade. O que mudou foi a quantidade, a velocidade e, principalmente, quem pode ocupar esse lugar.

Uma revista precisava passar por uma editora e um programa precisava de uma emissora. Hoje uma adolescente pode abrir o TikTok e encontrar, em poucos minutos, uma psicóloga falando sobre autoestima, uma dermatologista explicando acne, uma menina da mesma idade contando sobre seu primeiro beijo, uma influenciadora mostrando uma rotina de beleza e uma pessoa sem qualquer formação dando conselhos sobre relacionamentos. Tudo aparece na mesma tela e, visualmente, muitas vezes com a mesma aparência de autoridade.

Nem tudo isso é ruim

Existe um lado das redes sociais que considero muito importante e que seria injusto ignorar. Elas deram acesso a conversas que durante muito tempo foram tratadas como constrangedoras ou proibidas. Sexo, menstruação, masturbação, beijo, contracepção, mudanças corporais, consentimento e relacionamentos são assuntos que nem toda menina consegue conversar tranquilamente dentro de casa.

Às vezes existe vergonha, às vezes os próprios pais não sabem como abordar determinado assunto e, em algumas famílias, certas conversas simplesmente não acontecem. É justamente nesse espaço que a internet pode ter um papel muito positivo. Uma menina com vergonha de perguntar sobre sua primeira menstruação pode encontrar uma profissional explicando o assunto. Outra pode descobrir o que significa consentimento, entender que determinada mudança no corpo é completamente normal ou até perceber que uma situação que está vivendo em um relacionamento não é saudável.

Existem inclusive pesquisas sobre educação sexual no TikTok que encontraram conteúdos relacionados à anatomia feminina, prazer, contracepção e saúde sexual. Isso mostra que a plataforma também pode facilitar o acesso a assuntos que nem sempre aparecem com a mesma abertura dentro de casa ou na escola.

Para mim, isso é importante porque seria muito fácil cair naquela ideia de que “na minha época era melhor”. Não era. Nós também tínhamos informações ruins, padrões de beleza, conselhos questionáveis e comportamentos problemáticos sendo apresentados como normais. A internet não inventou isso. Ela apenas criou uma nova maneira, muito mais rápida e constante, de fazer essas mensagens circularem.


Mas quem está do outro lado da tela?

O problema é que, dois vídeos depois de uma informação excelente, a fonte pode ser completamente diferente. Imagine uma menina de 13 anos pesquisando sobre primeiro beijo. Ela encontra uma profissional explicando ansiedade e consentimento. Depois aparece uma influenciadora contando uma experiência pessoal. Logo abaixo, alguém publica “cinco coisas que todo homem faz quando realmente ama você”. Em seguida vem uma publicidade de maquiagem e, depois, um vídeo ensinando como uma mulher deve agir para fazer um homem “correr atrás dela”.

Para uma pessoa adulta, com mais repertório e experiência, talvez seja relativamente fácil separar entretenimento, publicidade, experiência pessoal e informação profissional. Para alguém que ainda está construindo suas referências sobre corpo, amor, sexualidade e relacionamentos, essa divisão pode não ser tão óbvia.

É aí que vejo um dos maiores problemas das redes sociais: popularidade pode parecer autoridade. Uma pessoa pode falar com muita segurança, ter milhões de seguidores, uma edição bonita e milhares de comentários concordando com ela sem necessariamente ter conhecimento sobre aquilo que está ensinando. E quando estamos falando de maquiagem ou de uma tendência de roupa, as consequências podem ser pequenas. Quando estamos falando sobre sexo, saúde, alimentação, autoestima ou relacionamentos, a situação muda.

O algoritmo também participa dessa educação

Existe ainda uma diferença enorme entre pegar uma revista na banca e abrir o TikTok: a revista não mudava suas páginas enquanto você lia. O feed muda. Aquilo que assistimos, pesquisamos, curtimos e com que interagimos ajuda a determinar aquilo que aparecerá depois. Isso significa que duas meninas podem abrir a mesma plataforma e receber mundos completamente diferentes.

Isso fica especialmente evidente quando pensamos em aparência. Uma menina que começa assistindo a conteúdos sobre maquiagem pode rapidamente encontrar skincare, procedimentos estéticos, dietas, exercícios, transformações corporais e uma infinidade de vídeos mostrando como alcançar determinada aparência. Pesquisas e organizações de saúde já chamam atenção para a relação entre comparação social, redes sociais e imagem corporal durante a adolescência, principalmente entre meninas.

Mas existe uma contradição interessante nisso tudo: a mesma plataforma que pode reforçar um padrão também pode questioná-lo. Existem conteúdos sobre aceitação corporal, cabelos naturais, diferentes tipos de corpos, deficiências, acne, estrias e inúmeras características que dificilmente apareciam com a mesma diversidade nas revistas adolescentes de outras épocas. Alguns estudos sobre conteúdos de body neutrality no TikTok, por exemplo, encontraram efeitos positivos sobre satisfação corporal e valorização daquilo que o corpo consegue fazer.

Então talvez o problema não seja simplesmente dizer que “TikTok faz mal”. A questão é muito mais complexa: o que circula nessas plataformas, quem produz esse conteúdo e por que determinadas mensagens começam a aparecer repetidamente para determinada pessoa?

Quando “ele tem ciúmes porque ama” vira conselho

E aparência é apenas uma parte dessa conversa. Também aprendemos sobre amor observando outras pessoas amarem. Filmes fizeram isso, novelas fizeram isso, livros fizeram isso e revistas fizeram isso. Agora também observamos diariamente relacionamentos de influenciadores, celebridades e pessoas comuns.

O problema aparece quando determinados comportamentos são apresentados como provas de amor. Frases como “ele sente ciúmes porque se importa”, “se ele quiser sua senha é porque quer confiança”, “quem ama de verdade não desiste” ou “ela precisa se fazer de difícil” podem parecer apenas conselhos amorosos, mas também ajudam a construir referências sobre aquilo que consideramos normal dentro de uma relação.

Não estou dizendo que assistir a um vídeo sobre ciúme fará uma menina entrar em um relacionamento abusivo. Seria uma conclusão simples demais. O que me preocupa é a repetição de ideias que transformam controle, posse, invasão de privacidade e sofrimento em demonstrações de amor. Se uma menina ainda está descobrindo como funciona um relacionamento e encontra repetidamente pessoas dizendo que determinados comportamentos são normais, aquilo pode começar a parecer menos estranho.

Ao mesmo tempo, novamente temos o outro lado. As redes também permitem que psicólogos, organizações, sobreviventes e criadores falem sobre red flags, consentimento, violência psicológica, controle e relacionamentos abusivos. Uma menina pode justamente descobrir através da internet que aquilo que estava vivendo não deveria ser tratado como normal. A ferramenta que pode ajudar a normalizar um comportamento também pode ajudar alguém a reconhecê-lo como problemático.
Quem ensina também pode estar vendendo

Existe ainda uma camada que aproxima bastante essa discussão do texto anterior. No universo de W.I.T.C.H., histórias, personagens e produtos conviviam dentro de um mesmo ecossistema. Hoje essa mistura pode ser ainda mais difícil de perceber. Uma influenciadora pode começar falando sobre insegurança com a própria pele, contar uma experiência pessoal, mostrar sua rotina e, no meio disso, apresentar o produto que “mudou tudo”.

O conteúdo não parece necessariamente um comercial tradicional porque está misturado à vida daquela pessoa. Rotinas de skincare, vídeos de “arrume-se comigo”, maquiagem, moda, perfumes, academias, dietas e procedimentos estéticos podem funcionar ao mesmo tempo como entretenimento, conselho, construção de identidade e consumo.

E não significa que maquiagem, skincare ou moda sejam problemas. Eu gosto de várias dessas coisas. A pergunta que me interessa é outra: em que momento cuidar de si termina e começa a sensação de que precisamos comprar, corrigir ou transformar alguma coisa para sermos meninas do jeito certo?

Talvez essa seja uma das maiores diferenças entre a revista que eu lia e o feed que uma menina acompanha hoje. W.I.T.C.H. podia apresentar referências sobre como se vestir, se comportar, conquistar um garoto ou lidar com a própria aparência, mas a revista eventualmente era fechada. O TikTok não precisa ser fechado porque sempre existe outro vídeo esperando.




Então, quem está ensinando as meninas a serem meninas?

Quanto mais penso sobre isso, menos gosto da ideia de transformar essa discussão em uma guerra entre gerações. Não acho que antigamente fosse necessariamente melhor. Revistas apresentavam padrões de beleza, filmes romantizavam comportamentos problemáticos, programas de televisão reforçavam estereótipos e celebridades também vendiam produtos e estilos de vida.

A diferença é que hoje essas referências são muito mais numerosas, personalizadas e constantes. Ao mesmo tempo, meninas podem encontrar pessoas vivendo realidades que talvez nunca aparecessem nas revistas que eu lia. Encontram diferentes corpos, cabelos, histórias, culturas e maneiras de existir. Podem encontrar comunidades, descobrir informações sobre o próprio corpo, reconhecer uma violência ou simplesmente perceber que não são as únicas passando por determinada situação.

Talvez a internet não tenha tomado o lugar das antigas revistas. Ela multiplicou esse lugar. Hoje uma menina pode aprender alguma coisa com a mãe, uma professora, uma amiga, uma médica no YouTube, uma influenciadora no TikTok e uma desconhecida contando uma experiência nos comentários. E talvez justamente por isso nunca tenha sido tão importante aprender também a questionar quem está ensinando: quem está falando, de onde veio aquela informação, se aquela pessoa realmente entende do assunto, se está compartilhando uma experiência pessoal ou apresentando aquilo como verdade universal e se existe algum interesse comercial por trás.

No primeiro texto, comecei perguntando quando deixamos de consumir uma história e começamos a consumir um universo. Depois deste, fiquei pensando que talvez o desafio das meninas que cresceram com W.I.T.C.H. fosse descobrir quem queríamos ser entre revistas, personagens, amigas, família e tudo aquilo que existia ao nosso redor. As meninas que estão crescendo com TikTok continuam tentando descobrir muitas das mesmas coisas.

Só que agora existe um algoritmo participando da conversa.

“Ensinamos as garotas a se diminuírem, a tornarem-se menores.”
— Chimamanda Ngozi Adichie, We Should All Be Feminists

Fontes utilizadas:
A base conceitual continua sendo a dissertação Camille Jacques Prates, O Complexo W.I.T.C.H.: acionando a magia para formar garotinhas nas redes do consumo (ULBRA, 2008)

Para a parte contemporânea, usei principalmente estas referências:

American Psychological Association — Health Advisory on Social Media Use in Adolescence (2023). A APA discute comparação social, aparência, imagem corporal e a necessidade de alfabetização midiática entre adolescentes. Consultar o documento da APA

Fowler, Schoen, Smith & Morain — Sex Education on TikTok: A Content Analysis of Themes. Estudo acadêmico sobre educação sexual no TikTok, incluindo anatomia feminina, prazer, contracepção e saúde sexual. Ver o estudo no PubMed

UNICEF Brasil — Guia de Participação Cidadã de Adolescentes. Fundamenta a discussão sobre a dificuldade familiar em conversar sobre sexualidade e a importância da educação sexual para compreensão do corpo, proteção e desenvolvimento. Consultar o material do UNICEF

UNICEF Brasil — Conversa sem filtro: autoestima e confiança com o corpo na adolescência. Pesquisa com 1.004 adolescentes brasileiros sobre autoestima e percepção corporal. Ver a pesquisa do UNICEF

Seekis & Lawrence — How exposure to body neutrality content on TikTok affects young women’s body image and mood. O experimento encontrou resultados positivos do conteúdo de neutralidade corporal sobre satisfação corporal, apreciação da funcionalidade do corpo e humor. Ver o artigo científico

Maes & Vandenbosch — estudo longitudinal sobre Instagram, TikTok e imagem corporal de adolescentes. É uma referência importante justamente por trazer nuance: nesse estudo, uso de TikTok ou Instagram por si só não previu mudanças posteriores nos indicadores analisados, reforçando que precisamos observar tipos de conteúdo e formas de uso, e não simplesmente culpar uma plataforma. Ver o estudo

Kulkarni et al. — estudo sobre representações midiáticas e expectativas amorosas de adolescentes. Os participantes utilizavam representações de casais na mídia como referência para pensar suas próprias expectativas e desejos sobre relacionamentos. Ver o artigo científico

Ruiz-Palomino et al. — Influence of beliefs about romantic love on the justification of abusive behaviors among early adolescents. Analisa mitos do amor romântico e percepção de comportamentos abusivos entre adolescentes. Consultar o estudo

Griffiths et al. — estudo sobre algoritmos do TikTok e transtornos alimentares. A pesquisa analisou mais de 1 milhão de vídeos entregues a participantes e encontrou forte personalização de conteúdos problemáticos entre usuários com transtornos alimentares, mostrando por que o papel do algoritmo merece entrar na discussão. Ver o artigo

Estudo de 2026 em Young Consumers sobre vídeos “Get Ready With Me”. Analisou 198 vídeos com crianças e adolescentes e discute beleza, identidade, autenticidade, produtos e comercialização da juventude no TikTok. Ver o estudo sobre GRWM no TikTok

Pew Research Center — Teens, Social Media and Technology 2024. Dá dimensão da presença das plataformas na adolescência: entre adolescentes americanos pesquisados, 66% das meninas disseram usar TikTok e 19% disseram utilizá-lo quase constantemente.
Consultar a pesquisa do Pew Research Center






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