Quando ser mulher também podia ser motivo para ser chamada de bruxa
Todo dia 31 de outubro elas aparecem: chapéu pontudo, vassoura, caldeirão, gato preto e, dependendo da fantasia, uma quantidade questionável de teia de aranha de algodão espalhada pela casa. A bruxa se tornou uma das personagens mais famosas do Halloween e hoje existe quase como um símbolo da data. Só que, por trás dessa imagem que aprendemos a reconhecer nos filmes, livros e desenhos, existe uma história muito menos divertida. Durante séculos, ser chamada de “bruxa” não era uma fantasia. Era uma acusação que poderia terminar em prisão, tortura e morte. E, na maior parte das vezes, quem carregava essa acusação era uma mulher.
O que foi a caça às bruxas?
Apesar de normalmente imaginarmos a caça às bruxas acontecendo no coração da Idade Média, o período mais intenso das perseguições ocorreu principalmente durante a Idade Moderna, especialmente entre os séculos XVI e XVII. As perseguições variaram muito de uma região para outra, mas milhares de pessoas foram processadas sob acusações de bruxaria na Europa. As estimativas históricas mais aceitas apontam para algo entre 40 mil e 60 mil execuções, e aproximadamente três quartos das pessoas condenadas eram mulheres.
A ideia de que determinadas pessoas poderiam fazer pactos com o Diabo, provocar doenças, destruir colheitas, causar infertilidade ou lançar maldições alimentou um enorme medo coletivo. Religião, conflitos sociais, crises econômicas, disputas entre vizinhos e crenças populares se misturavam. Uma morte inexplicável, uma colheita ruim ou uma doença poderiam ser suficientes para fazer alguém procurar um culpado.
E havia um detalhe bastante conveniente nessa história: a sociedade já tinha aprendido a desconfiar das mulheres.
Um dos textos que ajudaram a alimentar esse imaginário foi o Malleus Maleficarum, publicado no final do século XV. O tratado relacionava de maneira particularmente forte as mulheres à bruxaria e ao pecado e se tornou uma das obras mais conhecidas da demonologia europeia. A própria Encyclopaedia Britannica o descreve como profundamente misógino.
Mas por que tantas mulheres?
Essa talvez seja a parte da história que mais me incomoda — e também a que torna impossível falar sobre caça às bruxas sem falar sobre gênero.
Não existia um único perfil de mulher acusada. As circunstâncias mudavam dependendo da época e do lugar. Mulheres mais velhas e social ou economicamente vulneráveis aparecem com frequência nos registros, mas mulheres casadas, viúvas, pobres e até integrantes de famílias relativamente respeitadas também foram acusadas. Em algumas regiões, homens representaram uma parcela considerável das vítimas. Ainda assim, olhando para a Europa como um todo, as mulheres constituíram a grande maioria dos acusados e condenados.
Isso aconteceu dentro de sociedades em que mulheres possuíam muito menos poder político, econômico e jurídico e nas quais já circulavam ideias religiosas e culturais que as apresentavam como moralmente mais frágeis ou mais suscetíveis ao pecado. A imagem da “bruxa” foi sendo construída dentro desse contexto.
E talvez seja justamente por isso que ela continue sendo tão poderosa tantos séculos depois.
Você sabia que nem toda “bruxa” era uma parteira ou curandeira
Aqui entra uma história que eu mesma já vi sendo repetida incontáveis vezes: a ideia de que as mulheres perseguidas como bruxas eram principalmente parteiras, herbalistas e curandeiras que dominavam conhecimentos que ameaçavam os homens e a medicina tradicional.
É uma narrativa poderosa. O problema é que a documentação histórica não permite generalizar dessa forma.
Mulheres que praticavam formas populares de cura realmente aparecem entre as acusadas. Uma análise de registros escoceses, por exemplo, identificou pessoas acusadas em situações relacionadas à cura popular. Mas estudos históricos sobre a associação entre parteiras e bruxaria mostram que as parteiras não formavam, de maneira geral, um grupo especialmente perseguido durante os julgamentos.
E acho que a história não precisa desse exagero para ser assustadora.
Mulheres foram perseguidas. Mulheres foram torturadas. Mulheres foram executadas. E muitas vezes bastavam suspeitas, conflitos comunitários e uma sociedade preparada para acreditar que uma mulher poderia carregar dentro de si alguma coisa perigosa.
E Salem?
Quando pensamos em caça às bruxas, é quase impossível não pensar em Salem. Mas os famosos julgamentos aconteceram bem depois do início das perseguições europeias.
Entre 1692 e 1693, mais de 200 pessoas foram acusadas de bruxaria na região de Salem, na então colônia de Massachusetts. Vinte foram executadas. Dezenove morreram enforcadas e Giles Corey morreu após ser submetido a uma forma brutal de tortura. Outras pessoas morreram enquanto estavam presas.
E aqui existe outro detalhe que a cultura pop às vezes apaga: as “bruxas de Salem” não foram queimadas na fogueira. As pessoas executadas foram principalmente enforcadas. A fogueira esteve presente em partes da perseguição europeia, mas não foi o destino das condenadas de Salem.
Talvez Salem tenha permanecido tão forte no nosso imaginário justamente porque aquela história parece absurda quando vista de longe. Pessoas acusando vizinhos, tribunais aceitando evidências impossíveis, medo se transformando em prova e pessoas inocentes morrendo porque uma comunidade inteira passou a enxergar monstros onde existiam seres humanos.
O que 31 de outubro tem a ver com tudo isso?
Historicamente, é importante separar as coisas. O dia 31 de outubro não foi criado para lembrar as mulheres executadas por bruxaria.
As raízes do Halloween estão relacionadas a diferentes tradições históricas, entre elas o Samhain, festividade associada ao fim da colheita e à chegada da parte escura do ano nas culturas celtas. A noite anterior ao Dia de Todos os Santos também se tornou conhecida como All Hallows’ Eve, expressão que acabaria originando a palavra Halloween. Com o passar dos séculos, fantasmas, mortos, criaturas sobrenaturais e, claro, bruxas passaram a ocupar cada vez mais o imaginário dessa noite.
Então talvez a pergunta mais interessante não seja por que 31 de outubro é uma data importante para as mulheres, como se existisse uma ligação histórica oficial.
Talvez seja: por que nós transformamos essa data em uma oportunidade para falar sobre elas?
De monstro a símbolo feminino
Existe alguma coisa quase irônica no destino da imagem da bruxa.
Durante séculos, ela representou aquilo que uma mulher não deveria ser. A velha assustadora. A mulher inconveniente. Aquela que sabia demais. Aquela que vivia à margem. A que não inspirava confiança. A mulher associada ao desejo, ao pecado, ao sobrenatural e à desobediência.
Hoje, muitas mulheres fizeram justamente o contrário: pegaram essa imagem e a reivindicaram para si.
A bruxa passou a aparecer na literatura, na música, no cinema e dentro de movimentos feministas como símbolo de autonomia, resistência e poder feminino. Isso não significa que todas as mulheres executadas séculos atrás fossem feministas secretas, curandeiras revolucionárias ou mulheres independentes perseguidas exclusivamente por desafiarem homens. Transformar todas elas nisso seria criar outra versão romantizada da história.
Mas existe algo muito real que podemos recuperar delas: a memória de um período em que preconceitos sobre o que uma mulher era ou deveria ser ajudaram a determinar quem parecia suspeita, perigosa ou culpada.
Por isso gosto de pensar no 31 de outubro também dessa maneira. Podemos assistir a filmes de terror, ler nossas histórias de bruxas, colocar chapéu pontudo, acender velas e entrar completamente no clima de Halloween — eu definitivamente vou continuar fazendo tudo isso.
Mas também podemos lembrar que, durante muito tempo, “bruxa” foi uma palavra usada para transformar pessoas reais em monstros.
E talvez exista algo muito bonito no fato de tantas mulheres terem pegado justamente essa palavra séculos depois e respondido:
Tudo bem. Então seremos as bruxas.
Caso queira saber mais a fundo do assunto, recomendo o podcast:




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Marina
Diario de uma Apotecaria, temp 3
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Eu adorei esse post e toda reflexão que você fez... bastava um homem se sentir ameaçado por uma mulher, pra colocar ela nessa posição e endomonizar tudo o que ela faz... gosto de pensar nisso também, que somos todas bruxas! <3
ResponderExcluirInfelizmente com o clima atual do mundo é um post que a situação se torna cada vez mais atual, mas no fundo somos todas bruxas e iremos resistir mais uma vez !
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