A arte também é política
Entre tantas coisas que gosto de compartilhar por aqui, também quero abrir espaço para histórias que mexem com a gente. Aquelas que nos fazem fechar o livro, olhar para o teto e pensar no mundo em que vivemos. Porque a arte também fala de política. Algumas obras mostram o que é perder a liberdade, a segurança e o direito de decidir sobre a própria vida.
Neste momento em que me sinto insegura com os rumos do Brasil e com discursos que colocam direitos básicos em debate, acho importante buscar informação sobre períodos que muitas de nós não vivemos. Existem testemunhos, pesquisas e memórias que mostram como foi assustador viver sob perseguição e violência. Ouvir essas histórias é uma forma de reconhecer o que não podemos aceitar de novo.
É muito difícil pensar que nossa dignidade possa depender de quem governa. Que o direito de falar, estudar, amar ou decidir sobre o próprio corpo possa virar uma permissão, sempre podendo ser tirada. Essa dúvida entra no nosso dia a dia. Muda o que podemos dizer, os lugares onde nos sentimos seguras e até os planos que fazemos para o futuro.
Por isso, juntei alguns quadrinhos, livros e filmes que quero indicar. Há relatos, adaptações de histórias reais, sátiras e distopias. São obras variadas, em contextos diferentes, mas que nos chamam a prestar atenção na violência, na censura e na desumanização.
Quadrinhos
Maus, de Art Spiegelman
Art Spiegelman reconstitui a trajetória de seu pai, Vladek, um judeu polonês que sobreviveu ao Holocausto, e aborda a relação entre os dois e as marcas deixadas pela perseguição nazista. A representação dos personagens como animais torna ainda mais perturbadora a lógica que classifica pessoas e lhes atribui valores diferentes. Para mim, a obra lembra que a desumanização começa antes da violência extrema: aparece quando alguém passa a ser tratado como uma vida que importa menos.
Persépolis, de Marjane Satrapi
Neste quadrinho autobiográfico, Marjane conta sua infância e juventude atravessadas pela Revolução Iraniana, pela repressão e pela experiência do exílio. A política entra em coisas muito íntimas: a roupa, a música, a convivência familiar e a possibilidade de ser quem se é. É uma leitura que me faz pensar em como deve ser sufocante crescer tentando descobrir a própria identidade enquanto o Estado impõe limites à sua existência, especialmente como mulher.
Grama, de Keum Suk Gendry-Kim
A obra apresenta a história de Ok-sun Lee, uma coreana submetida à escravidão sexual pelo Exército Imperial Japonês durante a Segunda Guerra Mundial. É um relato doloroso sobre violência e sobrevivência, que também preserva a voz de uma mulher cuja experiência precisa ser escutada. Sua história nos confronta com a crueldade de transformar corpos femininos em instrumentos de guerra e com a importância de reconhecer a dignidade das sobreviventes.
Livros
Fahrenheit 451, de Ray Bradbury
Nesta distopia, os bombeiros queimam livros, e acompanhar Guy Montag significa observar as fissuras de uma sociedade que sufoca o pensamento crítico. O incômodo vai além da destruição de páginas: está na perda da curiosidade, do debate e da capacidade de questionar. Quando pensar se torna perigoso, até formular uma pergunta pode exigir coragem.
As Indignas, de Agustina Bazterrica
Em um mundo devastado, mulheres vivem em uma irmandade religiosa submetidas a uma hierarquia cruel. A chegada de uma nova integrante abala aquela ordem e abre espaço para questionamentos. É uma história que convida a refletir sobre o uso da fé como instrumento de dominação e sobre o perigo de depender de uma autoridade que exige obediência enquanto oferece uma promessa de proteção.
O Conto da Aia, de Margaret Atwood
Na República de Gilead, uma ditadura teocrática retira direitos das mulheres e submete aquelas consideradas férteis à reprodução compulsória. Offred vive sob vigilância, tentando preservar suas lembranças e alguma ideia de si mesma. O que mais me assusta nessa história é perceber que aquelas mulheres tiveram outras vidas. Conheceram liberdades que depois lhes foram arrancadas. A obra nos faz pensar no quanto é perigoso tratar autonomia como algo dispensável.
Filmes
Ainda Estou Aqui, de Walter Salles
O filme acompanha Eunice Paiva e sua família depois da prisão e do desaparecimento de Rubens Paiva durante a ditadura militar brasileira. A violência atravessa uma casa, interrompe uma rotina e deixa perguntas sem resposta. É impossível não pensar na crueldade de viver sem saber onde está alguém que você ama, enquanto o próprio Estado impede o acesso à verdade.
Marighella, de Wagner Moura
O longa retrata a atuação de Carlos Marighella na resistência à ditadura militar e a repressão contra seus integrantes. É uma porta de entrada para refletir sobre um período em que oposição política, censura e perseguição estavam profundamente ligadas. Viver sob esse tipo de ameaça significa perder a segurança até para expressar uma discordância.
O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
Ambientado em Recife, em 1977, o filme acompanha Marcelo, um especialista em tecnologia que tenta encontrar paz enquanto foge de um passado misterioso. A atmosfera de ameaça faz pensar em como a violência política contamina a vida cotidiana. Quando não sabemos em quem confiar ou onde estamos protegidas, até a possibilidade de recomeçar fica comprometida.
O Grande Ditador, de Charles Chaplin
Chaplin usa a sátira para confrontar o autoritarismo, o antissemitismo e o culto ao líder, acompanhando um ditador e um barbeiro judeu em um país fictício. O humor expõe a vaidade do poder, mas a perseguição dá peso à história. O filme nos convida a observar o perigo de colocar um governante acima da dignidade das pessoas.
A Lista de Schindler, de Steven Spielberg
Inspirado na história de Oskar Schindler, o filme acompanha o empresário que empregou e protegeu judeus durante o Holocausto. A obra mostra a dimensão de um sistema organizado para perseguir e exterminar pessoas. É devastador perceber o que acontece quando o Estado transforma a violência em política e retira de um grupo até o direito de existir.
O Pianista, de Roman Polanski
Baseado nas memórias de Władysław Szpilman, o filme acompanha um pianista judeu tentando sobreviver na Varsóvia ocupada pelos nazistas. A perda de direitos aparece junto da perda de casa, convivência, trabalho e segurança. A história mostra como a perseguição destrói o cotidiano e reduz a vida à necessidade de sobreviver ao próximo dia.
Depois dessas indicações, quero voltar a uma questão que me atravessa especialmente como mulher: a autonomia sobre o nosso corpo.
Quando vejo propostas que pretendem obrigar uma vítima de estupro a manter uma gestação, penso no quanto precisamos levar a sério as consequências dessas posições. Estamos falando de uma pessoa que sofreu uma violência e que precisa de acolhimento, cuidado e possibilidade de decisão sobre a própria vida.
E, se você é mulher,
vale olhar com atenção para propostas que restringem a nossa autonomia. Podemos discordar sobre muitas coisas, mas precisamos conhecer os direitos que temos e o que determinadas escolhas políticas podem representar para eles.
O espaço que ocupamos hoje foi ampliado por gerações de mulheres que se organizaram, enfrentaram resistências e exigiram mudanças. Feministas tiveram e continuam tendo um papel fundamental nessa luta. Até a liberdade de criticá-las precisa ser exercida com alguma consciência dessa história.
Esta é uma seleção de avanços relevantes entre 2022 e 2026, incluindo a mudança na laqueadura. Não corresponde, em ordem cronológica, às cinco últimas leis aprovadas.
1. Laqueadura sem autorização do marido
A Lei nº 14.443/2022 retirou a exigência de consentimento do cônjuge para a esterilização voluntária, mudança que entrou em vigor em março de 2023. Também reduziu o requisito etário para 21 anos, mantendo a alternativa de pelo menos dois filhos vivos e as demais condições legais, como o intervalo mínimo de 60 dias entre a manifestação da vontade e o procedimento. É uma conquista concreta de autonomia reprodutiva: a decisão deixou de depender da autorização do parceiro.
2. Mais instrumentos para cobrar igualdade salarial
A Lei nº 14.611/2023 reforçou os mecanismos para garantir igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre mulheres e homens em trabalho de igual valor ou na mesma função. A igualdade já era prevista anteriormente; a mudança trouxe instrumentos adicionais de transparência, fiscalização e responsabilização. O desafio continua sendo transformar essa garantia em realidade no trabalho.
3. Ampliação do direito a acompanhante na saúde
A Lei nº 14.737/2023 ampliou o direito das mulheres a acompanhante nos atendimentos em serviços de saúde públicos e privados. A garantia abrange consultas, exames e procedimentos, observadas as condições e exceções legais. Ter alguém de confiança por perto pode oferecer apoio e mais segurança em momentos de vulnerabilidade.
4. Feminicídio como crime autônomo
A Lei nº 14.994/2024 tornou o feminicídio um crime autônomo, com pena de 20 a 40 anos de reclusão. O feminicídio já era reconhecido na legislação desde 2015; em 2024, seu tratamento penal foi alterado e endurecido. A mudança reforça a responsabilização, embora a proteção das mulheres também dependa de prevenção, acolhimento e funcionamento efetivo da rede de atendimento.
5. Reconhecimento penal do vicaricídio
A Lei nº 15.384/2026 criou o crime de vicaricídio: matar determinados familiares ou pessoas sob responsabilidade da mulher para causar sofrimento, punição ou controle, no contexto de violência doméstica e familiar. A pena prevista é de 20 a 40 anos. É um avanço no reconhecimento de uma violência que atinge a mulher por meio das pessoas que ela ama e protege.
Olhar para essas conquistas me faz pensar em como algumas mudanças são recentes. Parece absurdo que, até poucos anos atrás, uma mulher casada ainda precisasse da autorização do marido para uma laqueadura. E, mesmo depois da mudança na lei, precisamos continuar cobrando que os direitos sejam respeitados na prática.
Quero continuar compartilhando livros, filmes e histórias por aqui porque acredito no poder de conhecer outras experiências. Algumas leituras nos acolhem; outras nos inquietam e deixam perguntas que precisamos carregar para fora das páginas. Para mim, estas obras fazem isso: dão rosto, voz e memória ao que jamais deveria ser tratado com indiferença.





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Apaixonadinha
Assistindo novos cursos
Não Inviabilize
Marina
Diario de uma Apotecaria, temp 3
1 comentários. Clique aqui para comentar também!
Ser mulher também e um ato de manifestação política !!
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