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Outubro foi um daqueles meses em que parece que vivi umas três vidas diferentes. Teve aniversário, comida japonesa, livros maravilhosos, novos projetos, algumas horas de jogatina e, para fechar com chave de ouro, uma eleição presidencial que praticamente transformou o Brasil no último episódio de uma série de suspense político. Confesso que não estava preparada emocionalmente para tantas emoções, mas aqui estamos, vivíssimas e com muitas histórias para contar.

Resolvi começar meu Document Your Life justamente para isso: registrar as pequenas coisas que acontecem durante o mês, mesmo aquelas que não parecem extraordinárias. Afinal, nem toda lembrança precisa envolver uma viagem internacional ou algum grande acontecimento. Às vezes, um jantar gostoso, um livro que nos marcou ou uma tarde tranquila em casa já merecem seu espacinho na memória.



No dia 11 de outubro, completei oficialmente 30 anos! E, embora outubro seja o mês de aniversário de boa parte da minha família, nunca fui exatamente uma grande entusiasta de festas. Minha ideia inicial era comprar um vestidinho inspirado em De Repente 30, porque, obviamente, eu precisava prestar essa homenagem à Jenna Rink. Quem tem essa referência, tem! Infelizmente, o vestido não chegaria a tempo e precisei abandonar temporariamente meu momento protagonista de comédia romântica dos anos 2000. Uma verdadeira tragédia fashion.

No fim das contas, meu aniversário foi exatamente como eu gosto: tranquilo e acompanhado de uma pessoa especial. Meu parceiro me levou para jantar em um restaurante japonês e, gente, quem me conhece sabe que sou completamente apaixonada por sushi. Comi tanto que seria injusto dizer que outubro foi um mês gastronômico, porque praticamente toda essa responsabilidade ficou concentrada em um único dia. Foi uma noite deliciosa e me fez pensar em como envelhecer também significa aprender a valorizar comemorações mais simples, sem a obrigação de transformar tudo em um grande evento.




Uma das notícias mais felizes de outubro foi confirmar minha matrícula no curso técnico de Multimídia do Senac, para o qual fui sorteada! Fiquei extremamente animada, especialmente porque estou finalizando minha graduação em Publicidade e Propaganda e continuo apaixonada por descobrir novas possibilidades dentro da comunicação. O curso tem duração de quase um ano e espero aproveitar bastante essa oportunidade para conhecer áreas da produção audiovisual que ainda não explorei tão profundamente.

Tenho muita vontade de entender melhor os bastidores de grandes produções, especialmente os processos técnicos utilizados por emissoras de televisão e equipes profissionais. Acho engraçado como, mesmo depois de tantos anos trabalhando na área, continuo encontrando assuntos que despertam minha curiosidade. E, sinceramente, espero nunca perder essa vontade de aprender. Se depender de mim, vou ser aquela senhorinha que resolve começar outra faculdade aos 70 anos simplesmente porque achou a grade curricular interessante.



A leitura escolhida para outubro no clube Amigas de Peito foi Marina, do maravilhoso Carlos Ruiz Zafón, indicação minha porque simplesmente adoro esse autor e queria muito que as meninas conhecessem sua escrita. Essa é a terceira vez que leio o livro e continuo encantada com a maneira como ele constrói suas histórias. Para quem ainda não conhece, Zafón foi um escritor espanhol que misturava mistério, elementos góticos e pequenos toques de realismo mágico, criando atmosferas tão envolventes que parece impossível não se apaixonar. Marina é um livro curtinho, com menos de 200 páginas em algumas edições, e uma excelente oportunidade para conhecer seu universo literário.

Uma curiosidade que sempre me encantou foi a resistência de Zafón às adaptações cinematográficas de suas obras. Ele defendia a experiência literária e acreditava que seus livros deveriam ser vividos principalmente por meio da leitura, algo que considero especialmente interessante nessa época em que praticamente tudo precisa virar uma série de streaming. Também descobri recentemente a existência de uma versão em audiolivro de A Sombra do Vento, uma das minhas obras favoritas da vida, e agora preciso encontrar uma oportunidade para ouvi-la. Aliás, se vocês nunca leram esse livro, considerem esta minha recomendação oficial e completamente apaixonada.



Neste mês, também terminei de acompanhar os episódios disponíveis de Witch Hat Atelier e estou completamente apaixonada pela história. A estética, os personagens e toda aquela construção delicada do universo mágico são simplesmente encantadores. Agora só me resta aguardar os próximos episódios e sofrer pacientemente, como qualquer pessoa que resolve acompanhar uma produção que ainda não terminou. Também comecei a assistir à nova temporada de MasterChef Profissionais e já estou bastante animada, especialmente com a participação da Irina, que acho muito simpática, e do Léo, que acompanhei no MasterChef Confeitaria. Claro que sempre existe uma galera que parece estar ali exclusivamente para biscoitar, mas faz parte do entretenimento, não é mesmo?

Uma coisa curiosa é que, apesar de trabalhar com redes sociais, não costumo acompanhar muitas celebridades e influenciadores nos meus perfis pessoais. Gosto de saber sobre seus trabalhos, mas prefiro evitar aquela exposição constante a vidas aparentemente perfeitas. Afinal, ninguém merece abrir o Instagram depois de um dia comum e descobrir que alguém da sua idade comprou outra mansão, viajou para a Europa pela quinta vez no mês e pegou um jatinho exclusivamente para malhar em outra cidade. Enquanto isso, minha grande vitória do dia foi lembrar de tirar o frango do congelador. Acho que precisamos aprender a consumir menos comparações e valorizar um pouquinho mais a vida que acontece fora das telas.



Outra novidade de outubro foi que comecei a fazer doces para vender! Tenho um projetinho pessoal em andamento e resolvi aproveitar uma coisa que sempre gostei muito de fazer para levantar um dinheiro extra. Quem me conhece sabe que adoro cozinhar, principalmente preparar bolos e sobremesas, então pensei: por que não? E não é que deu certo? As pessoas gostaram bastante, recebi retornos muito positivos e comecei até a considerar a possibilidade de transformar isso em alguma coisa maior no futuro. Ainda não sei exatamente onde essa ideia vai chegar, mas estou me divertindo bastante com a experiência.

E aqui preciso abrir um parêntese importantíssimo: gostar de fazer bolo não me faz menos feminista, tá, gente? Uma mulher pode amar cozinhar, cuidar da casa, usar vestidos floridos e continuar defendendo os direitos das mulheres. O feminismo não deveria nos obrigar a rejeitar tudo aquilo que foi historicamente associado ao feminino, mas garantir que tenhamos liberdade para escolher o que queremos fazer. Eu gosto de fazer bolo porque gosto de fazer bolo, não porque acredito que meu destino biológico seja passar a vida alimentando um homem. Inclusive, se amanhã eu decidir passar uma tarde inteira preparando cupcakes cor-de-rosa enquanto ouço Madonna, ninguém precisa vir apreender minha carteirinha de feminista na saída da cozinha. Muito obrigada!



Se no começo de outubro eu estava completamente angustiada com os rumos da política brasileira, o final do mês me trouxe um sentimento que há algum tempo eu não experimentava com tanta intensidade: esperança. Depois de semanas acompanhando discussões, declarações absurdas e pessoas defendendo coisas que considero completamente incompatíveis com uma sociedade democrática, foi emocionante observar a mobilização de tanta gente para participar das eleições. Jovens, estudantes, idosos e pessoas de diferentes gerações foram às ruas e às urnas para exercer um direito que, historicamente, custou muito a ser conquistado. O segundo turno registrou uma abstenção de aproximadamente 19,2%, a menor para essa etapa desde 2006, e mais de 128 milhões de brasileiros participaram da votação. Em tempos de tanta descrença nas instituições, ver essa mobilização foi algo realmente bonito.

E, sim, fiquei muito feliz com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para mais quatro anos de mandato. Para mim, essa vitória representa também a continuidade de um projeto político com o qual me identifico e, principalmente, a oportunidade de fortalecer nossas instituições democráticas. Mas também acredito que a esquerda precisa aproveitar os próximos anos para construir novas lideranças, renovar sua imagem e apresentar nomes capazes de dialogar com diferentes gerações. Um exemplo que chamou minha atenção foi Rafael Fonteles, governador do Piauí, matemático e mestre pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Durante a apuração, ele antecipou a vitória de Lula quando menos de 2% das urnas haviam sido contabilizadas! É muito interessante observar uma liderança que reúne formação acadêmica sólida, experiência administrativa e participação política. Claro que diploma não é garantia de competência ou caráter, mas seria interessante ver mais pessoas com esse perfil participando do debate nacional.

Agora, os dias seguintes à votação foram um espetáculo à parte, e não necessariamente no bom sentido. Flávio Bolsonaro fugiu do Brasil rumo aos Estados Unidos depois da derrota, mesmo diante de uma determinação judicial para entregar seus passaportes. Como se isso não fosse suficientemente surreal, circularam versões de uma carta atribuída a ele que o apresentavam como o verdadeiro presidente eleito, embora posteriormente a declaração tenha sido modificada (à pedido de Trump). Gente, em que momento a política virou um episódio perdido de The Office? É impressionante como algumas pessoas parecem ter uma dificuldade gigantesca de aceitar que a democracia também envolve perder eleições. Fiquei pensando em como passamos semanas acompanhando discursos sobre patriotismo para terminar assistindo a esse tipo de situação. É tragicômico, mas, acima de tudo, preocupante.

Claudia Sheinbaum | Presidenta do México


Uma das imagens mais bonitas desse período, para mim, foi o gesto das pessoas levantando a mão e formando a letra L como símbolo de apoio e resistência. Em meio a um cenário internacional no qual movimentos autoritários e de extrema direita continuam ganhando espaço em diferentes países, ver manifestações em defesa da democracia me trouxe uma sensação muito especial. Talvez seja meu cérebro completamente contaminado por livros e filmes distópicos, mas não consegui evitar a comparação com Jogos Vorazes. Existe alguma coisa muito simbólica em observar pessoas erguendo as mãos para demonstrar que não estão dispostas a abrir mão dos seus direitos. É quase como assistir à Katniss Everdeen levantando os três dedos, só que, na nossa versão, o símbolo é outro e a arena é a própria política brasileira.

E antes que alguém diga que estou romantizando a política, eu sei perfeitamente que nenhuma eleição resolve todos os problemas de um país. Também sei que nenhum político deveria ser colocado em um pedestal, independentemente do partido. Mas acredito que precisamos reconhecer os momentos em que a participação popular demonstra sua força. A democracia não é um presente que recebemos e guardamos em uma gaveta; é uma construção permanente, que depende de participação, fiscalização, informação e, principalmente, da disposição de defender direitos mesmo quando isso exige algum esforço. Talvez seja justamente por isso que outubro tenha terminado me deixando tão emocionada.

Toda essa experiência eleitoral também me fez assumir um compromisso comigo mesma: quero estudar mais sobre política. Não apenas acompanhar notícias ou discussões nas redes sociais, mas realmente compreender melhor os diferentes sistemas políticos, as origens da esquerda, da direita e do centro, os movimentos ideológicos e a maneira como essas correntes influenciaram a história do mundo. Quero entender como determinadas ideias surgiram, como foram transformadas ao longo dos séculos e por que algumas discussões parecem se repetir constantemente, apenas com personagens e tecnologias diferentes. Já comecei a pensar em uma pequena lista de leituras, misturando obras de não ficção, ensaios históricos e romances que abordam autoritarismo, resistência e organização social.

Acho que uma das coisas mais importantes que podemos fazer é reconhecer aquilo que ainda não sabemos. Não quero construir minhas opiniões apenas a partir de manchetes, vídeos de um minuto ou comentários de pessoas que nunca abriram um livro sobre o assunto. Quero estudar, questionar, rever conceitos quando necessário e desenvolver uma compreensão mais profunda da sociedade em que vivo. Talvez essa seja uma das maiores mudanças que os 30 anos estejam trazendo: a vontade de não apenas ter opiniões, mas conseguir fundamentá-las. E, considerando o tanto de livros que já tenho acumulados, aparentemente minha lista de leituras acabou de ganhar uma nova categoria. Minha estante que lute!



Olhando para tudo o que aconteceu, acho curioso como outubro conseguiu reunir tantos sentimentos diferentes. Completei 30 anos, comemorei com sushi, tive um período mais tranquilo no trabalho, joguei bastante, comecei novos projetos, recebi a notícia de uma oportunidade maravilhosa de estudar e revisitei um dos meus livros favoritos. Também acompanhei uma eleição que me deixou angustiada, emocionada, indignada e, finalmente, esperançosa. Foi um mês em que percebi que crescer não significa abandonar nossas pequenas paixões, mas aprender a encontrar espaço para elas enquanto seguimos construindo nossas próprias histórias.

Talvez seja exatamente por isso que eu queira continuar escrevendo esses registros. Quero chegar aos 40 anos e lembrar que, aos 30, eu ainda era apaixonada por livros, adorava fazer doces, queria aprender absolutamente tudo sobre comunicação e estava descobrindo novas maneiras de enxergar o mundo. Quero lembrar das pequenas alegrias, dos projetos que deram certo, dos que ficaram pelo caminho e até das minhas indignações políticas, porque tudo isso também faz parte de quem eu sou. E, principalmente, quero lembrar que outubro de 2026 terminou me ensinando uma coisa muito importante: a esperança não precisa ser ingênua, ela pode ser acompanhada de consciência, participação e muita vontade de aprender.

Agora que novembro está chegando, espero conseguir retomar meus estudos, organizar melhor meus projetos, continuar minhas leituras e, se possível, passar algumas semanas sem precisar acompanhar uma crise política digna de uma novela mexicana. Porque, sinceramente, uma garota só quer ler seus livrinhos, fazer seus bolinhos, assistir às suas séries e viver em uma democracia funcional. Será que é pedir muito? ♡

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Uma reflexão sobre mitologia, rivalidade feminina e essa mania milenar de responsabilizar mulheres pelas atitudes dos homens.

Eu sempre gostei muito de mitologia, principalmente da grega. Existe alguma coisa fascinante em descobrir como as pessoas tentavam explicar o mundo através de deuses, criaturas fantásticas, maldições e histórias que atravessaram milhares de anos. Além disso, convenhamos, o Olimpo era praticamente uma novela das nove, com direito a traições, escândalos familiares, vinganças e personagens que definitivamente precisavam de algumas sessões de terapia.

Mas, conforme fui ficando mais velha e comecei a revisitar algumas dessas histórias, percebi que muitas delas carregam questões que continuam extremamente presentes na nossa sociedade. E, como uma boa mulher que adora analisar absolutamente tudo enquanto deveria estar fazendo outra coisa, acabei entrando em uma reflexão sobre a maneira como a rivalidade feminina é retratada desde a Antiguidade.

Tudo começou quando estava lendo sobre Circe e Cila, duas personagens da mitologia que protagonizam uma história envolvendo amor não correspondido, ciúme e uma transformação monstruosa. Até aí, nada muito diferente do que estamos acostumadas a encontrar nos mitos gregos, afinal, aparentemente, ninguém naquele universo sabia lidar muito bem com um simples fora.

Entretanto, uma coisa me chamou a atenção: por que, em tantas dessas histórias, uma mulher acaba sofrendo as consequências de uma situação na qual um homem ocupa o papel central?

E quanto mais pensei nisso, mais comecei a encontrar semelhanças com situações que continuam acontecendo atualmente, seja nos relacionamentos, no ambiente de trabalho ou nas histórias que consumimos através de filmes, livros e séries.

Para quem não conhece, Circe é uma poderosa feiticeira da mitologia grega, conhecida por sua habilidade de transformar pessoas em animais. Já Cila, em uma das versões de sua história, era uma jovem extremamente bonita que despertou o interesse de Glauco, uma divindade marinha.

Acontece que Cila não estava interessada nele. Simples assim, divas. A bonita só queria viver a vidinha dela, provavelmente aproveitar o mar e cuidar dos próprios assuntos, mas aparentemente dizer não para uma divindade naquela época era o equivalente a solicitar um problema de proporções épicas.

Glauco, inconformado com a rejeição, procurou Circe na esperança de conseguir uma poção que fizesse Cila se apaixonar por ele. Porque aceitar que alguém não está interessado e seguir em frente seria uma alternativa sensata demais para a mitologia grega, não é mesmo?

O problema é que Circe acabou se apaixonando pelo próprio Glauco, que também não correspondeu aos sentimentos dela. E aqui temos uma sequência de acontecimentos que poderia facilmente render um episódio inteiro de Gossip Girl, só que com menos bolsas de grife e mais magia.

Circe, tomada pelo ciúme, decidiu se vingar de Cila e envenenou as águas onde a jovem costumava se banhar, transformando-a em uma criatura monstruosa. Essa versão aparece no livro XIV de Metamorfoses, do poeta romano Ovídio.

Agora, vamos analisar essa situação com calma: Glauco se apaixonou por Cila, Cila não queria Glauco, Circe queria Glauco e Glauco não queria Circe. Resultado? Cila virou um monstro. Meninas, eu realmente gostaria de entender como chegamos a essa conclusão, porque a matemática emocional desse povo não está fechando.

O que mais me incomoda nessa história é que Cila não fez absolutamente nada contra Circe. Ela não tentou conquistar Glauco, não disputou sua atenção e sequer demonstrou interesse nele. A jovem simplesmente existia, e isso foi suficiente para despertar a ira de outra mulher.

E aqui temos algo que continua sendo reproduzido até hoje: a ideia de que outra mulher é automaticamente uma ameaça quando recebe a atenção de um homem.

Quantas vezes encontramos situações em que uma mulher descobre uma traição e direciona toda a sua raiva exclusivamente para a outra mulher? O homem, que era justamente quem tinha um compromisso, muitas vezes acaba recebendo uma parcela menor da responsabilização, enquanto a outra pessoa se transforma na grande destruidora de lares da história.

É claro que existem situações em que uma terceira pessoa sabe perfeitamente que está participando de uma traição e precisa assumir a responsabilidade por suas escolhas. Mas existe uma diferença enorme entre reconhecer isso e agir como se o homem envolvido fosse apenas uma pobre criatura indefesa que tropeçou e caiu acidentalmente em um relacionamento extraconjugal.

Na história de Circe e Cila, o que vemos é uma mulher direcionando sua frustração para outra que não tinha qualquer responsabilidade pela rejeição que ela sofreu. E é interessante perceber como essa estrutura narrativa continua aparecendo, de diferentes maneiras, milhares de anos depois.





Outro mito que me fez pensar bastante foi o de Medusa, provavelmente uma das figuras femininas mais conhecidas da mitologia grega. Afinal, quem nunca viu a representação daquela mulher com serpentes no lugar dos cabelos, capaz de transformar qualquer pessoa em pedra com um simples olhar?

Mas o que muita gente não sabe é que existem diferentes versões sobre sua origem. Na Teogonia, de Hesíodo, Medusa já aparece como uma das três Górgonas. Entretanto, em uma versão posterior, narrada por Ovídio no livro IV de Metamorfoses, encontramos uma história que permite uma reflexão bastante diferente.

Segundo esse relato, Medusa era uma jovem conhecida por sua beleza, especialmente por seus cabelos. Poseidon, o deus dos mares, a violentou no templo de Atena, e a deusa, diante da profanação de seu espaço sagrado, transformou os cabelos da jovem em serpentes.

E aqui eu preciso abrir um pequeno parêntese porque, sinceramente, a mitologia grega tem momentos em que parece uma reunião de condomínio onde todo mundo está indignado, mas ninguém está cobrando explicações da pessoa certa.

Percebam a situação: Poseidon comete a violência, o templo de Atena é profanado e Medusa sofre a transformação. Enquanto isso, a narrativa não descreve uma punição equivalente para o deus dos mares. É praticamente o equivalente mitológico de uma mulher denunciar um problema e, de alguma maneira inexplicável, acabar sendo tratada como o próprio problema.

Diferentemente da história de Circe e Cila, Atena e Medusa não estavam disputando o amor de um homem. O conflito envolve violência, poder e a profanação de um espaço sagrado. Ainda assim, existe algo em comum entre os dois relatos: uma mulher sofre consequências devastadoras em uma situação na qual as ações masculinas são fundamentais.

E, infelizmente, não precisamos voltar à Antiguidade para encontrar situações semelhantes.

Até hoje, mulheres que sofrem violência sexual precisam enfrentar questionamentos sobre suas roupas, seus comportamentos, os lugares que frequentavam e até suas escolhas pessoais. Em vez de concentrarmos a atenção na responsabilidade de quem praticou a violência, muitas discussões acabam girando em torno daquilo que a vítima poderia ter feito para evitar o acontecimento.

O que ela estava vestindo? Por que foi até aquele lugar? Por que não reagiu? Por que demorou tanto para contar? Será que não deu a entender outra coisa? É quase como se existisse um questionário interminável que uma mulher precisasse responder antes que sua palavra pudesse ser considerada.

E aqui não estou dizendo que os antigos gregos e romanos compreendiam a violência ou a responsabilidade da mesma maneira que nós. Precisamos considerar os diferentes contextos históricos e as versões de cada mito. Entretanto, podemos utilizar essas narrativas para refletir sobre padrões culturais que continuam aparecendo em nossa sociedade.

Quando penso em Medusa, gosto de questionar por que uma figura tão frequentemente apresentada como monstruosa também pode ser interpretada, nessa versão específica, como alguém que sofreu uma violência e acabou carregando suas consequências. Talvez isso diga bastante sobre a maneira como escolhemos contar determinadas histórias e sobre quais personagens recebem nossa empatia.




Agora, saindo um pouquinho do Olimpo e voltando para o nosso mundinho de filmes, séries, livros e fofocas cuidadosamente analisadas durante o café da tarde, quero falar sobre como essas narrativas continuam presentes no entretenimento.

Pensem na quantidade de histórias que apresentam duas mulheres disputando o mesmo homem. Normalmente temos a protagonista, aquela que devemos amar e apoiar, e uma rival construída para despertar nossa antipatia. Essa rival costuma ser mais vaidosa, mais ambiciosa, mais sexualmente livre ou simplesmente mais confiante. Características que, curiosamente, muitas vezes seriam consideradas admiráveis se estivéssemos falando de um personagem masculino.

Em Meninas Malvadas, por exemplo, vemos como a competição por popularidade, aparência, reconhecimento e relacionamentos influencia a maneira como as adolescentes se relacionam. Regina George é praticamente a personificação da garota popular que muitas meninas aprenderam a temer, enquanto Cady começa a reproduzir os mesmos comportamentos que inicialmente criticava. O interessante é que o próprio filme também satiriza essa dinâmica e mostra como ela pode ser prejudicial para todas as envolvidas.

Já em O Diabo Veste Prada, acompanhamos mulheres tentando conquistar reconhecimento em um ambiente profissional extremamente competitivo. A relação entre Andy e Emily mostra como a disputa por oportunidades pode gerar ressentimento, especialmente quando o sucesso de uma parece depender do fracasso da outra. E, sinceramente, Miranda Priestly provavelmente conseguiria fazer uma sala inteira precisar de terapia apenas levantando uma sobrancelha.

Também não podemos esquecer de Gossip Girl, uma série que eu adoro, mas que rende uma verdadeira tese sobre rivalidade feminina. Serena e Blair possuem uma amizade cheia de afeto, conflitos, comparações e disputas por reconhecimento. Em diversos momentos, a atenção masculina também interfere na relação entre elas. E, embora a série apresente personagens complexas, é curioso observar como até uma amizade tão importante para a narrativa frequentemente precisa atravessar competições e traições.

O mesmo acontece em inúmeras novelas e comédias românticas, onde encontramos a amante destruidora de casamentos, a ex-namorada inconveniente, a garota popular cruel ou a colega de trabalho que parece ter sido contratada exclusivamente para sabotar a protagonista.

Obviamente, não estou dizendo que essas personagens não deveriam existir. Aliás, adoro uma vilã bem construída, principalmente quando ela tem boas roupas, diálogos afiados e uma personalidade memorável. O problema não está em apresentar mulheres imperfeitas, mas em perceber como a competição entre elas se tornou um recurso narrativo tão familiar.

É como se sempre precisássemos de uma Circe e uma Cila, uma mulher para admirar e outra para odiar. E, muitas vezes, o homem que desencadeou todo o conflito acaba ocupando uma posição surpreendentemente confortável no meio da situação.

Conveniente, não?





Uma das coisas que mais me entristecem quando penso nesse assunto é perceber como a comparação entre mulheres começa muito cedo.

Desde pequenas, somos comparadas pela aparência, pelo comportamento, pelas notas, pelas roupas e até pela maneira como recebemos atenção. Sempre existe uma menina considerada mais bonita, mais comportada, mais delicada ou mais feminina. E, enquanto crescemos, essas comparações começam a ganhar novas camadas.

Na adolescência, muitas vezes passam a envolver o interesse masculino. Quem é mais bonita? Quem começou a namorar primeiro? Quem recebe mais atenção? Quem é considerada desejável? É aquela fase em que estamos tentando descobrir quem somos, mas aparentemente também precisamos disputar um concurso de popularidade cuja inscrição ninguém se lembra de ter feito.

Na vida adulta, os critérios mudam, mas a competição continua firme e forte, quase como uma assinatura que esquecemos de cancelar.

Quem casou primeiro? Quem teve filhos? Quem conseguiu um emprego melhor? Quem comprou um apartamento? Quem aparenta ser mais jovem? Quem consegue equilibrar carreira, relacionamento, maternidade, academia, alimentação saudável e ainda manter o cabelo hidratado?

Amigas, pelo amor de Deus, às vezes eu só quero terminar minha graduação, ler meus livrinhos, pagar meus boletos e conseguir dormir oito horas por noite. Será que podemos ter um pouquinho de paz?

O mais curioso é que muitas dessas expectativas são completamente contraditórias. A mulher que prioriza a carreira pode ser acusada de negligenciar a vida pessoal, enquanto aquela que decide se dedicar à família pode ser julgada por não investir suficientemente na própria independência financeira. A mulher que não quer ter filhos precisa justificar sua decisão, enquanto a que deseja ser mãe frequentemente recebe opiniões que nunca solicitou.

Se estamos solteiras, perguntam quando vamos encontrar alguém. Se estamos namorando, querem saber sobre casamento. Se casamos, começam os questionamentos sobre filhos. E se decidimos não seguir nenhum desses caminhos, parece que precisamos apresentar um relatório explicativo, de preferência com gráficos e referências bibliográficas.

E o pior é perceber que, muitas vezes, essas cobranças também partem de outras mulheres.

É nesse momento que considero importante falar sobre misoginia internalizada, que acontece quando reproduzimos preconceitos e ideias negativas sobre mulheres, mesmo pertencendo a esse grupo. Não porque nascemos naturalmente competitivas ou cruéis, mas porque crescemos inseridas em uma sociedade que também nos ensina determinadas expectativas.

Acredito que reconhecer isso seja fundamental para começarmos a mudar nossas próprias atitudes. Afinal, não adianta defendermos a liberdade feminina em um discurso bonito e, cinco minutos depois, julgarmos outra mulher por tomar decisões diferentes das nossas.


Antes de continuar, acho importante esclarecer uma coisa: não acredito que sororidade signifique concordar com absolutamente tudo que outra mulher faz. Até porque, convenhamos, se eu não concordo nem comigo mesma em algumas decisões que tomei na semana passada, imaginem concordar com uma população inteira.

Mulheres são humanas. Podemos errar, agir de maneira cruel, ser egoístas, sentir inveja e tomar decisões questionáveis. E precisamos assumir a responsabilidade por essas atitudes, assim como qualquer outra pessoa.

O que acredito é que devemos aprender a diferenciar uma discordância legítima de uma rivalidade que foi praticamente ensinada para nós.

Uma mulher ser mais bonita do que eu não significa que sou menos bonita. Uma mulher conseguir uma oportunidade profissional não significa que meu talento desapareceu. Uma amiga se casar, ter filhos ou conquistar determinado sonho antes de mim não significa que estou atrasada na vida.

E talvez essa última comparação seja uma das mais difíceis de abandonar, principalmente em uma época em que as redes sociais nos apresentam diariamente os melhores momentos da vida de outras pessoas.

Às vezes, basta abrir o Instagram para descobrir que alguém da nossa idade está viajando pela Europa, comprando uma casa, inaugurando uma empresa ou anunciando uma gravidez planejada com uma decoração impecável. Enquanto isso, estamos tentando descobrir como conciliar trabalho, estudos, vida pessoal e uma pilha de roupas que parece se reproduzir sozinha dentro de casa.

Mas a conquista de outra mulher não deveria ser interpretada como uma declaração de fracasso pessoal.

Acho que precisamos reaprender a admirar sem necessariamente nos comparar. Celebrar a conquista de uma amiga, reconhecer o talento de uma colega e entender que existem inúmeras maneiras de construir uma vida feliz são atitudes que podem parecer pequenas, mas representam uma mudança importante na maneira como nos relacionamos.



Uma das coisas que mais gosto quando revisito histórias antigas é imaginar como elas poderiam ser interpretadas de maneiras diferentes.

Circe era uma feiticeira poderosa, conhecedora de magia e capaz de realizar feitos extraordinários. Cila era uma jovem que simplesmente não queria corresponder ao interesse de Glauco. Nenhuma das duas precisava ser inimiga da outra.

Fico imaginando o que teria acontecido se Circe tivesse percebido que a rejeição de Glauco não diminuía seu valor. Ela poderia continuar vivendo sua vida, explorando seus conhecimentos e fazendo absolutamente qualquer coisa mais interessante do que envenenar o banho de uma mulher inocente.

Porque, sinceramente, minha querida Circe, você tinha uma ilha, poderes mágicos e uma existência extraordinária. Precisava mesmo gastar toda essa energia com um homem que não estava interessado? Um pouco de amor-próprio e um novo hobby talvez tivessem evitado uma tragédia mitológica.

Já quando penso em Medusa, fico imaginando quantas mulheres, ao longo da história, tiveram suas identidades reduzidas àquilo que sofreram. Quantas foram lembradas por escândalos, acusações ou situações de violência, enquanto os homens envolvidos continuaram sendo reconhecidos por seus feitos e conquistas?

Talvez seja justamente por isso que eu goste tanto de revisitar a mitologia sob uma perspectiva feminina. Não para transformar todas as personagens em heroínas perfeitas ou fingir que elas nunca cometeram erros, mas para questionar por que determinadas mulheres foram retratadas como monstros e quais circunstâncias contribuíram para essa representação.

Afinal, existe uma diferença enorme entre compreender as ações de uma personagem e justificar seus comportamentos. Circe continua sendo responsável pelo sofrimento de Cila naquela versão do mito, mas podemos analisar como sua reação está inserida em uma narrativa sobre rejeição e rivalidade. Medusa, por sua vez, pode ser interpretada de maneira diferente quando conhecemos a história de sua transformação narrada por Ovídio.

E isso me faz pensar sobre quantas histórias contemporâneas também poderiam ser contadas de outro ponto de vista.

Talvez aquela mulher que aprendemos a odiar em determinado filme tivesse uma história muito mais interessante se não existisse apenas para atrapalhar o romance da protagonista. Talvez a personagem considerada fria e ambiciosa estivesse apenas tentando sobreviver em um ambiente que nunca ofereceu as mesmas oportunidades para todos. Talvez duas mulheres pudessem discordar, competir e até brigar sem que o conflito precisasse girar em torno da aprovação masculina.

E talvez, só talvez, pudéssemos ter mais histórias sobre amizades femininas que não precisam ser destruídas para movimentar o enredo.





Depois de refletir sobre tudo isso, comecei a perceber que talvez a pergunta mais importante não seja por que mulheres sentem ciúme umas das outras, mas por que aprendemos a direcionar tanta atenção para a rivalidade feminina enquanto determinados comportamentos masculinos acabam recebendo menos questionamentos.

Não acredito que a mitologia grega seja a origem de todos esses problemas, muito menos que uma história escrita há milhares de anos possa explicar sozinha comportamentos contemporâneos. A sociedade é complexa, e nossas relações são influenciadas por inúmeros fatores históricos, econômicos e culturais.

Entretanto, acho fascinante perceber como determinadas estruturas narrativas atravessam os séculos e continuam sendo reconhecíveis. Mudam as roupas, os cenários, os nomes das personagens e até os meios pelos quais consumimos essas histórias, mas algumas perguntas permanecem assustadoramente atuais.

Por que uma mulher precisa ser considerada inferior para que outra seja admirada? Por que o sucesso feminino frequentemente é tratado como uma competição? Por que ainda encontramos tanta facilidade em responsabilizar mulheres pelas escolhas de homens adultos, plenamente capazes de responder por suas próprias atitudes?

E, principalmente, por que tantas vezes aceitamos essas narrativas sem questionar?

Hoje, aos 30 anos, uma das coisas que mais desejo é continuar aprendendo a olhar para outras mulheres com mais generosidade, sem transformar cada diferença em uma comparação ou cada conquista alheia em uma cobrança pessoal. Sei que não é um exercício simples, principalmente porque também cresci consumindo histórias que reforçavam determinadas expectativas.

Mas acredito que amadurecer também envolve reconhecer aquilo que precisamos desconstruir.

Quero continuar gostando de personagens femininas complexas, das vilãs maravilhosamente dramáticas, das protagonistas imperfeitas e das feiticeiras que provavelmente seriam bloqueadas em todas as minhas redes sociais se existissem na vida real. Só não quero aceitar sem questionar a ideia de que nossa existência precisa ser uma competição permanente.

Existe espaço para mulheres inteligentes, bonitas, ambiciosas, sensíveis, independentes, românticas, inseguras e contraditórias. Uma não precisa diminuir a outra para que suas qualidades sejam reconhecidas, assim como não precisamos seguir o mesmo caminho para que nossas escolhas tenham valor.

Talvez não possamos mudar os mitos que chegaram até nós, mas podemos mudar a maneira como os interpretamos e, principalmente, as histórias que escolhemos continuar reproduzindo.

E, da próxima vez que uma narrativa apresentar uma mulher como grande vilã de uma situação envolvendo um homem, pretendo fazer uma pergunta antes de decidir quem merece minha indignação: qual foi, exatamente, a responsabilidade dele nessa história?

Porque, depois de tantos séculos, acho que já passou da hora de parar de transformar mulheres em monstros enquanto alguns homens continuam atravessando o Olimpo tranquilamente, sem nem precisar prestar esclarecimentos.

E, entre nós, divas, se existe alguma coisa que não precisamos carregar para a próxima geração, é a responsabilidade emocional de um deus grego com problemas de rejeição.

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Como uma boa apaixonada por histórias, mistérios e todas essas coisinhas que envolvem o universo das bruxas, resolvi trazer um assunto que mistura história, superstição e muito amor pelos animais. Afinal, quem nunca viu aquela imagem clássica de uma bruxinha com seu chapéu pontudo, uma vassoura e um gatinho preto sentado ao lado? Particularmente, acho uma estética maravilhosa, bem Sabrina, a Aprendiz de Feiticeira, mas vocês já pararam para pensar de onde surgiu essa associação?

Pois bem, divas, a história é muito mais antiga e, infelizmente, mais triste do que parece.

Sempre achei os gatos criaturas fascinantes (por isso ja tive mais de 40!). São independentes, curiosos, carinhosos à sua própria maneira e donos de uma personalidade que, sinceramente, eu adoraria ter em algumas situações da vida kkk. Mas existe algo que me incomoda bastante: como um animal tão delicado, que só quer viver sua vidinha tranquilamente, acabou sendo transformado em símbolo de azar e maldade?

Quando os gatos eram praticamente divindades

Se pudéssemos voltar alguns milhares de anos, encontraríamos uma realidade bastante diferente no Egito Antigo. Por lá, os gatos eram animais muito valorizados, tanto por sua capacidade de proteger os alimentos contra roedores quanto por sua associação com o universo religioso.

Uma das figuras mais conhecidas da mitologia egípcia é Bastet, uma deusa frequentemente representada com cabeça de gato ou na forma de um felino. Ela estava ligada à proteção, à fertilidade, à alegria e ao ambiente doméstico.

Imaginem só, meninas, uma época em que os gatinhos estavam associados à proteção divina! Acho simplesmente maravilhoso.

Segundo o Metropolitan Museum of Art, os gatos eram considerados sagrados para Bastet, e pequenas esculturas desses animais eram oferecidas em templos. Também existiam práticas religiosas envolvendo a mumificação de gatos, embora seja importante lembrar que nem todas essas práticas correspondiam à ideia moderna de carinho e proteção animal.

Ainda assim, é fascinante perceber a importância simbólica que esses bichinhos tinham naquela sociedade.

E aqui entra uma coisa que sempre me faz pensar: como conseguimos transformar, ao longo da história, um animal associado à proteção em uma criatura que algumas pessoas aprenderam a temer?




Mas quando os gatos pretos viraram companheiros das bruxas?


Para entender essa mudança, precisamos viajar até a Europa medieval, quando crenças religiosas, superstições e acusações de heresia começaram a construir uma imagem bastante negativa dos felinos, especialmente dos pretinhos.

Em 1233, o papa Gregório IX publicou um documento chamado Vox in Rama, que descrevia supostos rituais heréticos envolvendo, entre outras imagens, um gato preto associado ao Diabo.

Isso não significa que a Igreja tenha decretado uma perseguição universal contra todos os gatos, como algumas histórias da internet fazem parecer. Mas esse tipo de narrativa religiosa ajudou a alimentar o medo de determinados animais e comportamentos.

Mais tarde, durante os períodos de perseguição por bruxaria, especialmente entre os séculos XVI e XVII, surgiu com bastante força a ideia dos chamados familiares. Eles seriam espíritos que auxiliavam pessoas acusadas de praticar magia e poderiam assumir a aparência de pequenos animais, como gatos, cães e sapos.

Segundo a organização histórica English Heritage, essas crenças aparecem em diferentes relatos de julgamentos por bruxaria na Inglaterra.

E pronto! Aos poucos, o imaginário popular foi construindo aquela imagem que conhecemos tão bem: uma mulher misteriosa, vivendo em sua casinha, cercada por ervas, livros e um gato preto.

Confesso que, tirando a parte da perseguição, isso parece uma descrição bastante agradável de como eu gostaria de passar meus finais de semana kkkkk.

Mas, brincadeiras à parte, essa associação teve consequências bastante sérias.

Mulheres, gatos e o medo daquilo que era diferente



Existe um ponto nessa história que me chama bastante atenção: a facilidade com que sociedades conseguem transformar características comuns em motivos de desconfiança.

Durante as perseguições por bruxaria, muitas mulheres foram acusadas por razões que envolviam conflitos pessoais, crenças religiosas, vulnerabilidade social e expectativas sobre como deveriam se comportar.

E embora homens também tenham sido perseguidos, em diversas regiões as mulheres representaram a maior parte das pessoas acusadas.

Aquela mulher que vivia sozinha, que não se encaixava nas expectativas da comunidade ou que simplesmente despertava a antipatia de alguém poderia se tornar alvo de suspeitas.

Os gatos, por sua vez, também carregavam características consideradas misteriosas. Eram animais noturnos, independentes e silenciosos, com olhos que brilhavam quando refletiam a luz.

Hoje conseguimos entender perfeitamente esses comportamentos, mas imaginem como eles poderiam ser interpretados em uma sociedade cercada por superstições.

É claro que a história das perseguições é muito mais complexa do que simplesmente mulheres sendo acusadas por terem gatos. Mas acho impossível não perceber como o medo do desconhecido ajudou a construir essas imagens negativas.

E é justamente por isso que gosto tanto de estudar a história por trás das coisas aparentemente banais. Às vezes, um símbolo que usamos para decorar a casa no Halloween carrega séculos de preconceitos e transformações culturais.

De animais sagrados a símbolos de azar

Uma das partes mais tristes dessa história é perceber que algumas dessas superstições sobreviveram até os dias atuais.

Ainda existem pessoas que acreditam que cruzar com um gato preto traz azar. Outras evitam adotar eles simplesmente pela cor da pelagem. E, infelizmente, existem situações em que animais são vítimas de maus-tratos motivados por crenças completamente infundadas.

Como alguém consegue olhar para um gatinho, com aquelas patinhas minúsculas, os bigodinhos e os olhinhos curiosos, e enxergar alguma coisa ruim? Gatos pretos não carregam energias negativas, não anunciam tragédias e muito menos são responsáveis pela sorte ou pelo azar de alguém.

São apenas gatos.

Gatos que sentem fome, frio, medo, dor e que também gostam de brincar, receber carinho e encontrar um cantinho quentinho para dormir. Aliás, em algumas culturas, os gatos pretos são considerados justamente o contrário: símbolos de sorte e prosperidade. Ou seja, até mesmo as superstições mudam dependendo de onde estamos. O que não deveria mudar é o respeito pela vida desses animais.



Que a gente seja o lado bom da história ♡


Eu acredito muito que uma das coisas mais bonitas que podemos fazer é cuidar de quem não consegue pedir ajuda com palavras.

Um gato abandonado não entende por que foi deixado para trás. Um bichinho que sofre violência não entende o motivo daquela crueldade. Ele apenas sente medo e tenta sobreviver.

Por mais independentes que os gatos pareçam, eles continuam sendo seres vulneráveis, principalmente quando vivem nas ruas, expostos a doenças, atropelamentos, fome e pessoas mal-intencionadas. Por isso, acho tão importante que existam pessoas dispostas a fazer a diferença, mesmo que seja por meio de pequenos gestos.

Adotar com responsabilidade, castrar, oferecer água e alimento de maneira segura, ajudar protetores independentes, denunciar maus-tratos e ensinar crianças a respeitarem os animais são atitudes que realmente podem transformar vidas.

E se você não consegue adotar um gatinho agora, tudo bem. Existem muitas outras formas de ajudar.

Também acho importante lembrar que animais não deveriam ser presentes impulsivos ou acessórios para combinar com uma estética. Um gato preto pode ser lindíssimo em uma fotografia de Halloween, mas ele precisa de amor, cuidados veterinários, segurança e uma família responsável durante todos os outros meses do ano.

Afinal, a vida dele não é uma decoração temática.

Às vezes penso que, se durante tantos séculos esses animais foram vítimas da ignorância humana, talvez a nossa geração tenha a responsabilidade de construir uma história diferente.

Uma história em que gatos pretos sejam lembrados não pelo azar que supostamente trazem, mas pelo carinho, pela companhia e por toda a alegria que podem proporcionar.


E Um pouquinho de magia para terminar...

Eu continuo amando a estética das bruxinhas, os livros de magia, as luas, as velas, o Halloween e, obviamente, os gatos pretos. Mas gosto ainda mais da possibilidade de olhar para todos esses símbolos com um pouquinho de conhecimento histórico.

Acho curioso perceber como aquilo que uma sociedade considera assustador pode, séculos depois, se transformar em algo encantador.

E talvez a grande lição dessa história seja justamente essa: nem tudo aquilo que nos ensinaram a temer merece o nosso medo. Às vezes, aquilo que foi tratado como perigoso era apenas diferente.

Se antigamente alguns gatos foram associados a demônios e bruxarias, hoje eu prefiro associá-los a cobertores fofinhos, sachês, ronronados e tardes preguiçosas no sofá. E, se existe alguma magia verdadeira nessa história toda, acredito que ela esteja na capacidade de oferecer carinho a um ser que depende da nossa proteção.

Então, neste mês das bruxas, fica o meu pequeno pedido: sejam gentis com os animais, especialmente com aqueles que ainda sofrem preconceito por causa de superstições antigas.

E, caso um gatinho preto cruze o seu caminho, espero que você não pense em azar. Espero que pense apenas que teve a sorte de encontrar uma dessas criaturinhas maravilhosas.



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Entre tantas coisas que gosto de compartilhar por aqui, também quero abrir espaço para histórias que mexem com a gente. Aquelas que nos fazem fechar o livro, olhar para o teto e pensar no mundo em que vivemos. Porque a arte também fala de política. Algumas obras mostram o que é perder a liberdade, a segurança e o direito de decidir sobre a própria vida.

Neste momento em que me sinto insegura com os rumos do Brasil e com discursos que colocam direitos básicos em debate, acho importante buscar informação sobre períodos que muitas de nós não vivemos. Existem testemunhos, pesquisas e memórias que mostram como foi assustador viver sob perseguição e violência. Ouvir essas histórias é uma forma de reconhecer o que não podemos aceitar de novo.

É muito difícil pensar que nossa dignidade possa depender de quem governa. Que o direito de falar, estudar, amar ou decidir sobre o próprio corpo possa virar uma permissão, sempre podendo ser tirada. Essa dúvida entra no nosso dia a dia. Muda o que podemos dizer, os lugares onde nos sentimos seguras e até os planos que fazemos para o futuro.

Por isso, juntei alguns quadrinhos, livros e filmes que quero indicar. Há relatos, adaptações de histórias reais, sátiras e distopias. São obras variadas, em contextos diferentes, mas que nos chamam a prestar atenção na violência, na censura e na desumanização.

Quadrinhos


Maus, de Art Spiegelman


Art Spiegelman reconstitui a trajetória de seu pai, Vladek, um judeu polonês que sobreviveu ao Holocausto, e aborda a relação entre os dois e as marcas deixadas pela perseguição nazista. A representação dos personagens como animais torna ainda mais perturbadora a lógica que classifica pessoas e lhes atribui valores diferentes. Para mim, a obra lembra que a desumanização começa antes da violência extrema: aparece quando alguém passa a ser tratado como uma vida que importa menos.



Persépolis, de Marjane Satrapi


Neste quadrinho autobiográfico, Marjane conta sua infância e juventude atravessadas pela Revolução Iraniana, pela repressão e pela experiência do exílio. A política entra em coisas muito íntimas: a roupa, a música, a convivência familiar e a possibilidade de ser quem se é. É uma leitura que me faz pensar em como deve ser sufocante crescer tentando descobrir a própria identidade enquanto o Estado impõe limites à sua existência, especialmente como mulher.




Grama, de Keum Suk Gendry-Kim


A obra apresenta a história de Ok-sun Lee, uma coreana submetida à escravidão sexual pelo Exército Imperial Japonês durante a Segunda Guerra Mundial. É um relato doloroso sobre violência e sobrevivência, que também preserva a voz de uma mulher cuja experiência precisa ser escutada. Sua história nos confronta com a crueldade de transformar corpos femininos em instrumentos de guerra e com a importância de reconhecer a dignidade das sobreviventes.



Livros


Fahrenheit 451, de Ray Bradbury


Nesta distopia, os bombeiros queimam livros, e acompanhar Guy Montag significa observar as fissuras de uma sociedade que sufoca o pensamento crítico. O incômodo vai além da destruição de páginas: está na perda da curiosidade, do debate e da capacidade de questionar. Quando pensar se torna perigoso, até formular uma pergunta pode exigir coragem.




As Indignas, de Agustina Bazterrica


Em um mundo devastado, mulheres vivem em uma irmandade religiosa submetidas a uma hierarquia cruel. A chegada de uma nova integrante abala aquela ordem e abre espaço para questionamentos. É uma história que convida a refletir sobre o uso da fé como instrumento de dominação e sobre o perigo de depender de uma autoridade que exige obediência enquanto oferece uma promessa de proteção.




O Conto da Aia, de Margaret Atwood


Na República de Gilead, uma ditadura teocrática retira direitos das mulheres e submete aquelas consideradas férteis à reprodução compulsória. Offred vive sob vigilância, tentando preservar suas lembranças e alguma ideia de si mesma. O que mais me assusta nessa história é perceber que aquelas mulheres tiveram outras vidas. Conheceram liberdades que depois lhes foram arrancadas. A obra nos faz pensar no quanto é perigoso tratar autonomia como algo dispensável.




Filmes


Ainda Estou Aqui, de Walter Salles


O filme acompanha Eunice Paiva e sua família depois da prisão e do desaparecimento de Rubens Paiva durante a ditadura militar brasileira. A violência atravessa uma casa, interrompe uma rotina e deixa perguntas sem resposta. É impossível não pensar na crueldade de viver sem saber onde está alguém que você ama, enquanto o próprio Estado impede o acesso à verdade.




Marighella, de Wagner Moura


O longa retrata a atuação de Carlos Marighella na resistência à ditadura militar e a repressão contra seus integrantes. É uma porta de entrada para refletir sobre um período em que oposição política, censura e perseguição estavam profundamente ligadas. Viver sob esse tipo de ameaça significa perder a segurança até para expressar uma discordância.




O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho


Ambientado em Recife, em 1977, o filme acompanha Marcelo, um especialista em tecnologia que tenta encontrar paz enquanto foge de um passado misterioso. A atmosfera de ameaça faz pensar em como a violência política contamina a vida cotidiana. Quando não sabemos em quem confiar ou onde estamos protegidas, até a possibilidade de recomeçar fica comprometida.




O Grande Ditador, de Charles Chaplin


Chaplin usa a sátira para confrontar o autoritarismo, o antissemitismo e o culto ao líder, acompanhando um ditador e um barbeiro judeu em um país fictício. O humor expõe a vaidade do poder, mas a perseguição dá peso à história. O filme nos convida a observar o perigo de colocar um governante acima da dignidade das pessoas.




A Lista de Schindler, de Steven Spielberg


Inspirado na história de Oskar Schindler, o filme acompanha o empresário que empregou e protegeu judeus durante o Holocausto. A obra mostra a dimensão de um sistema organizado para perseguir e exterminar pessoas. É devastador perceber o que acontece quando o Estado transforma a violência em política e retira de um grupo até o direito de existir.




O Pianista, de Roman Polanski


Baseado nas memórias de Władysław Szpilman, o filme acompanha um pianista judeu tentando sobreviver na Varsóvia ocupada pelos nazistas. A perda de direitos aparece junto da perda de casa, convivência, trabalho e segurança. A história mostra como a perseguição destrói o cotidiano e reduz a vida à necessidade de sobreviver ao próximo dia.




Depois dessas indicações, quero voltar a uma questão que me atravessa especialmente como mulher: a autonomia sobre o nosso corpo.

Quando vejo propostas que pretendem obrigar uma vítima de estupro a manter uma gestação, penso no quanto precisamos levar a sério as consequências dessas posições. Estamos falando de uma pessoa que sofreu uma violência e que precisa de acolhimento, cuidado e possibilidade de decisão sobre a própria vida.



E, se você é mulher, 

vale olhar com atenção para propostas que restringem a nossa autonomia. Podemos discordar sobre muitas coisas, mas precisamos conhecer os direitos que temos e o que determinadas escolhas políticas podem representar para eles.

O espaço que ocupamos hoje foi ampliado por gerações de mulheres que se organizaram, enfrentaram resistências e exigiram mudanças. Feministas tiveram e continuam tendo um papel fundamental nessa luta. Até a liberdade de criticá-las precisa ser exercida com alguma consciência dessa história.

Esta é uma seleção de avanços relevantes entre 2022 e 2026, incluindo a mudança na laqueadura. Não corresponde, em ordem cronológica, às cinco últimas leis aprovadas.

1. Laqueadura sem autorização do marido


A Lei nº 14.443/2022 retirou a exigência de consentimento do cônjuge para a esterilização voluntária, mudança que entrou em vigor em março de 2023. Também reduziu o requisito etário para 21 anos, mantendo a alternativa de pelo menos dois filhos vivos e as demais condições legais, como o intervalo mínimo de 60 dias entre a manifestação da vontade e o procedimento. É uma conquista concreta de autonomia reprodutiva: a decisão deixou de depender da autorização do parceiro.

2. Mais instrumentos para cobrar igualdade salarial


A Lei nº 14.611/2023 reforçou os mecanismos para garantir igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre mulheres e homens em trabalho de igual valor ou na mesma função. A igualdade já era prevista anteriormente; a mudança trouxe instrumentos adicionais de transparência, fiscalização e responsabilização. O desafio continua sendo transformar essa garantia em realidade no trabalho.

3. Ampliação do direito a acompanhante na saúde


A Lei nº 14.737/2023 ampliou o direito das mulheres a acompanhante nos atendimentos em serviços de saúde públicos e privados. A garantia abrange consultas, exames e procedimentos, observadas as condições e exceções legais. Ter alguém de confiança por perto pode oferecer apoio e mais segurança em momentos de vulnerabilidade.

4. Feminicídio como crime autônomo


A Lei nº 14.994/2024 tornou o feminicídio um crime autônomo, com pena de 20 a 40 anos de reclusão. O feminicídio já era reconhecido na legislação desde 2015; em 2024, seu tratamento penal foi alterado e endurecido. A mudança reforça a responsabilização, embora a proteção das mulheres também dependa de prevenção, acolhimento e funcionamento efetivo da rede de atendimento.

5. Reconhecimento penal do vicaricídio


A Lei nº 15.384/2026 criou o crime de vicaricídio: matar determinados familiares ou pessoas sob responsabilidade da mulher para causar sofrimento, punição ou controle, no contexto de violência doméstica e familiar. A pena prevista é de 20 a 40 anos. É um avanço no reconhecimento de uma violência que atinge a mulher por meio das pessoas que ela ama e protege.





Olhar para essas conquistas me faz pensar em como algumas mudanças são recentes. Parece absurdo que, até poucos anos atrás, uma mulher casada ainda precisasse da autorização do marido para uma laqueadura. E, mesmo depois da mudança na lei, precisamos continuar cobrando que os direitos sejam respeitados na prática.

Quero continuar compartilhando livros, filmes e histórias por aqui porque acredito no poder de conhecer outras experiências. Algumas leituras nos acolhem; outras nos inquietam e deixam perguntas que precisamos carregar para fora das páginas. Para mim, estas obras fazem isso: dão rosto, voz e memória ao que jamais deveria ser tratado com indiferença.
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