Conto Maré de Agosto
Maré de Agosto
Dedicatória
À minha mãe, Roseli, por ter enchido minha vida de livros, histórias e imaginação desde cedo.
À minha avó maranhense, que me ensinou a amar o Nordeste através de suas memórias, sotaques e maravilhas contadas com tanto carinho.
E ao povo natalense, cidade que me acolheu por sete anos como se eu sempre tivesse pertencido a ela. Este livro também é para vocês.
Epígrafe
Algumas marés nos levam para longe. Outras só precisam nos ensinar o caminho de volta.
Capítulo 1 — Férias, Só Que Não
Marina estava há exatos onze minutos na pousada que escolhera quase ao acaso em Pipa — boas avaliações, preço aceitável e uma vaga disponível nas duas semanas que conseguira arrancar do calendário — quando o notebook desligou sozinho no meio de um simpósio da USP. Ela tinha acabado de chegar, largado a mala no quarto e aberto o computador antes mesmo de desfazer o coque da viagem. A tela apagou sem aviso, refletindo por um instante o próprio rosto: cansado, tenso e iluminado pelo resto de paciência que ainda tentava sobreviver naquela viagem. Marina ficou imóvel na varanda, esperando o computador voltar à vida sozinho, como se a insistência mental fosse suficiente para impedir um colapso tecnológico. Nada aconteceu. Ao redor, Pipa seguia existindo com uma tranquilidade quase ofensiva.
O mar aparecia logo abaixo da rua, absurdamente azul sob o sol da tarde. O vento balançava as folhas dos coqueiros com um ruído constante e preguiçoso, misturado ao som distante de música vindo de algum bar perto da praia. Havia cheiro de sal, protetor solar e café recém-passado no ar. Alguém ria em algum lugar. Alguém sempre parecia estar rindo naquela cidade. Marina odiou isso na hora.
— Não faz isso comigo agora… — murmurou, apertando o botão de
ligar do notebook outra vez.
O aparelho aqueceu sob seus dedos, soltou um pequeno ruído sofrido e morreu definitivamente. Na tela do celular, as notificações começaram a
aparecer em sequência assim que o wi-fi oscilou por meio segundo.
— Marina, você caiu.
— A banca ainda está esperando.
— Seu áudio travou.
— Consegue voltar?
Ela fechou os olhos. Sentiu a tensão familiar apertando a nuca, descendo pelos ombros e chegando no estômago rápido demais. Aquilo estava acontecendo outra vez. Três meses preparando aquela apresentação. Quatro noites dormindo mal. Setenta e dois slides revisados obsessivamente. E agora estava sentada numa pousada em Pipa vendo o notebook morrer enquanto professores avaliavam sua pesquisa do outro lado do país. A doutora Lídia ia surtar. Ou pior: ia olhar para Marina com aquela expressão preocupada e gentil que conseguia ser ainda mais insuportável do que bronca.
— Você precisa parar. As pessoas adoravam dizer isso. Como se o
mundo acadêmico não engolisse viva qualquer pessoa que diminuísse o ritmo por meio segundo.
Marina puxou o cabelo para cima num coque desajeitado pela terceira vez desde que tinha chegado. A umidade já fazia alguns cachos escaparem pela nuca. O calor de Pipa parecia diferente do calor de São Paulo — menos poluído, mais invasivo. Como se o ar inteiro grudasse na pele. Ela odiava sentir o próprio corpo daquele jeito. Na USP, pelo menos, existiam ar- condicionado, café ruim e a ilusão coletiva de produtividade constante. Ali havia muito vento. E um mar bonito demais para alguém em crise. O celular perdeu o sinal outra vez. Marina encarou a barra vazia no canto da tela como se fosse um ataque pessoal.
Levantou rápido demais da cadeira de madeira da varanda, quase derrubando a mochila aberta aos pés da mesa. A pousada inteira parecia saída de uma pasta do Pinterest sobre “vida simples perto da natureza”.
A madeira clara predominava na decoração, refletindo a luz suave que entrava pelas janelas abertas. Plantas espalhadas pelos cantos traziam vida aos ambientes, enquanto redes penduradas convidavam à preguiça das tardes quentes. Almofadas artesanais acrescentavam cor e personalidade aos espaços, e as luzes amareladas, acesas mesmo durante o dia, deixavam tudo com um aspecto confortável, como se o tempo ali passasse mais devagar. Marina atravessou a recepção digitando um e-mail apressado para a orientadora enquanto tentava fazer o celular encontrar algum sinal de vida.
— Problemas técnicos. Estou tentando retornar.
Mentira elegante. Ela gostou da formulação. Atrás do balcão, uma senhora de cabelos grisalhos presos num coque folheava uma revista de palavras cruzadas enquanto um rádio baixo tocava as antigas da Banda Grafith em algum canto.
— Com licença — disse Marina, tentando soar menos desesperada do
que realmente estava. — O wi-fi caiu?
A senhora ergueu os olhos sem pressa.
— Caiu faz uns minutinhos.
— Tem previsão de voltar?
Ela deu de ombros com tranquilidade.
— Quando o vento melhora, normalmente volta.
Marina ficou em silêncio por um instante.
— O vento?
Como se aquilo fosse perfeitamente razoável. Antes que Marina pudesse responder, um barulho metálico ecoou perto do corredor lateral da pousada. Ela virou o rosto. Um homem estava agachado no chão ao lado de um ventilador desmontado, mexendo em fios com uma chave de fenda apoiada entre os dentes. Usava uma camiseta clara já marcada de poeira nas mangas, bermuda escura e sandálias gastas pelo sal. Os cachos castanhos caíam parcialmente sobre a testa enquanto ele trabalhava concentrado.
Marina não saberia explicar exatamente por quê, mas ele parecia pertencer àquele lugar da mesma forma que o cheiro de maresia ou o barulho do vento. Ele bateu duas vezes na lateral do ventilador e o aparelho voltou a funcionar.
— Viu? — comentou sem levantar totalmente o rosto. — Era só mau
humor.
A senhora atrás do balcão riu baixo.
— Igual ao teu pai.
Por um instante, a expressão dele mudou. Então ele finalmente levantou os olhos para ela. Castanhos, tranquilos, atentos demais. Como se enxergassem coisas que Marina passava boa parte da vida tentando esconder. Marina teve a sensação imediata de estar sendo lida. Não observada. Lida. O olhar dele desceu rapidamente para o notebook apertado contra o peito dela, depois para o celular na mão, para os ombros tensos, para a expressão nitidamente irritada. Quando voltou ao rosto dela, o canto da boca dele subiu discretamente.
— Primeira tarde em Pipa? — perguntou.
A voz era baixa e rouca de um jeito agradável. Marina franziu levemente a testa.
— Tá tão óbvio assim?
— Um pouco.
Ele levantou do chão, limpando as mãos numa toalha jogada sobre o ombro. Mais alto do que ela imaginava. Tinha alguns pequenos cortes espalhados pelos dedos, provavelmente antigos. As olheiras suaves abaixo dos olhos contrastavam com o bronzeado marcado de quem passava mais tempo ao ar livre do que dentro de escritório. Não era bonito de um jeito óbvio. Era pior. Tinha presença.
— O wi-fi daqui sempre cai assim? — perguntou Marina.
— Às vezes.
— Às vezes quanto?
Ele inclinou a cabeça, pensando seriamente.
— Bastante.
Ela soltou o ar pelo nariz numa quase-risada incrédula.
— Isso é um pesadelo.
— Depende da expectativa.
A senhora atrás do balcão fechou a revista.
— Marina, esse é Caio. Ele me ajuda aqui na pousada.
— Me ajuda.
Marina observou rapidamente o cenário outra vez. A caixa de ferramentas permanecia aberta no chão, cercada por parafusos e chaves espalhados sem aparente organização. Perto da varanda, as plantas ainda brilhavam úmidas da rega recente, enquanto uma escada permanecia encostada no corredor e um ventilador desmontado ocupava metade de uma cadeira. Não parecia alguém apenas ajudando.
— Prazer — disse ela.
— Igualmente.
O silêncio entre os dois não chegou a ser desconfortável. Só estranho. Caio olhou para o celular dela vibrando de novo.
— Trabalho?
— Doutorado.
— Pesado?
Marina soltou uma pequena risada sem humor.
— Bastante.
Ele assentiu, como se entendesse mais do que ela esperava.
— Você consegue ficar cinco minutos sem olhar o celular?
Marina ergueu os olhos imediatamente. A pergunta não tinha ironia suficiente para virar provocação. O que irritava ainda mais.
— Consigo.
Caio observou a tela iluminando outra vez na mão dela.
— Hm.
Ela fez uma pequena careta.
— Eu odeio quando as pessoas fazem esse silêncio julgador.
O canto da boca dele subiu de novo.
— Não tô julgando.
— Tá sim.
— Só tô pensando que tu chegou faz cinco minutos e já tá brigando
com notebook, celular e wi-fi. Pipa não recebeu o memorando de que tu veio trabalhar.
Marina desviou o olhar para o mar aparecendo entre os coqueiros do lado de fora. Tinha uma lembrança vaga de ter amado aquele lugar quando criança. Lembrava do pai comprando água de coco na praia. Da mãe dormindo sob guarda-sol. Da sensação de passar o dia inteiro salgada e feliz sem pensar nas horas. Agora parecia memória de outra pessoa.
— Eu não tenho exatamente a opção de desligar minha vida por duas
semanas — respondeu ela depois de alguns segundos.
Caio apoiou a chave de fenda sobre o balcão.
— Pode ser. Ou pode ser que tu só precise dar cinco minutos de folga
pro aparelho.
Marina cruzou os braços. Normalmente ela odiava gente que tentava analisá-la depois de cinco minutos de conversa. Mas havia alguma coisa irritantemente honesta nele. Sem tom de superioridade. Sem aquela calma forçada de gente “good vibes”. Só observação. Como alguém acostumado a perceber maré mudando antes da tempestade chegar. Do lado de fora, o vento aumentou, fazendo as folhas dos coqueiros se agitarem mais forte. E, pela primeira vez desde que tinha chegado, Marina teve a sensação desconfortável de que Pipa talvez fosse um lugar perigoso para alguém como ela.
Capítulo 2 — Um Problema Chamado Caio
Marina descobriu naquela mesma noite que tentar trabalhar remotamente em Pipa era o equivalente emocional a montar um escritório no meio de uma tempestade tropical e fingir surpresa quando tudo começava a voar. A internet da pousada voltava em pequenos surtos de esperança antes de desaparecer novamente por longos minutos. O notebook ressuscitou depois de insistência suficiente, mas agora fazia um barulho preocupante toda vez que ela abria mais de três abas ao mesmo tempo. Ainda assim, perto das nove da noite, ela conseguiu entrar numa chamada com a orientadora usando o próprio celular como roteador improvisado.
Sentada na varanda do quarto, com o ventilador girando preguiçosamente acima dela e o som do mar atravessando a janela aberta, Marina tentava manter a postura profissional enquanto o cabelo preso escapava aos poucos por causa da umidade. Do outro lado da tela, a doutora Lídia Albuquerque tirou os óculos lentamente antes mesmo de começar a falar. Aquilo nunca era um bom sinal.
— Marina, eu vou te perguntar uma coisa e preciso que você responda
honestamente.
Ela já conhecia aquele tom.
— Tá.
— Você realmente acha que consegue continuar assim por muito
tempo?
Marina desviou o olhar para o notebook aberto ao lado da cama. Havia um artigo pela metade, três e-mails não respondidos e uma planilha de cronograma colorida o suficiente para parecer ameaça psicológica.
— Foi só um problema técnico hoje.
Lídia suspirou.
— Não estou falando do simpósio.
O silêncio que veio depois incomodou Marina mais do que broncas diretas costumavam incomodar. Porque Lídia não tinha expressão de irritação. Tinha preocupação. E Marina odiava aquilo.
— Você está tentando equilibrar coisas demais ao mesmo tempo —
continuou a orientadora com calma. — Doutorado, publicação, banca, congresso, feira acadêmica, orientação de iniciação científica… sinceramente, eu nem sei mais onde você acha energia.
Marina apoiou a testa nos dedos.
— Todo mundo faz isso.
— Não desse jeito.
Ela abriu a boca para responder, mas fechou de novo. Porque, no fundo, sabia que não era verdade. Nas últimas semanas, vinha funcionando à base de café, ansiedade e medo constante de ficar para trás. Enquanto colegas construíam currículos impecáveis, Marina aceitava qualquer simpósio, qualquer apresentação, qualquer projeto extra que pudesse enriquecer
minimamente o Lattes. Como se produtividade pudesse protegê-la de algo. Lídia a observou antes de perguntar, mais gentilmente:
— Essa semana é a data dos seus pais, não é?
Marina sentiu o corpo inteiro endurecer discretamente. Claro. Ela tinha esquecido que Lídia lembrava. Doze de agosto. O acidente havia acontecido seis anos antes, mas o mês ainda parecia atravessar o peito dela como vento frio entrando por janela mal fechada. Todo ano, sem exceção, agosto transformava Marina numa versão mais cansada de si mesma. Ela engoliu seco antes de responder:
— É.
Lídia assentiu.
— Você nunca desacelera nessa época.
Porque desacelerar significava sentir. E sentir era um luxo perigosíssimo. Marina desviou o olhar novamente para o lado de fora. A rua estava silenciosa agora, iluminada apenas pelas luzes amareladas das pousadas e restaurantes próximos. As folhas dos coqueiros se moviam lentamente enquanto o som distante das ondas preenchia os espaços entre uma fala e outra. Pipa à noite parecia existir em outro ritmo. Mais lento. Mais íntimo. Como se a cidade inteira respirasse fundo depois de passar o dia sob o sol.
— Eu só preciso terminar esse semestre — disse ela depois de alguns
segundos. — Depois melhora.
Lídia soltou uma risada baixa e cansada.
— Você fala isso desde o mestrado.
Aquilo doeu mais do que Marina gostaria de admitir. A ligação caiu poucos minutos depois, interrompida pela internet instável antes que qualquer uma das duas pudesse encerrar a conversa adequadamente. Marina ficou olhando para a própria tela refletida no notebook escuro durante algum tempo. O quarto da pousada parecia abafado de repente, pequeno demais para todos os pensamentos que começavam a surgir quando ela finalmente ficava em silêncio. Então decidiu sair. Porque se continuasse olhando para o computador, provavelmente começaria a responder e-mails às dez da noite.
O centrinho de Pipa, ao longo da Avenida Baía dos Golfinhos, continuava movimentado mesmo depois do pôr do sol. As luzes dos bares refletiam no chão irregular enquanto turistas caminhavam devagar entre restaurantes, lojas artesanais e mesas espalhadas pelas calçadas estreitas. Havia cheiro de camarão na manteiga, música ao vivo vindo de dois lugares diferentes ao mesmo tempo e o som constante de pessoas falando alto em português, espanhol e inglês. Marina caminhava sem pressa pela primeira vez desde que tinha chegado.
E agora começava, aos poucos, a reparar no resto. Casais dançavam perto de um bar de forró com as portas abertas para a rua, enquanto um grupo de surfistas dividia cerveja sentado na calçada, rindo alto de alguma piada interna. Crianças corriam descalças entre as mesas dos restaurantes sem que ninguém parecesse se importar, e o ar quente da rua vinha carregado de maresia. Marina observava tudo aquilo sem procurar explicação para nada. Ela lembrava daquele lugar. Ou talvez lembrasse apenas da sensação.
Os pais adoravam caminhar ali à noite quando ela era pequena. O pai sempre parava para conversar com artesãos locais, enquanto a mãe comprava pulseiras e fingia não perceber Marina tentando convencer algum vendedor a deixá-la segurar filhotes de gato espalhados pela praça. Por um instante rápido, a memória veio inteira demais. Marina sentiu o peito
apertar antes de desviar rapidamente o pensamento. Continuou andando até a praça central, atraída pelo som distante de saxofone.
O pai era de Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte, mas falava da própria origem como quem descrevia uma casa que já não existia. tinha crescido praticamente sem família e se tinha mudado ainda jovem para São Paulo atrás de trabalho e oportunidades. Foi lá que conheceu a mãe de Marina, construiu carreira, casamento e uma família inteira. Nunca voltou a morar em Mossoró e raramente tinha motivo para passar pela cidade, mas fazia questão de levar a mulher e a filha a Pipa sempre que as férias permitiam. Dizia que precisava ver o mar do Rio Grande do Norte pelo menos uma vez por ano para lembrar de onde tinha saído. Marina tinha crescido achando aquilo apenas uma mania sentimental do pai. Agora, adulta, começava a suspeitar que talvez tivesse escolhido Pipa para aquelas duas semanas por uma razão menos aleatória do que a pousada.
Um senhor tocava sentado perto do coreto, completamente concentrado na música. Devia ter mais de setenta anos, cabelos brancos bagunçados pelo vento e os olhos fechados enquanto deixava o instrumento preencher a praça inteira com uma melodia lenta e melancólica. As pessoas começaram a se aproximar naturalmente. Ninguém parecia com pressa de ir embora. Marina parou perto de uma árvore iluminada por pequenas luzes amarelas e observou em silêncio. O saxofone ecoava pela praça de um jeito quase hipnótico, misturando-se ao vento e ao som distante das ondas quebrando na praia.
Ela percebeu, com um desconforto estranho, que fazia muito tempo desde a última vez que assistira alguma coisa sem transformá-la em tarefa. Apenas olhando.
— Bonito, né?
A voz surgiu ao lado dela de forma tranquila, quase como continuação da música. Marina virou o rosto e encontrou Caio parado alguns passos
atrás, segurando dois copos de café de papelão. Ele usava outra camiseta larga clara, ainda levemente úmida nos ombros como se tivesse acabado de sair do mar. O cabelo continuava bagunçado pelo vento e havia um cansaço suave no rosto dele que Marina não tinha percebido antes. Não parecia alguém voltando de um passeio turístico. Parecia alguém que trabalhava desde cedo.
— Você tá me seguindo? — perguntou ela, mas sem verdadeira
irritação.
Caio soltou uma pequena risada nasal.
— Cidade pequena. As pessoas acabam existindo nos mesmos lugares.
Ele estendeu um dos cafés para ela. Marina hesitou por um segundo antes de aceitar.
— Obrigada.
O café estava forte, quente e levemente doce demais. Curiosamente perfeito para aquela noite. Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes, ouvindo o saxofone preencher a praça enquanto mais pessoas se aproximavam devagar.
— Ele toca aqui quase toda semana — comentou Caio. — Desde antes
de eu nascer, acho.
— Você conhece todo mundo daqui?
— Mais ou menos.
Ela olhou rapidamente para ele.
— Esse “mais ou menos” nordestino é irritantemente subjetivo.
O canto da boca dele subiu.
— E paulistano faz pergunta demais.
Marina soltou uma pequena risada involuntária. Depois voltou a olhar para o músico.
— Faz tempo que eu não paro pra ouvir alguma coisa assim.
— Imagino.
Ela percebeu o olhar dele rapidamente sobre seu celular ainda preso na mão.
— Eu não sou tão obcecada quanto você acha.
Caio tomou um gole do próprio café antes de responder:
— Não acho que seja obsessão.
— Não?
— Acho que tu tá cansada.
A resposta veio simples. E talvez justamente por isso atingiu tão fundo. Marina desviou o olhar na hora para a praça outra vez. O saxofone continuava ecoando pela noite quente enquanto o vento carregava cheiro de mar e comida pela rua inteira. Pela primeira vez desde que tinha chegado a Pipa, ela percebeu que o oceano estava logo ali atrás da praça, escuro e imenso sob a luz da lua. E pela primeira vez em muito tempo, não pensou nele como objeto de pesquisa. Só como mar.
Capítulo 3 — A Teoria Do Não Planejado
No quarto dia em Pipa, Marina acordou antes das sete da manhã com o som insistente de alguma coisa sendo arrastada pela varanda da pousada. Os dois dias anteriores tinham passado num meio-termo irritante entre férias e expediente: Marina participou de uma reunião, revisou um artigo, respondeu e-mails demais e, nos intervalos, esbarrou em Caio na cozinha, na recepção e na varanda. Nada que ela classificaria como importante. Um café deixado ao lado do notebook sem comentário. Uma discussão de três minutos sobre a quantidade aceitável de açúcar numa caneca. Caio dizendo que o café dela parecia castigo; Marina dizendo que o dele podia ser servido como sobremesa. Pequenas coisas que, para seu profundo incômodo, começavam a parecer rotina. Só que naquela manhã o simpósio interrompido, a ligação com Lídia e as pendências da universidade voltaram a ocupar espaço demais na cabeça dela. Quase automaticamente, Marina procurou o celular no criado-mudo. Havia sete notificações novas, duas mensagens da universidade e um lembrete do Google Agenda sobre uma reunião online naquela tarde. Seu cérebro despertou inteiro no mesmo instante. Só de pensar naquilo, sentiu o estômago apertar levemente. Nos últimos oito meses, Marina vinha tentando uma vaga de doutorado sanduíche em um dos programas mais disputados de oceanografia costeira do mundo. O projeto já passara pelas primeiras etapas, e ela aguardava o retorno que definiria se seria chamada para a entrevista formal. Se tudo desse certo, poderia passar um ano e meio nos Estados Unidos. Woods Hole aparecia nos sonhos dela com frequência quase constrangedora. Às vezes
imaginava o próprio nome publicado em artigos importantes, participando de pesquisas internacionais, vivendo aquela versão extremamente bem- sucedida de si mesma que parecia sempre um passo distante demais. E talvez fosse ridículo admitir, mas grande parte da vida dela havia começado a girar em torno disso. Currículo. Produção acadêmica. Publicações. Eventos. Networking. Durante muito tempo, Marina acreditou que o sucesso estava escondido em algum lugar depois da próxima conquista. O problema era que a linha de chegada continuava se afastando. Tudo parecia uma corrida silenciosa onde ninguém admitia estar exausto porque todos estavam cansados demais tentando sobreviver. Ela soltou o ar, desligou a tela do celular e caminhou até o banheiro, como se precisasse se reconhecer novamente no espelho. Parou. Fazia tempo que realmente olhava para si mesma sem estar se arrumando rápido para algum compromisso. O reflexo devolveu uma mulher diferente da que lembrava existir aos vinte e poucos anos. Continuava bonita — infelizmente consciente disso desde cedo —, mas agora existia um cansaço novo escondido nos detalhes. Pequeno demais para outras pessoas notarem imediatamente, porém impossível de ignorar quando ela se observava em silêncio. Marina tinha o tipo de beleza que irritava mulheres perfeitamente organizadas no LinkedIn. Mesmo recém-acordada, com o cabelo preso e marcas do travesseiro ainda aparecendo no rosto, havia nela alguma coisa naturalmente solar. A pele dourada pelo sol contrastava com os olhos escuros atentos demais para alguém oficialmente de férias, enquanto os cachos rebeldes escapavam em volta do rosto como se se recusassem a obedecer qualquer tentativa de controle. Mas não era isso que ela enxergava primeiro. As olheiras não eram profundas, mas estavam ali. A tensão na mandíbula também. Assim como a testa levemente franzida, consequência de anos pensando em três problemas diferentes ao mesmo tempo. Marina encarou o próprio reflexo. Engraçado. Aos dezoito anos, imaginava que aos vinte e nove seria uma versão muito mais tranquila de si mesma. Não alguém que continuava correndo sem saber exatamente para onde. Em vez
disso, tinha virado uma mulher que respondia e-mails de madrugada e precisava ser obrigada pela orientadora a tirar férias. Ela voltou para o quarto e abriu o notebook. O wi-fi da pousada estava oscilando novamente, a barra de sinal piscando em vermelho. Marina tentou reiniciar, frustrada, mas percebeu que o ventilador de teto que Caio havia consertado estava girando perfeitamente e silencioso. Em vez de reiniciar, ela notou que havia uma nova rede, "PIPA-PRIVADA", mais forte. Ele não havia dito nada, mas era um convite silencioso para um trabalho estável. O gesto de resolver um problema dela, sem pedir nada em troca, amoleceu sua armadura. Ela apoiou as mãos na pia e respirou fundo. Do lado de fora, ouviu novamente o barulho de móveis sendo arrastados pela varanda. Quando saiu do quarto, encontrou Caio carregando uma mesa dobrável sozinho enquanto equilibrava um copo de café na outra mão.
— Bom dia — disse ele ao notar a presença dela.
Marina ainda estranhava como a voz dele parecia naturalmente calma em qualquer horário do dia.
— Você acorda cedo de propósito?
Caio soltou uma pequena risada.
— Trabalho com pesca. Se eu acordar tarde, o mar já resolveu a vida dele
sem mim. Ela encostou no corrimão da varanda observando ele posicionar a mesa perto das plantas. O vento da manhã atravessava a pousada inteira trazendo cheiro de café fresco e sal. Lá embaixo, a rua ainda estava relativamente vazia, exceto por alguns turistas sonolentos caminhando em direção à praia. Uma senhora apareceu na recepção perguntando se ainda haveria passeio de barco naquela manhã. Caio respondeu sem hesitar, explicando calmamente sobre a maré antes de voltar a ajeitar a mesa como se estivesse acostumado a interromper qualquer tarefa no meio. Poucos minutos depois, dona Ana surgiu na cozinha pedindo ajuda para encontrar uma caixa de mantimentos que ninguém sabia onde tinha sido guardada. Caio encontrou em menos de um minuto. Aquilo começou a chamar atenção de Marina aos poucos. Tudo parecia tão natural que provavelmente passaria despercebido para qualquer outra pessoa. Mas Marina vivia observando padrões havia anos, e começava a perceber que a
pousada inteira orbitava discretamente em torno dele. Caio resolvia pequenas coisas o tempo todo sem transformar nenhuma delas em evento. E talvez justamente por isso fosse impossível não notar.
— Você faz tudo aqui mesmo, né? — perguntou ela depois de algum tempo.
Ele apoiou a mesa no chão antes de responder:
— Quase tudo.
— Achei que você só ajudasse na pousada.
Caio deu de ombros, tomando outro gole de café.
— Às vezes ajudar já ocupa o dia inteiro.
Aquilo mexeu com Marina mais do que gostaria.
— Você vai trabalhar hoje? — perguntou ele depois de alguns minutos.
Ela soltou um suspiro automático.
— Tenho uma reunião à tarde.
— E até lá?
— Pretendia revisar um artigo.
Caio inclinou levemente a cabeça.
— Quer conhecer uma praia melhor do que essa aqui primeiro?
Marina cruzou os braços imediatamente.
— Existem praias melhores do que as daqui?
— As daqui são as que turista posta no Instagram. As melhores ficam
escondidas. Ela deveria dizer não. Definitivamente deveria. Mas, no quarto dia em Pipa, já tinha passado tempo suficiente alternando trabalho, culpa e encontros casuais com Caio para admitir que a cabeça continuava funcionando como um notebook com vinte abas abertas. Talvez uma pausa de verdade não matasse ninguém.
— Demora muito?
O canto da boca dele subiu.
— Essa foi a forma mais paulistana possível de aceitar um convite.
Uma hora depois, Marina descia desajeitada de um pequeno barco enquanto tentava equilibrar dignidade, bolsa e chinelos ao mesmo tempo. O sol já estava forte o suficiente para aquecer a pele imediatamente, e o vento trazia pequenas gotas de água salgada sempre que o barco balançava
próximo às pedras. Caio segurou o braço dela por reflexo quando Marina quase escorregou na areia molhada. As mãos dele eram quentes. Firmes sem serem bruscas. Pequenas cicatrizes atravessavam os dedos e o dorso da mão, marcas acumuladas de anos trabalhando com ferramentas, madeira e mar. Ela percebeu isso rápido demais.
— Obrigada — murmurou, ajeitando os óculos escuros.
— Tu anda olhando pro chão como quem espera receber boleto da areia.
Marina fez uma pequena careta de reprovação enquanto soltava o braço dele. A praia era um deserto só, sem aquela barulhada de música alta, barraca lotada ou turista tirando mil fotos do mesmo coqueiro. Só tinha o mar, aquele azulão gigante se mexendo devagarzinho debaixo do céu limpo de Pipa. Mesmo num lugar perfeito desses pra desligar da vida, o olho da Marina foi direto para o que ela fazia no trabalho. No automático, ela começou a reparar em como a correnteza batia perto das pedras, no ritmo das ondas e no jeito que os paredões das falésias estavam desgastando ali no fundo. Anos estudando oceanografia tinham transformado o oceano numa soma automática de fenômenos técnicos dentro da cabeça dela. Caio percebeu.
— Tu faz isso sem notar, né?
Ela virou o rosto.
— Isso o quê?
— Olha pro mar como se tivesse corrigindo prova dele.
Marina soltou uma pequena risada involuntária.
— Força do hábito.
Eles começaram a caminhar pela areia úmida, sob os coqueiros no alto das falésias.
— O que exatamente você pesquisa? — perguntou ele depois de algum
tempo. Marina demorou um pouco para responder, não porque fosse segredo, mas porque quase ninguém realmente perguntava querendo ouvir.
— Dinâmica costeira. Erosão, sedimentação, impacto climático no litoral…
essas coisas.
— Então tu literalmente estuda praia desmoronando.
— Resumindo grosseiramente, sim.
— E quer continuar isso fora do país?
Ela olhou rapidamente para ele.
— Como você sabe?
Caio deu de ombros.
— Tens cara de quem já tá vivendo mentalmente no próximo lugar.
Aquilo foi desconfortavelmente preciso. Marina desviou os olhos para o horizonte.
— Existe uma bolsa que eu tô tentando faz tempo. Um programa muito
forte nos Estados Unidos.
— Muito difícil?
Ela riu sem humor.
— Ridiculamente.
— E vale a pena?
A pergunta pareceu simples demais para a quantidade de coisas que despertou nela. Valia? Ela não sabia mais. Porque nos últimos anos a linha entre sonho e obrigação tinha começado a desaparecer silenciosamente. Caio não insistiu quando ela demorou para responder. Continuaram andando até as falésias avermelhadas começarem a surgir mais próximas, altas contra o azul intenso do céu.
— Aquela ali é a Pedra Furada — explicou ele, apontando para uma
formação rochosa parcialmente aberta pelo mar. Marina ergueu os olhos automaticamente. O buraco natural na pedra deixava a luz atravessar parcialmente a formação, criando um desenho estranho contra as ondas quebrando abaixo. Bonito de um jeito melancólico.
— Tem uma lenda daqui — continuou Caio. — Dizem que uma indígena da
tribo Tabajara vinha pra essa praia esperar o homem que amava voltar do mar. Ele saiu pra pescar e nunca mais apareceu. Marina ouviu em silêncio enquanto caminhavam devagar pela areia.
— E a pedra?
— Dizem que o buraco foi formado pelas lágrimas dela. De tanto esperar.
O vento soprou mais forte naquele instante, fazendo alguns fios do cabelo de Marina escaparem do rabo de cavalo improvisado. Talvez por
causa da profissão, Marina sempre enxergara o oceano como movimento, força e cálculo. Mas ali, ouvindo Caio contar aquela história com simplicidade tranquila, percebeu o quanto fazia tempo desde a última vez que olhara para o mar sem tentar explicá-lo. Sem o transformar em artigo. Só mar. Ela ficou em silêncio por tempo suficiente para Caio lançar um olhar discreto em sua direção.
— O quê? — perguntou Marina.
— Nada.
— Tá olhando estranho.
O canto da boca dele subiu levemente.
— Só tava pensando que tu parece diferente quando para de pensar por
cinco minutos. Marina revirou os olhos. Mas não conseguiu evitar o pequeno sorriso surgindo logo depois.
Capítulo 4 — Chuva, Café E Outras Péssimas Ideia
Naquela mesma manhã, Caio percebeu que estava olhando para Marina tempo demais quando ela parou diante da Pedra Furada sem dizer absolutamente nada. Até então, tinha sido fácil chamar aquilo de curiosidade, convivência ou simples diversão em provocar a hóspede mais tensa que já tinha passado pela pousada. Diante dela quieta, com o mar ocupando o espaço que normalmente pertencia a alguma lista mental, ficou um pouco mais difícil.
Os fios soltos do cabelo dela grudavam no rosto enquanto o mar quebrava contra as pedras logo abaixo das falésias, espalhando espuma branca entre os tons avermelhados da areia úmida. Durante quase todo o caminho até ali, Marina continuara fazendo perguntas numa mistura curiosa de interesse genuíno e raciocínio científico automático. Ela observou a inclinação das falésias, comentou sobre erosão costeira, explicou distraidamente como as correntes marítimas modificavam a paisagem ao longo dos anos. Mas agora estava em silêncio. E talvez fosse justamente aquilo que chamasse tanta atenção nela.
Marina parecia incapaz de deixar um espaço vazio sem preenchê-lo com algo. Só que ali, diante do mar, ela finalmente tinha parado de fazer perguntas.
Caio apoiou os braços nos joelhos enquanto a observava continuar olhando para o horizonte depois de ouvir a história da lenda. O sol do fim da manhã deixava a pele dela ainda mais dourada, contrastando com o
biquíni azul por baixo da camisa aberta de linho claro. Havia uma beleza muito específica em Marina, dessas que não pareciam planejadas. Não era delicada nem perfeitamente organizada. Era viva demais para isso.
Os cachos presos de qualquer jeito já começavam a perder completamente a batalha contra a umidade, e alguns fios escuros grudavam perto da nuca por causa do calor. Mesmo assim, havia nela uma elegância involuntária que irritaria qualquer pessoa excessivamente montada. Bonita pra caramba. E provavelmente cansada pra caramba também. Caio conhecia aquele tipo de exaustão. Enquanto ela continuava olhando para o mar, ele desviou os olhos para o horizonte, deixando a memória vir como fazia às vezes quando estava perto demais da água.
O pai também costumava parar daquele jeito em silêncio diante do oceano. Não para admirar. Para escutar. Pelo menos era assim que dizia.
— O mar fala antes de mudar.
Caio tinha passado a infância inteira ouvindo aquilo. Na época, achava exagero de pescador velho tentando parecer sábio. Depois de adulto, percebeu que o pai realmente conhecia o oceano como quem conhece humor de gente próxima. Sabia identificar corrente ruim, vento virando, tempestade chegando, tudo antes da maioria perceber. E ainda assim o mar levou ele embora. A ironia nunca deixava de existir.
Fazia oito meses desde o acidente do pai, mas às vezes parecia menos. O barco tinha sido encontrado horas depois, danificado pela corrente; o corpo, nunca. Caio aprendera que uma ausência sem despedida tinha um jeito particular de permanecer pela casa, principalmente nas manhãs silenciosas e nas frases que alguém repetia sem saber que pertenciam ao morto.
Dona Ana atravessara os primeiros meses como quem esperava uma notícia atrasada, e vê-la tentando manter sozinha a pousada e uma casa
cheia de ausência bastara para fazê-lo ficar. O restante da história ele ainda não gostava de organizar em palavras. Trabalho era mais simples. Cansava o corpo e deixava menos espaço para o que não tinha conserto.
— Você fica com essa cara de pensativo olhando pro mar ou é só
impressão minha?
Caio soltou uma pequena risada nasal antes de levantar da areia.
— Às vezes o mar faz a pessoa pensar demais.
— Isso parece perigosamente filosófico.
— Culpa de pescador velho.
Ela sorriu de leve, mas dessa vez sem aquele humor automático que costumava usar para se proteger. Parecia mais tranquila depois de algumas horas longe do notebook e do celular. Caio começou a caminhar devagar pela faixa de areia, esperando ela acompanhar. O vento aumentava conforme o sol subia, trazendo cheiro de sal e algas enquanto as ondas avançavam perto dos pés deles.
— Então você realmente trabalhava embarcado? — perguntou Marina
depois de algum tempo.
Ele olhou rapidamente para ela, surpreso.
— Dona Ana comentou?
— Mais ou menos. Ela comentou que você tinha ido embora de Pipa
por um tempo.
Caio assentiu.
— Petrobras.
Marina ergueu as sobrancelhas discretamente.
— Achei que você fosse só pescador.
O jeito como ela falou arrancou uma risada baixa dele.
— Só pescador foi cruel.
Ela pareceu perceber.
— Não foi nesse sentido.
— Eu sei.
E sabia mesmo. Marina não tinha arrogância. Tinha hábito de encaixar pessoas rapidamente em categorias que faziam sentido dentro do mundo dela. Provavelmente porque o próprio cérebro funcionava rápido demais o tempo inteiro.
— Eu trabalhava embarcado antes do acidente do meu pai — explicou
Caio com naturalidade suficiente para quase esconder o peso da frase. — Voltei pra ajudar dona Ana e acabei ficando.
Marina diminuiu levemente o ritmo da caminhada.
— Sinto muito.
Ele deu de ombros, olhando novamente para o mar. Depois de algum tempo, ouvir aquilo ainda produzia uma espécie de vazio físico no peito.
Não tão violento quanto antes, mas constante. Como uma maré baixa emocional que nunca desaparecia completamente.
— Acontece — respondeu.
Ela não insistiu. A maioria das pessoas sempre fazia perguntas demais quando descobria histórias tristes. Marina apenas respeitou o silêncio dele por alguns instantes, caminhando ao lado enquanto o vento bagunçava ainda mais o cabelo preso. Foi nesse momento que Caio percebeu outra coisa curiosa nela. Marina observava o mar diferente agora. Ainda existia atenção técnica no jeito como olhava para as ondas, mas misturada com alguma coisa mais leve. Menos análise. Mais presença. Como se estivesse começando a lembrar lentamente que o oceano também podia existir sem precisar virar estudo.
Naquela noite, a chuva chegou finalmente em Pipa. Daquelas que deixam o ar inteiro cheirando a terra molhada e maresia ao mesmo tempo. Marina estava sentada na varanda da pousada tentando fingir que lia um artigo no notebook havia quase vinte minutos sem conseguir passar da mesma página. Ela soltou um suspiro cansado antes de fechar o computador. Lá embaixo, a rua parecia diferente sob chuva. Mais silenciosa. As luzes amarelas dos bares refletiam no chão molhado enquanto algumas pessoas atravessavam correndo entre marquises, rindo da própria falta de planejamento.
A cidade inteira parecia menos performática quando chovia. Marina apoiou o queixo nos joelhos dobrados sobre a cadeira e observou a água escorrendo lentamente pelas plantas penduradas na varanda.
— Sabia que tu ia desistir do artigo em algum momento.
Caio estava parado perto da escada segurando duas canecas de café, usando uma camiseta escura parcialmente úmida nos ombros e o cabelo ainda mais bagunçado por causa da chuva.
— Você aparece silenciosamente demais. Isso é preocupante.
— Trabalho com turista. Se eu fizer barulho, metade pede informação.
Ele entregou uma das canecas para ela antes de se sentar na cadeira ao lado. Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio ouvindo a chuva cair. Marina tomou um gole do café. Forte. Doce demais. Exatamente como os anteriores.
— Você faz todos iguais — comentou.
— Isso foi crítica ou elogio?
— Observação científica.
Caio riu baixo pelo nariz. O som fez algo estranhamente quente atravessar o peito dela. O pior era perceber que começava a gostar da rotina daquilo. Das conversas na varanda. Do silêncio sem obrigação de preencher espaço o tempo inteiro. Fazia muito tempo desde a última vez que Marina simplesmente existira perto de alguém sem sentir necessidade de impressionar.
— Tá pensando demais outra vez — comentou Caio depois de algum
tempo.
Marina soltou uma pequena risada cansada.
— É literalmente meu único talento.
— Mentira.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Ah, é?
Caio apoiou os braços nos joelhos antes de responder:
— Tu presta atenção nas coisas.
Marina franziu levemente a testa.
— Isso também é basicamente ansiedade.
— Não. Ansiedade é outra coisa.
Ele olhou rapidamente para a chuva caindo além da varanda.
— Tu percebe detalhe que ninguém percebe.
Aquilo pegou Marina desprevenida. Ela desviou os olhos para a rua molhada antes de perguntar:
— Tipo o quê?
Caio demorou alguns segundos para responder.
— Tu olha pro mar diferente quando esquece que tá trabalhando.
O coração dela acelerou discretamente. Irritante.
— Isso foi absurdamente específico.
— Eu falei que você presta atenção nas coisas. Então percebe quando
fazem contigo também.
Marina soltou o ar devagar pelo nariz. A chuva aumentou um pouco naquele instante, o vento trazendo pequenas gotas para dentro da varanda. Caio se levantou para puxar uma das cortinas de lona transparentes. Marina o observou. As mãos. Os pequenos cortes espalhados pelos dedos. A naturalidade com que ele ocupava os espaços. O cuidado silencioso em pequenas coisas que provavelmente passariam despercebidas pela maioria das pessoas. Ela percebeu, com atraso desconfortável, que começava a querer tocar nele sem motivo. Aquilo era perigosíssimo.
Quando Caio voltou a se sentar, os dois ficaram mais próximos do que antes por causa do espaço reduzido da varanda fechada parcialmente pela lona. O cheiro de chuva misturado ao café e maresia parecia deixar tudo mais íntimo. Mais lento.
— Posso te perguntar uma coisa? — disse Marina depois de algum
tempo.
— Hm.
— Você sente falta de ter ido embora?
Caio ficou em silêncio por um instante. Não parecia escolhendo palavras bonitas. Só honestas.
— Às vezes.
Marina acompanhou o movimento da caneca entre os dedos dele.
— Principalmente quando vejo gente da minha idade construindo
carreira, comprando apartamento, essas coisas.
Ela não esperava aquilo. Ele percebeu a surpresa dela e soltou uma pequena risada.
— Acha que pescador não entra em crise existencial?
Marina riu baixo.
— Achei que você tivesse resolvido todos os mistérios da vida aos
vinte e cinco.
— Resolvi nada.
O sorriso dele diminuiu um pouco antes de continuar:
— Só percebi que correr sem parar também cansa.
Aquilo atingiu Marina de forma quase física. Porque era exatamente o que ela fazia.
— Às vezes eu acho que não sei mais parar.
A frase saiu baixinha, quase involuntária. Caio não respondeu imediatamente. Nem tentou transformar aquilo numa conversa profunda demais. Só ficou ali. Presente. E talvez justamente por isso Marina continuou falando:
— Eu passei tanto tempo tentando construir uma versão bem-sucedida
de mim mesma que agora não sei muito quem sobra quando eu não tô trabalhando.
Quando Marina levantou os olhos, percebeu Caio observando ela com uma atenção tão calma que precisou prender a respiração por meio segundo.
A lona transparente ao lado deles ondulava de leve enquanto a chuva continuava caindo lá fora. Perto demais agora. Tudo parecia perto demais.
— Tu não precisa transformar até descanso em prova, não — disse ele,
olhando para a caneca. — Às vezes dá pra só sentar e tomar um café sem ganhar medalha por isso.
Marina sentiu alguma coisa apertar no peito. Porque ninguém nunca falava com ela daquele jeito. Só honestidade. Ela sustentou o olhar dele por tempo suficiente para o ar da varanda mudar discretamente. E pela primeira vez desde que tinha chegado a Pipa, Marina percebeu que não estava mais tentando fugir daquilo.
Capítulo 5 — Um Dia Sem Planos
Marina acordou às oito e doze, o que, para uma pessoa que estava de férias, deveria ser considerado um horário perfeitamente aceitável. Para uma pessoa que tinha passado os últimos seis meses acordando às seis e meia com a sensação de que estava atrasada para algo, aquilo parecia praticamente uma aposentadoria. O mais estranho era perceber que, desde que tinha começado a largar o celular no quarto por períodos cada vez maiores, os dias pareciam ter ganhado horas extras. Não porque o relógio tivesse mudado, obviamente. Porque ela finalmente estava presente o suficiente para perceber o que cabia dentro deles.
Ficou deitada, olhando para o teto, esperando o cérebro lembrar qual era a emergência do dia. Não lembrou. O celular estava quieto. Nenhum e-mail da orientadora. Nenhuma mensagem da faculdade. Nenhum aviso sobre prazo, formulário, reunião ou documento que ela tivesse esquecido de enviar. Marina pegou o celular, desbloqueou a tela e abriu o e-mail por puro reflexo.
Nada.
Foi quase decepcionante.
Ela abriu o aplicativo de notas e encontrou uma lista mentalmente assustadora de coisas que poderia fazer durante a viagem. Atualizar o currículo. Organizar as referências. Ler dois artigos. Responder algumas mensagens. Talvez adiantar a apresentação. Marina releu a lista e bloqueou a tela.
Não.
Hoje não.
Era estranho como duas palavras tão pequenas podiam parecer uma decisão radical.
Quando desceu, dona Ana estava na cozinha, brigando com uma cafeteira que claramente não tinha sido consultada sobre aquele café da manhã.
— Bom dia, doutora.
— Bom dia. Quer ajuda?
— Quero. Essa máquina decidiu me humilhar hoje.
Marina riu e se aproximou. Em menos de cinco minutos, descobriu que o problema não era exatamente a cafeteira. Era dona Ana apertando o botão errado havia pelo menos três dias.
— Não conta isso pra ninguém — disse dona Ana.
— Meu silêncio custa caro.
— Eu sabia que você tinha um preço.
Caio apareceu na porta pouco depois, ainda com o cabelo molhado e uma camiseta velha. Olhou para as duas, depois para a cafeteira.
— De novo?
— Sua mãe quebrou a máquina.
— Minha mãe não quebra nada. Ela apenas dá novas funções aos objetos.
Dona Ana levantou a colher de pau na direção dele.
— Vai cuidar da tua vida, menino.
— Tô cuidando. Vim buscar o café.
Caio pegou a caneca, roubou um pedaço de bolo que dona Ana claramente pretendia servir aos hóspedes e saiu antes que a colher de pau encontrasse outro uso. Marina ficou na cozinha ajudando a guardar algumas xícaras, mais porque não tinha nada urgente para fazer do que por qualquer vocação doméstica recém-descoberta.
Dona Ana enxugou as mãos no pano de prato e ficou olhando pela janela por alguns segundos. Na parede ao lado da geladeira havia uma fotografia antiga dela com um homem de sorriso largo, os dois muito mais novos, abraçados diante de um barco azul.
— Era o pai de Caio? — Marina perguntou.
Dona Ana acompanhou o olhar dela e sorriu daquele jeito estranho que parecia chegar junto com uma saudade antiga.
— Era. E tinha a mania de achar que sabia consertar tudo. Às vezes sabia.
Às vezes piorava e dizia que fazia parte do processo.
Marina sorriu.
— Parece familiar.
— Caio puxou muita coisa dele. Até o costume de ficar quando acha que
alguém precisa.
A frase fez Marina olhar novamente para a foto. Dona Ana demorou um pouco antes de continuar, agora mexendo distraidamente numa colher sobre a bancada.
— Depois que ele morreu, eu fiquei alguns meses achando que viver
normalmente era quase uma falta de respeito. Rir, sair, dançar... parecia que
eu tava deixando ele pra trás.
Marina não respondeu. Dona Ana também não parecia esperar resposta.
— Depois entendi que saudade não precisa ser castigo. A pessoa vai
embora e a gente continua. Meio torto no começo, mas continua.
Ela respirou fundo, pegou a bandeja de café e mudou de assunto com a naturalidade de quem não tinha acabado de dizer alguma coisa capaz de ficar presa na cabeça de Marina pelo resto do dia.
— Agora vá antes que aquele menino invente que sabe cozinhar também.
Marina tentou não sorrir. Não conseguiu.
Depois do café, Caio perguntou se ela tinha algum plano para o dia.
Marina abriu a boca para responder. Parou. percebeu que não tinha.
— Nenhum.
Ele pareceu genuinamente surpreso.
— Nenhum mesmo?
— Nenhum. Acho que estou testando uma versão de mim que não faz
planilha para ir à praia.
— Rapaz, isso é grave.
— Eu sei.
— Então bora sair antes que você volte a ter juízo.
Eles caminharam sem destino definido. Caio conhecia ruas menores, caminhos que não apareciam nas buscas de Marina e lugares que pareciam
existir apenas porque alguém tinha decidido, muitos anos antes, que aquela era uma boa ideia.
Pararam para comprar água, dividiram um pastel e discutiram durante cinco minutos sobre qual sabor era melhor. Marina descobriu que Caio defendia camarão com uma convicção quase religiosa. Caio descobriu que ela achava isso uma escolha duvidosa.
— Tu tem umas opiniões muito estranhas, viu?
— E você tem péssimo gosto gastronômico.
— Pronto. Agora virou pessoal.
Ela riu.
E percebeu que fazia algum tempo que não ria daquele jeito. Não por causa de uma piada que precisava responder, nem porque alguém esperava uma reação. Apenas porque estava ali.
Mais tarde, voltaram para a pousada carregando uma sacola com frutas, pão e coisas que nenhum dos dois tinha planejado comprar.
No caminho, Marina decidiu que precisava de uma foto “minimamente aproveitável” da viagem e entregou o celular a Caio. Foi um erro. Na primeira tentativa, ele cortou metade da cabeça dela. Na segunda, enquadrou Marina, uma lixeira e um cachorro coçando a orelha com muito mais destaque do que o mar.
— Você fez isso de propósito.
— Fiz nada. O cachorro se mexeu.
— Caio, ele ocupa um terço da foto.
— Fotogênico, pô.
Marina tomou o celular da mão dele, indignada, e Caio riu daquele jeito baixo que já começava a ser perigosamente familiar. Cinco minutos depois, ela ainda reclamava do enquadramento. Dez minutos depois, a foto com o cachorro estava salva nos favoritos.
— Você sempre faz isso? — perguntou Marina.
— Isso o quê?
— Sair sem saber onde vai parar.
Caio deu de ombros.
— Às vezes. É bom não saber.
Ela olhou para ele por um instante.
Para Marina, não saber sempre tinha sido um problema a ser resolvido.
Talvez fosse por isso que aquela frase simples tivesse ficado presa nela.
Na cozinha, os dois começaram a preparar algo para o almoço. Caio cortava os tomates de um jeito torto. Marina tentou corrigir.
— Você não sabe cortar isso.
— Sei, sim.
— Não sabe.
— Tu tá querendo tomar conta da minha cozinha?
— Estou tentando evitar um acidente.
— Pronto. A cientista chegou.
Ela pegou a faca da mão dele. Os dedos dos dois se encostaram por um segundo.
Foi rápido. Ridiculamente rápido.
Mesmo assim, Marina percebeu.
Caio também.
Nenhum dos dois comentou.
E, pela primeira vez, aquilo não pareceu uma situação que precisava ser resolvida.
Depois do almoço, dona Ana apareceu na porta da cozinha carregando uma pilha de toalhas e anunciou que precisava buscar uma caixa de jogos de cama em casa. Marina descobriu então que “casa” significava uma construção térrea nos fundos da pousada, escondida por um pequeno jardim de hibiscos e uma mangueira antiga. Caio tinha crescido ali. E, tecnicamente, ainda morava ali também.
— Vem comigo, doutora — chamou dona Ana. — Já que você tá de férias
de verdade hoje, pode carregar uma caixa.
— Exploração de hóspede. Vou colocar na avaliação.
— Bote cinco estrelas antes.
A casa era simples, fresca e cheia de coisas acumuladas ao longo de muitos anos. Fotografias ocupavam uma parede inteira da sala: Caio criança com os joelhos ralados, Caio adolescente segurando uma prancha grande demais, dona Ana mais nova ao lado do marido, os três diante da pousada ainda em reforma. Marina diminuiu o passo sem perceber.
Num canto, sobre uma estante baixa, havia uma fotografia de Caio usando uma camiseta da UFRN em alguma feira estudantil. Ao lado dela, um livro
grosso de biologia marinha estava marcado por post-its antigos, as bordas gastas de tanto uso.
— Isso é do Caio? — perguntou Marina, puxando o livro só o suficiente
para ler o título.
Dona Ana olhou por cima do ombro.
— É. Esse menino passou a adolescência dizendo que ia estudar o mar.
Queria Biologia Marinha, Oceanografia, qualquer coisa que deixasse ele perto de bicho e água. Depois o pai morreu e ele começou a dizer que tinha coisa mais importante pra fazer.
Marina passou o polegar pela lombada do livro.
— E você precisava dele aqui?
Dona Ana ficou em silêncio por um instante antes de fechar a porta do armário.
— Precisei. Muito. Mas precisar de alguém por um tempo é diferente de
pedir que a pessoa pare a vida inteira. Caio ainda tá aprendendo essa diferença. Eu também.
A resposta ficou com Marina enquanto ajudava a levar as caixas de volta. Quando encontraram Caio na área externa, ele olhou primeiro para a mãe, depois para o livro que Marina ainda segurava sem perceber.
— Mainha, tu foi mostrar meu museu de humilhações?
— Eu só fui buscar toalha. A curiosa foi ela.
Marina ergueu o livro.
— Então o senhor “é bom não saber onde vai parar” tinha um plano
bastante específico.
Caio pegou o livro da mão dela, visivelmente menos confortável do que estivera durante todo o dia.
— Faz tempo isso.
— Faz tempo não é a mesma coisa que não querer mais.
Ele sustentou o olhar dela por um segundo. Dessa vez, foi Caio quem desviou primeiro.
— Bora levar essas caixas antes que mainha invente outra função pra gente.
Marina deixou o assunto morrer. Por enquanto. Guardou apenas a imagem do livro gasto, da foto com a camiseta da UFRN e do desconforto de Caio ao falar daquilo. Pela primeira vez, ele pareceu menos resolvido do que gostava de parecer.
À tarde, sentaram na varanda com café. Conversaram sobre coisas pequenas. Música. Comida. A infância de Caio. O jeito como Marina tinha aprendido a nadar. O pior professor que cada um já teve. Nada parecia importante o suficiente para mudar a vida de ninguém.
Talvez fosse exatamente por isso que Marina gostasse tanto.
Caio não perguntava o que ela queria fazer da vida como se estivesse entrevistando uma candidata. Não perguntava onde ela se via em cinco anos. Não perguntava qual era o próximo passo.
Ele só estava ali.
E ela também.
Quando o sol começou a baixar, Caio olhou para ela.
— Tu tá diferente hoje.
Marina franziu a testa.
— Diferente como?
— Mais tranquila.
Ela soltou uma risada curta.
— Não espalha.
— Fica tranquila. Minha reputação também depende disso.
Marina sorriu e voltou a olhar para o mar.
Não tinha acontecido nada extraordinário naquele dia. Nenhuma descoberta, nenhum beijo, nenhuma declaração, nenhuma decisão capaz de mudar o rumo da vida.
E talvez fosse justamente isso que tornava aquele dia tão importante.
Ela tinha passado um dia inteiro sem tentar chegar a lugar nenhum.
E, em muito tempo, não sentiu que estava ficando para trás.
Capítulo 6 — Definitivamente Uma Péssima Ideia
Perto do fim da primeira semana, Marina começou a perceber que estava relaxando por pequenos acidentes. Não aconteceu de forma grandiosa. Nem como aqueles filmes em que a protagonista finalmente “aprende a viver” depois de uma caminhada na praia ao som de You're Still The One da Shania Twain. Foi mais discreto que isso. Numa noite, ficou quase quarenta minutos sentada na varanda da pousada conversando com Caio sem olhar o celular uma única vez. O choque veio depois.
Porque, quando finalmente pegou o aparelho por reflexo, encontrou apenas notificações comuns esperando por ela. Nenhuma emergência. Nenhum desastre acadêmico. Nenhum colapso institucional causado pela ausência de Marina Santos durante quarenta minutos. Curiosamente humilhante. Caio estava sentado na mureta baixa perto das plantas, desmontando uma lanterna antiga enquanto dona Ana assistia novela lá dentro com o volume alto demais. O vento da noite atravessava a varanda carregando cheiro de chuva distante e maresia.
— Você tá com essa cara porque lembrou de algum artigo ou porque
percebeu que o mundo não acabou sem você online? — perguntou ele sem levantar os olhos da lanterna.
Marina estreitou os olhos.
— Eu odeio a facilidade absurda que você tem de perceber minhas
neuroses.
— Não acho que sejam neuroses.
— Ah, não?
Caio deu de ombros.
— Acho que tu passou tempo demais tentando carregar tudo sozinha.
Marina apoiou os pés na cadeira à frente enquanto observava o movimento tranquilo da rua abaixo da pousada. Pipa parecia ainda mais bonita à noite. As luzes amarelas refletiam nas calçadas irregulares, música escapava de bares distantes e o vento fazia os coqueiros balançarem lentamente contra o céu escuro. São Paulo nunca ficava silenciosa daquele jeito. Talvez fosse isso que mais assustasse nela ali. O espaço vazio. Porque silêncio obrigava Marina a pensar em coisas que normalmente conseguia sufocar trabalhando.
— Meu pai odiava quando eu levava livro pra praia — comentou ela de
repente.
Caio levantou os olhos pela primeira vez.
— Tu fazia isso criança?
— Eu era insuportável.
Ele riu baixo.
— Continua sendo um pouco.
Marina revirou os olhos antes de continuar:
— Ele passava o dia inteiro tentando me convencer a entrar no mar
enquanto eu ficava lendo embaixo do guarda-sol igual uma mini aposentada de cinquenta anos.
— E funcionava?
— Eventualmente. Meu pai tinha uma capacidade irritante de fazer
qualquer coisa parecer divertida.
Ela sorriu sem perceber enquanto falava. Fazia tempo desde a última vez que lembrava dele sem sentir o peso imediato da perda chegando junto. Caio observou aquilo em silêncio.
— Foi ele que te fez gostar do oceano?
Marina demorou um pouco para responder.
— Acho que foi ele que me ensinou a prestar atenção. Meu pai reparava em
tudo. Maré, vento, pedra, chuva… ele dizia que o mar mudava de humor igual gente.
Caio soltou uma pequena risada nasal.
— Então teu pai e o meu teriam se dado bem.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— O seu também falava assim?
— Pescador velho fala muito com o mar. Às vezes até demais.
Os dois ficaram em silêncio por um instante, ouvindo o barulho distante das ondas. Depois Caio levantou da cadeira devagar.
— Amanhã cedo a maré vai tá boa pra Baía dos Golfinhos.
Marina ergueu os olhos na hora.
— Faz anos que eu não vou lá.
— Então tá na hora.
Na manhã seguinte, o céu amanheceu limpo demais para parecer real. O barco avançava devagar pela água absurdamente azul enquanto o vento bagunçava o cabelo de Marina de forma completamente inútil contra qualquer tentativa de organização. Ela estava sentada na lateral da embarcação usando uma saída de praia branca sobre o biquíni colorido que comprara meses antes numa crise de autocuidado depois de sobreviver a uma semana infernal no laboratório. Caio conduzia o barco com a tranquilidade de alguém completamente pertencente ao mar. E talvez fosse exatamente isso que começava a chamar atenção nela.
Ele não parecia performar masculinidade tranquila. Nem tentar parecer misterioso. Caio simplesmente existia daquele jeito. Quando chegaram perto da Baía dos Golfinhos, Marina sentiu alguma coisa apertar discretamente no peito. A praia continuava linda. As falésias altas cercavam a faixa de areia quase intocada enquanto o mar assumia tons impossíveis entre azul e verde sob a luz forte da manhã. Alguns turistas caminhavam mais ao longe, mas ainda existia silêncio suficiente para ouvir as ondas quebrando com clareza. Ela lembrava daquele lugar.
O pai segurando sua mão para atravessar partes mais fundas. A mãe reclamando da areia entrando na bolsa. Por um instante, Marina sentiu saudade de uma forma tão física que precisou respirar fundo.
— Ei.
Ela virou o rosto. Caio a observava com atenção.
— Tá tudo bem?
Marina assentiu devagar.
— Só lembrei deles aqui.
Marina tirou o celular da bolsa quase sem pensar. Procurou alguns segundos na galeria até encontrar uma fotografia antiga digitalizada pela mãe anos antes. Nela, o pai segurava uma água de coco diante da praia enquanto a
mãe usava um chapéu enorme e ria para a câmera. Marina criança aparecia no canto da imagem, coberta de areia até os joelhos.
— Essa foi aqui — disse, mostrando a tela.
Caio pegou o celular com cuidado e observou a foto por alguns segundos.
— Teu pai tinha cara de quem dava trabalho.
— Muito. E minha mãe ainda insiste que o chapéu era elegante.
— Aí ela tá errada.
Marina riu antes de guardar o celular. A foto ficou aberta na galeria por um instante a mais, como se uma versão antiga daquela viagem tivesse encostado na atual.
Ele não perguntou mais nada. Mais tarde, enquanto caminhavam perto das pedras, Marina viu o velho livro de Jacques Cousteau parcialmente escondido na mochila dele e reconheceu na hora as bordas gastas que tinha visto na casa de dona Ana.
— Você trouxe o Jacques Cousteau. Então não era peça de museu.
Caio tentou pegar o livro de volta.
— Tu mexe demais nas coisas dos outros, viu?
Marina começou a rir.
— Eu só estou confirmando uma hipótese científica.
— Que hipótese?
— Que você sente falta disso mais do que admite.
Ela virou o livro nas mãos e releu algumas das anotações espalhadas nas margens. Agora que sabia de onde aquilo vinha, o volume parecia menos uma lembrança antiga e mais uma vontade mantida em banho-maria.
— E não adianta fazer essa cara. Sua mãe já entregou o histórico escolar
emocional inteiro.
Caio soltou o ar pelo nariz e pegou o livro das mãos dela, mas não guardou.
— Eu cheguei a deixar uma inscrição pronta pra tentar Biologia em Natal.
— Isso você não tinha me contado.
Caio passou o polegar pela lombada do livro. A brincadeira desapareceu sem virar solenidade. — Antes do acidente. Depois deixei quieto. No começo porque dona Ana precisava de mim. Depois porque ficou mais fácil dizer que já tinha passado.
Marina conhecia aquele mecanismo melhor do que gostaria: repetir uma escolha por tempo suficiente até ela parecer destino. Só que Caio fazia o contrário dela. Marina corria para não sentir; ele ficava para não descobrir o que existia depois.
Marina devolveu o livro. Caio não desviou o assunto, mas também não parecia disposto a transformar aquilo numa confissão bonita. Era uma das coisas de que ela gostava nele: até os dramas vinham sem apresentação em PowerPoint.
Caio olhou para ela por tempo suficiente para o clima entre os dois mudar discretamente. O vento atravessou a praia inteira enquanto Marina sentia o próprio coração acelerar de um jeito irritantemente adolescente para alguém de vinte e nove anos.
— Tu tá com essa cara de quem vai me dar conselho — disse Caio.
— Deus me livre. Eu mal administro a minha vida. Só acho que ficar
também precisa ser uma escolha, não uma penitência.
Ele ficou quieto por um instante, olhando o livro nas mãos. — É. Essa parte eu ainda tô tentando descobrir.
— E você? — perguntou ele baixo. — Ia embora mesmo?
Ela franziu levemente a testa.
— Como assim?
— Se conseguir a bolsa.
Marina desviou o olhar para o horizonte. A vida inteira dela parecia construída naquela direção havia anos.
— Acho que sim.
Caio assentiu devagar. Mas havia algo diferente no silêncio dele agora. Mais pesado. E Marina sentiu isso imediatamente. Quando Caio afastou cuidadosamente um fio de cabelo grudado na bochecha dela por causa do vento, Marina sentiu o coração vacilar por um instante. O toque foi breve, quase distraído, mas havia alguma coisa na forma como ele a olhava que tornava impossível fingir que nada tinha mudado entre os dois. O vento continuava atravessando a praia, espalhando o som das ondas ao redor deles, enquanto o silêncio parecia carregar tudo aquilo que nenhum dos dois tinha coragem de dizer em voz alta.
Foi Marina quem encurtou a distância. O beijo começou devagar, quente do sol e do gosto salgado deixado pela maresia, carregando junto todas as conversas, os olhares e os silêncios acumulados nos últimos dias. Quando Caio segurou o rosto dela com cuidado, Marina percebeu que não estava tentando fugir dos próprios pensamentos. Pela primeira vez em muito tempo, simplesmente não queria estar em nenhum outro lugar.
Caio a puxou para mais perto e o beijo perdeu a hesitação. Marina ainda teve tempo de pensar que aquilo era uma ideia objetivamente péssima: conhecia o homem havia poucos dias, estava de férias por ordem quase
médica e tinha uma entrevista internacional se aproximando. Então deu dois passos para trás, bateu a panturrilha numa cadeira de praia e soltou um palavrão contra a boca dele.
Caio afastou o rosto só o suficiente para olhar para a cadeira caída.
— A doutora tá bem?
— Se você rir, eu volto pra São Paulo hoje.
Ele riu.
Marina o beijou de novo mesmo assim. Talvez aquele fosse o primeiro sinal concreto de que sua capacidade de tomar decisões racionais tinha pedido férias antes dela.
Voltaram para a pousada tentando agir como duas pessoas perfeitamente normais, o que durou até Caio abrir a porta errada do corredor e quase entrar no depósito de toalhas. Marina precisou morder o lábio para não rir. No quarto, a porta mal se fechou antes que o beijo recomeçasse, agora sem a solenidade de romance perfeito: teve cotovelo no lugar errado, uma reclamação sobre areia na cama e Caio dizendo que aquilo era culpa dela por ter escolhido uma pousada na praia. Entre risos abafados e toques que deixaram de hesitar, a manhã encontrou um ritmo próprio. Marina gostou justamente disso. Não parecia uma cena ensaiada. Parecia os dois.
Exaustos, acabaram adormecendo um nos braços do outro, o sol já mais alto começando a esquentar o quarto. A tarde, deitados juntos com o ventilador girando lentamente acima da cama e o som distante do mar entrando pela janela aberta, Marina percebeu que estava confortável demais. Perigosamente confortável. Caio dormia parcialmente virado para o lado dela, uma das mãos repousando preguiçosamente sobre a cintura dela enquanto a luz dourada do fim da tarde atravessava o quarto. O celular de Marina vibrou sobre o criado-mudo. Ela quase ignorou. Quase.
Mas bastou olhar rapidamente para a tela para o corpo inteiro despertar outra vez. Lídia. Marina sentou na hora na cama antes de atender. Caio
abriu os olhos devagar ao perceber a mudança brusca nela.
Do outro lado da linha, a voz da orientadora parecia animada. Muito animada.
— Marina, eles responderam.
O coração dela disparou na mesma hora.
— Quem?
— Woods Hole.
O mundo inteiro pareceu diminuir de tamanho naquele instante.
— O quê?
— Eles querem marcar uma entrevista formal. Seu projeto foi
extremamente bem avaliado.
Ela já estava andando pelo quarto. A cabeça funcionando rápido demais outra vez. Publicações. Cronograma. Inglês. Documentação. Currículo. Entrevista. Atrás dela, Caio permaneceu sentado na cama observando silenciosamente a transformação acontecer quase instantaneamente.
— Meu Deus… eu preciso responder isso hoje — murmurou Marina já
abrindo o notebook. — Preciso revisar meu projeto, atualizar o—
— Marina.
Ela virou o rosto rapidamente. Caio a observava agora.
— O quê?
Ele demorou alguns segundos antes de responder.
— Woods Hole?
Marina assentiu enquanto digitava alguma coisa no celular pela terceira vez em menos de um minuto. O brilho da tela iluminava parcialmente o rosto dela outra vez. Rápido demais, Caio percebeu a mudança. Como se Pipa tivesse acabado de desaparecer da frente dela.
— É importante, Caio.
— Eu sei.
Ela levantou os olhos.
— Então por que você tá com essa cara?
Ele demorou um pouco para responder. Porque a verdade parecia pequena demais quando colocada em voz alta. Porque não queria admitir que estava começando a gostar da versão dela que existia longe daquela ansiedade toda.
— Porque tu tava finalmente aqui.
Silêncio. O vento atravessou o quarto inteiro antes dela responder baixo:
— E eu tô aqui.
Caio observou o celular vibrando outra vez na mão dela. Depois olhou de volta para Marina.
— Não tá mais.
Capítulo 7 — O Problema Dos Planos Perfeitos
A segunda semana chegou mais rápido no calendário e muito mais devagar na cabeça de Marina. Depois que parou de medir os dias por notificações, reuniões e quantidade de tarefas concluídas, Pipa parecia ter adquirido outra duração. Uma manhã na praia podia parecer enorme. Uma conversa depois do jantar podia ocupar mais espaço na memória do que semanas inteiras em São Paulo. Ainda assim, a mudança em Marina nos dias seguintes foi sutil o suficiente para qualquer outra pessoa não perceber. Mas Caio percebeu. Talvez porque tivesse passado tempo demais observando maré mudar antes da chuva chegar. Ela continuava sorrindo durante as conversas na varanda, ainda o acompanhava até a praia no fim da tarde e às vezes até esquecia o celular longe por algumas horas. Só que agora existia uma distância diferente nela, como se parte da cabeça estivesse constantemente em outro lugar. Mais especificamente: em São Paulo. Ou talvez ainda mais longe do que isso. Woods Hole.
Caio não entendia exatamente como funcionavam bolsas internacionais, processos acadêmicos ou entrevistas para universidades estrangeiras, mas entendia ambição quando via uma. E Marina carregava ambição no corpo inteiro desde o primeiro dia em que aparecera na pousada tentando transformar férias em extensão do laboratório. Agora aquilo voltava com força total.
No décimo segundo dia, ela estava sentada na varanda do quarto cercada de papéis, notebook, livros e xícaras de café já vazias. O cabelo preso às pressas começava a escapar por todos os lados enquanto Marina digitava
algo com velocidade agressiva suficiente para parecer discussão pessoal com o teclado. Caio encostou no batente da porta antes de falar:
— Tu tá trabalhando desde cedo?
Ela levantou os olhos rapidamente.
— Só organizando umas coisas da entrevista.
— Só.
Como se o próprio corpo não estivesse tenso outra vez. Como se não tivesse voltado a dormir mal. Como se o maxilar dela não estivesse travado de ansiedade quase constantemente desde a ligação de Lídia. Caio entrou no quarto devagar, apoiando duas tapiocas sobre a pequena mesa perto da janela.
— Mainha mandou comida antes que tu esquecesse de existir.
Marina sorriu de leve.
— Eu não esqueço de comer.
Caio olhou para as duas canecas de café vazias perto do notebook.
— Claro.
Ela revirou os olhos antes de puxar uma das tapiocas para perto. O cheiro de mar entrava pela janela, misturado ao som distante das motos subindo a rua e às vozes dos turistas lá fora. A companhia entre os dois continuou confortável até Marina voltar os olhos para a tela. O notebook permaneceu aberto entre eles como uma terceira presença na varanda.
O celular tocou antes que Marina pudesse responder. Lídia. Ela atendeu na mesma hora.
— Oi, professora.
— Marina, recebi sua terceira versão do material da entrevista.
Marina endireitou a postura.
— Eu achei melhor ajustar a parte metodológica e mandei também uma
atualização do currículo porque saiu o aceite daquele artigo e—
— Marina.
O tom de Lídia tinha aquela gentileza preocupada que ela odiava justamente porque quase sempre significava que a orientadora tinha razão.
— A entrevista é daqui a alguns dias. Seu projeto já foi muito bem
avaliado. Ninguém pediu três versões.
Marina ficou quieta.
— Eu só quero estar preparada.
— Eu sei que quer. Você fala de Woods Hole desde o mestrado. Eu também
sei que ficar exausta não vai fazer eles gostarem mais de você.
Marina olhou de relance para Caio. Ele teve a elegância irritante de não sorrir.
— Eu não estou exausta.
— Você está de férias respondendo e-mail às sete da manhã.
Silêncio.
— Descansa um pouco. A oportunidade não vai desaparecer porque você
passou uma tarde sem revisar o currículo.
Quando a ligação terminou, Marina deixou o celular sobre a mesa como se o aparelho tivesse acabado de traí-la pessoalmente.
— Nem uma palavra — avisou.
Caio levantou as duas mãos.
— Eu não disse foi nada.
Lídia não tinha diminuído Woods Hole. Ao contrário. Sabia o quanto Marina queria aquela vaga e, ainda assim, não parecia acreditar que exaustão fosse requisito de admissão.
Marina percebeu o olhar de Caio alguns segundos depois.
— O quê?
— Nada.
— Você faz muito isso.
— Isso o quê?
— Essa cara de quem tá pensando uma coisa e não quer falar.
Caio apoiou os braços no encosto da cadeira antes de responder:
— Tô só tentando entender como tu consegue transformar um lugar desses
em escritório.
Marina soltou uma pequena risada cansada.
— Você fala como se trabalhar fosse defeito moral.
— E tu fala como se descansar fosse.
A resposta veio calma. Quase leve. Mas acertou em cheio. Marina desviou os olhos para o notebook, onde o cursor piscava no e-mail aberto. Ela
queria Woods Hole. O que não conseguia organizar era todo o resto. Naquela noite, os dois acabaram discutindo .
Não começou como discussão. Começou pequeno. Caio estava consertando uma luminária na varanda enquanto Marina respondia e-mails no celular pela terceira hora consecutiva. O céu já estava escuro, o vento mais forte anunciava chuva distante e dona Ana assistia televisão lá dentro com o volume alto o suficiente para acompanhar a novela da cozinha.
— Tu vai mesmo embora antes do fim da viagem? — perguntou ele sem
olhar diretamente para ela.
Marina demorou alguns segundos para responder porque ainda terminava um áudio para Lídia.
— Talvez.
Caio assentiu lentamente. Ela percebeu o silêncio logo depois.
— Eu preciso voltar, Caio.
— Eu sei.
— A entrevista pode mudar minha carreira inteira. Pode ser a oportunidade
que eu venho esperando há anos.
— Também sei.
O problema era justamente aquele tom calmo dele. Marina largou o celular sobre a mesa com mais força do que pretendia.
— Então por que parece que você desaprova tudo?
Caio finalmente levantou os olhos da luminária.
— Eu não tô desaprovando tua carreira, Marina.
— Mas?
Ele demorou alguns segundos antes de responder.
— Só acho que tu tá sempre correndo pra próxima coisa sem perceber
quando alguma coisa boa tá acontecendo agora.
Marina cruzou os braços imediatamente.
— Isso é fácil de falar quando sua vida inteira cabe numa cidade pequena.
A frase caiu entre os dois e Marina percebeu o erro na hora. Caio ficou imóvel, ainda segurando a chave de fenda entre os dedos. Não havia raiva imediata no rosto dele. O que piorava tudo. Só aquela expressão silenciosa de quem tinha acabado de ouvir alguma coisa decepcionante demais para responder impulsivamente. Marina sentiu o próprio estômago afundar. Porque reconheceu a própria fala no mesmo instante.
Reconheceu perfeitamente o tipo de comentário elitista que sempre odiara ouvir em São Paulo. O mesmo olhar condescendente que colegas da universidade lançavam sobre qualquer pessoa que escolhesse uma vida diferente da lógica agressiva de produtividade e ascensão profissional. E agora tinha sido ela dizendo aquilo. Caio apoiou a luminária sobre a mesa antes de falar, finalmente:
— Pequena pra quem nunca aprendeu a parar.
Caio pousou a chave de fenda sobre a mesa. — E só pra constar: eu sei que minha vida não parece grande no teu currículo. Eu também olho pra gente da minha idade e penso no que eu devia ter feito, no dinheiro que devia ter juntado, na carreira que larguei. Não preciso que tu use isso contra mim.
Marina sentiu o rosto esquentar. — Eu não quis dizer desse jeito.
— Mas disse. E doeu justamente porque eu já pensei coisa pior sozinho.
Ele não levantou a voz. Isso piorava tudo. Marina abriu a boca para se defender e percebeu, rápido demais, que qualquer explicação soaria como tentativa de editar uma frase depois de publicada.
— Vou dormir. Amanhã acordo cedo.
E entrou na pousada antes que Marina conseguisse dizer qualquer coisa. Ela ficou sozinha na varanda, com a própria frase ecoando de um jeito cada vez pior. Dormiu mal e, às quatro da manhã, tomou uma decisão que pareceu perfeitamente racional por aproximadamente seis minutos: iria embora um dia antes.
Na manhã seguinte, comprou a passagem antes mesmo de tomar café. Depois passou quase uma hora fabricando justificativas: precisava focar na entrevista, organizar documentos, voltar ao ritmo normal. Nenhuma delas tornava o quarto menos estranho enquanto arrumava a mala.
A camisa de Caio ainda estava jogada na cadeira desde a noite anterior, e Marina percebeu o quanto odiava o fato de aquele detalhe simples conseguir apertar seu peito daquele jeito. Enquanto fechava o zíper, Marina viu um pequeno objeto metálico brilhando sob a escrivaninha: a chave de fenda de Caio. Ela pegou, o metal pesado e gasto nas mãos. Era um objeto simples, mas carregava o peso de tudo que ele resolvia silenciosamente na pousada e na vida dela. Ela sentiu o peso do arrependimento.
Ridículo.
Ela fechou a mala rápido demais, como se velocidade pudesse impedir arrependimento. Marina saiu da pousada sem olhar para trás, pedindo ao motorista que a levasse o mais rápido possível para a rodoviária, antes que mudasse de ideia.
Capítulo 8 — A Maré Sempre Volta
Na manhã do décimo terceiro dia, Marina saiu de Pipa decidida a não olhar para trás. Olhou. Muitas vezes. A cidade desapareceu pela janela em placas coloridas, fachadas pequenas e coqueiros inclinados pelo vento, enquanto ela repetia mentalmente que partir um dia antes era uma decisão adulta, responsável e logisticamente impecável. O problema de Marina era que conseguia transformar fuga em planejamento com uma eficiência admirável.
O celular permaneceu imóvel nas mãos dela durante boa parte do caminho. Nenhuma mensagem de Caio. O que fazia sentido. Ela tinha ido embora sem consertar a conversa e, pela primeira vez, nem uma planilha mental conseguia transformar aquilo numa escolha elegante.
O carro passou por uma curva mais alta da estrada, e uma faixa enorme de oceano cinza-azulado surgiu sob o céu fechado. Marina sentiu o peito apertar. Porque pela primeira vez em muito tempo ir embora não parecia vitória. Parecia perda. Ela fechou os olhos rapidamente. A cabeça tentava organizar justificativas numa velocidade desesperada. Tudo fazia sentido racionalmente. Então por que o corpo inteiro parecia reagir como se estivesse abandonando algo importante demais? O celular desbloqueou sozinho entre os dedos dela por reflexo. A conversa com Caio ainda aberta.
A última mensagem era antiga. Uma foto que ele mandara dois dias antes da praia vazia ao amanhecer com a legenda:
— maré boa hoje.
Quando tentou bloquear a tela, o dedo escorregou e abriu a galeria. A fotografia antiga dos pais ainda estava entre as imagens recentes porque Marina a tinha procurado na Baía dos Golfinhos. O pai sorria com a água de coco na mão. A mãe ria sob o chapéu enorme. E, no canto, uma Marina pequena parecia não ter a menor dúvida de que pertencia àquele lugar.
Marina ficou olhando para a foto até a visão embaçar. Não era uma mensagem do universo. Ela tinha doutorado suficiente para não começar a acreditar em algoritmo de galeria como intervenção divina. Era pior: era uma lembrança concreta de que ela já tinha amado o mar antes de transformá-lo em currículo. E de que voltar para São Paulo não exigia sair de Pipa como se estivesse escapando de um incêndio.
Marina sentiu vontade de chorar de um jeito profundamente irritante. Porque não era só sobre Caio. Era sobre a sensação absurda de finalmente existir em algum lugar sem precisar provar nada o tempo inteiro. E, ela decidiu não transformar o incômodo em pressa.
Mesmo assim, ela não mandou o motorista voltar. Foi até Natal. Desceu com a mala, entrou num café perto da rodoviária e pediu um cappuccino que custava caro demais para ser tão ruim. Abriu o notebook. Fechou. Abriu o e-mail da entrevista. Fechou também. Passou vinte minutos encarando uma tomada sem carregar absolutamente nada, inclusive a própria coragem.
Uma senhora na mesa ao lado perguntou se a cadeira vazia estava ocupada. Marina quase respondeu que sim, emocionalmente, mas ainda tinha algum compromisso com a convivência em sociedade. Cedeu a cadeira e olhou outra vez para a foto dos pais no celular.
Não era sobre escolher Caio em vez de Woods Hole. Era justamente o contrário: pela primeira vez, Marina entendia que não precisava transformar uma escolha em incêndio para levar a outra a sério. Podia fazer a entrevista. Podia ir embora. Podia gostar dele. Podia voltar para terminar uma conversa como uma adulta minimamente funcional.
Ela fechou o notebook, puxou a mala e voltou para o ponto de embarque. Quando explicou ao motorista seguinte que precisava retornar a Pipa no mesmo dia em que tinha acabado de sair de lá, recebeu um olhar profissionalmente neutro que dizia muita coisa.
— Mudança de planos? — ele perguntou.
— Não. Surto com logística.
Mais de uma hora depois, Marina estava novamente diante da pousada com a mala ao lado do corpo e a sensação muito específica de ter investido uma quantia ofensiva de dinheiro numa única conversa. Se aquilo não era desenvolvimento pessoal, era pelo menos comprometimento financeiro com o caos.
Dona Ana estava atrás do balcão quando ela entrou. Ergueu os olhos da revista de palavras cruzadas, olhou para Marina, depois para a mala e novamente para Marina.
— Esqueceu alguma coisa?
Marina pensou na chave de fenda dentro da bolsa.
— Minha dignidade, provavelmente.
Dona Ana tentou segurar o sorriso e falhou.
— Caio tá lá atrás.
Marina o encontrou perto do pequeno depósito lateral, organizando ferramentas numa caixa com uma concentração agressiva demais para alguém que supostamente estava apenas organizando ferramentas. Ele levantou os olhos quando ouviu os passos. Ficou imóvel.
— Tu voltou.
Não era exatamente uma pergunta.
— Voltei.
Caio apoiou a chave que segurava sobre a bancada.
— Por quê?
Marina respirou fundo. Tinha ensaiado oito versões daquilo no carro. Todas pareciam excelentes até precisar falar em voz alta.
— Porque eu fui embora com raiva de você por dizer uma coisa que eu já
sabia. E com mais raiva ainda de mim por ter falado daquele jeito.
Caio não respondeu.
— Eu quero Woods Hole — continuou ela. — Quero muito. Não é uma
desculpa pra fugir daqui. É um sonho meu desde antes de você existir na minha vida e eu não vou fingir que deixou de ser porque passei alguns dias em Pipa e beijei um homem irritantemente observador.
O canto da boca dele ameaçou subir, mas Marina apontou um dedo.
— Não interrompe. Eu paguei duas corridas pra fazer esse discurso.
Caio abaixou o rosto, segurando a risada.
— Continue, doutora.
— Só que querer ir não significa que eu precisava sair daqui daquele jeito.
E gostar de você não significa que eu tenho que abandonar minha carreira. Eu passei tempo demais tratando toda escolha como se uma porta precisasse explodir quando eu abrisse outra.
O humor desapareceu do rosto dele aos poucos.
— Eu também fui injusto contigo — disse. — Fiquei agindo como se tua
vontade de ir fosse prova de que tu não tava aqui. Não é.
Marina cruzou os braços, mais para ter onde colocar as mãos.
— E você não pode passar o resto da vida usando dona Ana e a pousada
como argumento pra nunca decidir o que quer fazer depois.
Caio soltou uma risada curta, sem alegria.
— Tu voltou só pra terminar a briga?
— Em parte.
Ele assentiu e olhou para a caixa de ferramentas.
— Eu pensei no que tu falou na praia. Sobre Natal. Sobre a faculdade. Faz
tempo que eu nem deixo essa ideia existir porque parece... errado. Meu pai queria que eu fosse. Depois que ele morreu, ficar aqui parecia a única coisa decente a fazer.
Marina lembrou de dona Ana na cozinha: saudade não precisa ser castigo.
— Continuar não é abandonar ele, Caio.
Ele ficou em silêncio. Dessa vez, Marina não tentou preencher.
Depois de alguns segundos, Caio pegou a chave de fenda esquecida sobre a bancada e a girou entre os dedos.
— Tu levou a minha outra.
Marina abriu a bolsa e tirou a ferramenta que encontrara no quarto.
— Tecnicamente, eu estava levando uma lembrança da viagem.
— Tecnicamente, isso é furto.
— Eu voltei pra devolver.
— Ah, então foi por isso.
— Principalmente.
Os dois sorriram, e alguma coisa que estava dura desde a noite anterior finalmente cedeu.
Caio se aproximou.
— E agora?
Essa era a pergunta que Marina normalmente responderia com cronogramas, datas e uma planilha com abas coloridas. Pela primeira vez, ela não tinha nada disso.
— Agora eu volto pra São Paulo. Faço a entrevista. Se der certo, eu vou
pros Estados Unidos.
Caio assentiu.
— Certo.
— E eu não sei o que acontece com a gente.
— Eu também não.
A honestidade deveria ter sido assustadora. Curiosamente, não era.
— Mas eu não queria fingir que isso aqui não aconteceu só porque eu ainda
não sei onde colocar na minha vida.
Caio encostou a testa na dela.
— Então não finge.
O beijo daquela vez não teve urgência de praia vazia nem ansiedade de quarto fechado. Foi simples. Demorado. E, quando se afastaram, Marina percebeu que ainda tinha uma noite paga na pousada e uma habilidade recém-descoberta de tomar decisões sem transformar tudo em incêndio.
— Eu vou embora amanhã — disse.
Caio ergueu uma sobrancelha.
— Esse era o plano original, né?
— Não estraga meu momento de amadurecimento.
— Jamais.
Marina remarcou a passagem para a manhã seguinte e ficou. Não houve declaração, promessa internacional nem plano de cinco anos. Na última noite, jantou com Caio e dona Ana na cozinha, perdeu uma discussão sobre a quantidade correta de manteiga no cuscuz e descobriu que dona Ana trapaceava descaradamente no dominó.
— Eu vi a senhora mexendo essa pedra.
— Prove.
— Marina, não compra briga que tu não pode ganhar — aconselhou Caio,
muito sério.
— Finalmente uma informação útil depois de duas semanas.
Mais tarde, os dois se sentaram na varanda com café. Caio continuou fazendo o dele doce demais; Marina continuou reclamando e bebendo mesmo assim. Falaram de coisas pequenas porque as grandes já tinham sido ditas. Em algum momento, ela apoiou os pés sobre a cadeira dele e Caio reclamou que aquilo era abuso de mobiliário da pousada. Marina respondeu que deixaria cinco estrelas na avaliação. Pareceu suficiente.
Na manhã do décimo quarto dia, Marina fechou a mala sem pressa. O quarto parecia diferente do primeiro dia: o notebook estava guardado, o cabelo ainda molhado do banho e a chave de fenda de Caio, desta vez, devidamente devolvida.
Dona Ana abraçou Marina na recepção e colocou um pacote de bolo na bolsa dela sem pedir autorização.
— Pra viagem.
— Minha mala já tá acima do peso.
— Bolo não conta.
Caio acompanhou Marina até o carro. por um instante, ficaram parados um diante do outro com aquela falta de roteiro que, duas semanas antes, teria feito Marina entrar em colapso.
— Me manda mensagem quando chegar — ele disse.
— Você também quando decidir se vai fazer alguma coisa com aquela
inscrição da UFRN.
Caio fez uma careta.
— Mulher insistente da gota.
— Você gosta.
— Infelizmente.
Marina entrou no carro. Quando ele começou a andar, olhou para trás uma última vez. Dessa vez, não sentiu que estava fugindo. Estava indo. Era diferente.
Capítulo 9 — Entre Dois Fusos
Três meses depois
Para: Caio Assunto: relatório extremamente científico sobre Massachusetts (e outras coisas)
Caio, Antes que você reclame: sim, eu sei que pessoas normais mandam mensagem. Mas você dorme quando aqui ainda parece meio da tarde, eu acordo quando você já está resolvendo metade da pousada e ontem nossa chamada caiu quatro vezes. Então aceite o e-mail. Considere uma experiência antropológica.
Faz quase três meses que voltei de Pipa e dez dias que cheguei a Woods Hole. A aprovação saiu pouco depois da entrevista, mas entre documentação, bolsa, visto, passagem, reuniões, encerramento das coisas em São Paulo e a quantidade obscena de formulários que uma universidade consegue produzir, novembro chegou antes que eu entendesse direito. Talvez tenha sido bom. Eu precisei daquele intervalo para perceber que ir embora por um tempo não era a mesma coisa que abandonar tudo.
Aqui é exatamente como eu imaginava e completamente diferente. O laboratório é absurdo. Tem gente trabalhando com coisas que eu lia em artigo e tratava como se fossem lendas acadêmicas. Ontem passei seis horas discutindo dados de comportamento de cetáceos e saí genuinamente feliz.
Cansada, sim. Mas feliz. Existe uma diferença e, infelizmente, você estava certo sobre ela. Não se acostume.
Também estou trabalhando muito. Antes que comece. A diferença é que agora eu tenho tentado perceber quando o trabalho está me levando para algum lugar e quando estou usando ele para não sentir algo. Lídia ficaria insuportavelmente satisfeita com essa frase.
E eu sinto saudade.
Saudade de Pipa, primeiro. Do calor que eu reclamei durante duas semanas inteiras. Do café da sua mãe. Da varanda. Da Baía dos Golfinhos. Do barulho da pousada de manhã. Até do wi-fi horroroso, embora eu negue isso sob juramento.
E de você. Obviamente. Essa parte é inconveniente.
Eu acompanho a pousada pelo Instagram mais do que gostaria de admitir. Vi dona Ana aparecendo nos stories dando ordem em dois funcionários novos e quase aplaudi sozinha no laboratório. Vi também o vídeo do senhor do saxofone tocando na varanda. Sua mãe escreveu “sexta de jazz” com três emojis de taça de vinho. Eu não sei quem ensinou ela a usar emoji, mas alguém precisa ser responsabilizado.
E vi a sua foto em Natal. Você na frente da UFRN, tentando fingir que a legenda “fui só resolver um negócio” não significava absolutamente nada. Caio, eu conheço essa técnica. É a versão potiguar de “só estou organizando umas coisas”. Espero que tenha feito a inscrição. E gostei de saber que você continua indo à terapia, mesmo nos dias em que saiu de lá querendo processar o terapeuta por danos morais. Você me disse que ainda fala pouco do seu pai. Tudo bem. Acho que nós dois estamos aprendendo que processo não combina muito com cronograma.
Engraçado escrever isso daqui porque eu também ainda estou aprendendo. Tem dias em que abro a foto dos meus pais em Pipa e sinto uma vontade física de voltar. Meu pai passou a vida longe de Mossoró porque acreditava que precisava ir embora para construir alguma coisa. Talvez precisasse
mesmo. Mas nunca deixou de amar aquele pedaço do Rio Grande do Norte. Acho que só agora entendo que pertencimento não é necessariamente ficar.
Não sei exatamente como vai ser esse próximo ano e meio. Quero aproveitar tudo daqui. Quero publicar. Quero aprender. Quero sair desse programa melhor do que entrei e, sim, continuo querendo uma carreira enorme. Isso não mudou. Acho que nunca vai mudar.
Só não quero mais que a minha carreira seja a única coisa enorme na minha vida.
Então continue me mandando foto do mar. Continue reclamando das minhas comidas fitness. Continue estudando, mesmo que devagar. E, por favor, diga a dona Ana que eu exijo uma mesa reservada na sexta do jazz quando voltar.
Eu vou voltar.
Não amanhã. Não semana que vem. Mas vou.
Marina
P.S.: Aqui faz sete graus. Sete. Seu argumento de que “frio é psicológico” será oficialmente julgado quando você vier me visitar.
Posfácio
São Paulo continuava cinza do jeito que Marina lembrava. Talvez até mais. Do vigésimo terceiro andar do apartamento parcialmente desmontado em Pinheiros, a cidade parecia um organismo cansado funcionando à base de buzinas, concreto e gente atrasada. O céu carregado anunciava chuva desde cedo, e o trânsito lá embaixo se movia lentamente entre faróis vermelhos refletidos no asfalto molhado. Curiosamente, em muitos anos, aquilo já não parecia suficiente para ela.
Marina apoiou uma caixa fechada sobre o chão da sala enquanto observava o apartamento quase vazio. Restavam poucos móveis, livros empilhados perto da porta e uma quantidade absurda de canecas esquecidas espalhadas pela bancada da cozinha. Mudança sempre revelava versões estranhas das pessoas. Ela, por exemplo, aparentemente possuía dezessete marcadores de texto, quatro adaptadores internacionais inúteis e um hábito preocupante de guardar artigos científicos impressos como se estivesse montando arquivo secreto do governo. O celular vibrou sobre a mesa.
— Cheguei.
Marina sorriu antes mesmo de perceber. Dois minutos depois, a campainha tocou. Quando abriu a porta, encontrou Caio parado no corredor segurando duas sacolas de padaria e usando a mesma expressão calma de quem parecia completamente deslocado — e ainda assim confortável — em qualquer lugar do mundo. Só que agora existiam pequenas diferenças nele.
O cabelo continuava bagunçado pelo vento de Pipa mesmo em São Paulo, os óculos redondos ainda escorregavam pelo nariz quando ele ria e o bronzeado permanecia absurdo para alguém no meio do inverno paulistano. Mas havia algo mais seguro no jeito como ocupava espaço agora. Menos homem tentando sobreviver ao próprio luto e mais alguém que finalmente
voltara a construir futuro. Mesmo usando moletom escuro e tênis claramente comprados às pressas para enfrentar o frio da cidade, Caio ainda carregava consigo cheiro de café e maresia de forma quase irritante.
— Tu mora num freezer — foi a primeira coisa que disse ao entrar.
Marina riu enquanto fechava a porta.
— Isso vindo de alguém que vive numa cidade onde trinta graus é
considerado clima agradável.
Caio colocou as sacolas sobre a bancada e olhou em volta.
— Então é oficial mesmo.
Ela assentiu.
Oficial.
Quase dois anos tinham passado desde aquelas duas semanas em Pipa, e pouco mais de dois meses desde que Marina voltara dos Estados Unidos. Woods Hole tinha sido tudo o que queria: intenso, difícil, brilhante e, pela primeira vez, cansativo de um jeito que fazia sentido. Agora o próximo passo era Natal, UFRN e um projeto sobre golfinhos-cinza na Baía dos Golfinhos.
— Ainda parece estranho falar isso em voz alta — admitiu ela enquanto se
encostava na bancada.
Caio observou o apartamento parcialmente vazio antes de voltar os olhos para ela.
— Tu tá feliz?
A pergunta veio simples, mas Marina percebeu que era real. Ela pensou antes de responder.
— Acho que sim.
E aquilo era novidade suficiente para ainda assustá-la um pouco. Caio abriu um sorriso pequeno, satisfeito de um jeito quase imperceptível.
— Então ja deu tudo certo.
Marina o observou tirar café da sacola junto com pão de queijo e algumas fatias enormes de bolo de milho.
— Você continua agindo como senhor de sessenta anos quando viaja.
— E tu continua comprando comida que parece embalagem de remédio.
— Eu literalmente tenho trinta e um anos agora. Meu metabolismo exige
respeito.
— Dona Ana fala exatamente isso antes de pedir cuscuz com manteiga às
onze da noite.
Só ouvir o nome dela fez Marina sorrir.
— Como ela tá?
Caio soltou o ar pelo nariz numa pequena risada.
— Melhor do que eu imaginava, sinceramente. Ainda sente muita falta
dele… mas voltou a viver um pouco.
Ele apoiou os braços na bancada antes de continuar:
— Semana passada saiu pra dançar forró com as amigas e chegou em casa
quase duas da manhã fingindo que não tava bêbada de licor.
Marina gargalhou.
— Mentira.
— Queria muito que fosse.
Aquilo a aqueceu por dentro. Ela lembrava perfeitamente da mulher devastada que encontrara dois anos antes caminhando pela pousada como alguém tentando sobreviver um dia de cada vez. Agora dona Ana voltava a rir. Talvez a vida realmente insistisse em continuar mesmo quando parecia impossível.
— E a pousada? A sexta de jazz ainda tá de pé? — perguntou Marina.
Caio passou a mão pela nuca, quase constrangido.
— A sexta de jazz virou praticamente patrimônio histórico. E a pousada
cresceu foi demais. Mainha já tá com três funcionários e agora age como se tivesse comandado hotel a vida inteira.
— Nos stories ainda eram dois funcionários. Eu perdi uma contratação?
Ele riu.
— Perdeu. Um casal de influencer apareceu lá no verão passado e postou
um vídeo dizendo que era “a pousada mais charmosa e autêntica de Pipa”. Depois disso acabou nossa paz. Agora tem lista de espera em feriado e mainha tá falando em contratar mais gente.
Marina já começou a rir antes do final.
— E o homem do sax?
— Virou celebridade da pousada. Tem hóspede perguntando por ele na
reserva.
— Mainha diz que hóspede merece cultura e ela merece uma desculpa pra
abrir vinho. Nessa ordem, dependendo do dia.
— E a UFRN? — Marina perguntou.
Caio passou a mão pela nuca, um gesto que ela já conhecia como sinal oficial de constrangimento.
— Entrei em Ciências Biológicas. Tô indo e voltando pra Natal durante a
semana. Devagar, porque ainda ajudo na pousada e minha lombar não recebeu a notícia de que eu virei universitário de novo.
Marina abriu um sorriso enorme.
— Você entrou e conseguiu esconder isso de mim por quanto tempo?
— Eu contei. Tu que tava no meio de uma coleta e respondeu com um
coração e uma figurinha de golfinho.
— E como tá sendo?
— Quase desisti na segunda. Aí falei disso na terapia e descobri que,
aparentemente, desistir antes de tentar é um padrão. Muito conveniente pagar alguém pra me atacar desse jeito.
Ela riu, mas percebeu a diferença por baixo da piada. Caio ainda fazia terapia e ainda falava do pai com pausas longas demais em alguns dias. O luto não tinha desaparecido, nem deveria. Só tinha deixado de decidir tudo por ele. A pousada continuava sendo parte da vida dele, assim como dona Ana e Pipa. Mas já não parecia uma sentença escrita depois da morte do pai. Com funcionários novos, uma mãe que agora comandava reservas, fornecedores e as sextas de jazz com entusiasmo quase empresarial, Caio finalmente podia sair sem sentir que estava abandonando alguém.
— Você tá reclamando ganhando dinheiro?
— Tô reclamando porque agora turista pergunta se o quarto onde ficou a
influencer é “o mesmo da postagem”.
Ela gargalhou alto o suficiente para o porteiro do corredor provavelmente ouvir. Caio ficou olhando para ela, quieto. E, sinceramente, ainda existia
algo meio perigoso no efeito que o riso dela causava nele. Quase dois anos depois, continuava igual.
Talvez pior.
— Quem foi o psicopata que decidiu morar num lugar onde a água vira
pedra?
Ela rira tanto naquele dia que quase chorou. E, de algum jeito, continuaram. Caio a ajudou a fechar mais uma caixa antes de olhar para um porta-retrato esquecido perto da estante. Era uma foto antiga dos pais dela em Pipa. Marina percebeu imediatamente o olhar dele.
— Achei numa gaveta semana passada.
Caio pegou a fotografia com cuidado. O pai dela sorria segurando água de coco enquanto a mãe usava um chapéu ridículo enorme demais para a própria cabeça.
Felizes.
— Eles iam gostar disso — comentou ele baixo.
Marina sentiu o peito apertar de leve.
— Do quê?
— Tu voltando pro mar.
Ela desviou os olhos para a janela. Lá fora, São Paulo continuava funcionando na própria velocidade agressiva. Pela primeira vez, Marina não sentiu nenhuma obrigação de acompanhá-la.
— Engraçado — comentou ela depois de alguns segundos. — Demorei
demais pra perceber algumas coisas.
Caio apoiou a foto novamente na estante.
— Acho que agora tás pegando as manhas.
Marina o observou caminhar até a cozinha como se pertencesse naturalmente ao apartamento, à vida dela e aos espaços entre uma fase e outra. E talvez pertencesse mesmo. Não de forma cinematográfica. Nem perfeita. Mas real. Daquele jeito adulto e silencioso que continuava existindo depois da paixão inicial, da distância, das dúvidas e do tempo. Ela caminhou até ele.
— Você sabe que provavelmente vai continuar me irritando pro resto da
vida, né?
Caio sorriu sem levantar os olhos da cafeteira.
— Tu também.
— E ainda tira foto cortando minha cabeça.
— Aquela do cachorro ficou boa.
— Eu odeio que ficou.
Marina apoiou o rosto no ombro dele enquanto o cheiro de café começava a preencher o apartamento quase vazio. Lá fora, São Paulo seguia barulhenta, acelerada e cinza. Marina apenas permaneceu ali.
Agradecimentos
Se você chegou até aqui, o meu primeiro objetivo como autora foi cumprido: você não abandonou o livro no meio do caminho! Brincadeiras à parte, muito obrigada por ler meu primeiro conto até o final. Eu sei bem o valor do seu tempo, e fico feliz demais que você tenha escolhido passar umas horas curtindo esse romance comigo.
Sobre O Autor
Carolina Rozeira Há quem diga que a publicidade e a literatura não se misturam, mas para a carioca Carol, tudo se resume a fisgar a atenção do público. Depois de morar por sete anos em Natal (RN), ela sentiu a necessidade de retribuir o carinho da cidade da forma que melhor sabe: criando mundos. Entre o ronronar dos seus gatos, nasceu este seu primeiro conto, uma homenagem vibrante e cheia de romance a uma terra que se tornou a sua segunda casa.
O que você achou?
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Apaixonadinha
Em reta final de prova
Não Inviabilize
Yellowface: A Impostora
Frieren, ep 13
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