Por que a mulher sempre acaba sendo a vilã da história?

by - outubro 20, 2026

Uma reflexão sobre mitologia, rivalidade feminina e essa mania milenar de responsabilizar mulheres pelas atitudes dos homens.

Eu sempre gostei muito de mitologia, principalmente da grega. Existe alguma coisa fascinante em descobrir como as pessoas tentavam explicar o mundo através de deuses, criaturas fantásticas, maldições e histórias que atravessaram milhares de anos. Além disso, convenhamos, o Olimpo era praticamente uma novela das nove, com direito a traições, escândalos familiares, vinganças e personagens que definitivamente precisavam de algumas sessões de terapia.

Mas, conforme fui ficando mais velha e comecei a revisitar algumas dessas histórias, percebi que muitas delas carregam questões que continuam extremamente presentes na nossa sociedade. E, como uma boa mulher que adora analisar absolutamente tudo enquanto deveria estar fazendo outra coisa, acabei entrando em uma reflexão sobre a maneira como a rivalidade feminina é retratada desde a Antiguidade.

Tudo começou quando estava lendo sobre Circe e Cila, duas personagens da mitologia que protagonizam uma história envolvendo amor não correspondido, ciúme e uma transformação monstruosa. Até aí, nada muito diferente do que estamos acostumadas a encontrar nos mitos gregos, afinal, aparentemente, ninguém naquele universo sabia lidar muito bem com um simples fora.

Entretanto, uma coisa me chamou a atenção: por que, em tantas dessas histórias, uma mulher acaba sofrendo as consequências de uma situação na qual um homem ocupa o papel central?

E quanto mais pensei nisso, mais comecei a encontrar semelhanças com situações que continuam acontecendo atualmente, seja nos relacionamentos, no ambiente de trabalho ou nas histórias que consumimos através de filmes, livros e séries.

Para quem não conhece, Circe é uma poderosa feiticeira da mitologia grega, conhecida por sua habilidade de transformar pessoas em animais. Já Cila, em uma das versões de sua história, era uma jovem extremamente bonita que despertou o interesse de Glauco, uma divindade marinha.

Acontece que Cila não estava interessada nele. Simples assim, divas. A bonita só queria viver a vidinha dela, provavelmente aproveitar o mar e cuidar dos próprios assuntos, mas aparentemente dizer não para uma divindade naquela época era o equivalente a solicitar um problema de proporções épicas.

Glauco, inconformado com a rejeição, procurou Circe na esperança de conseguir uma poção que fizesse Cila se apaixonar por ele. Porque aceitar que alguém não está interessado e seguir em frente seria uma alternativa sensata demais para a mitologia grega, não é mesmo?

O problema é que Circe acabou se apaixonando pelo próprio Glauco, que também não correspondeu aos sentimentos dela. E aqui temos uma sequência de acontecimentos que poderia facilmente render um episódio inteiro de Gossip Girl, só que com menos bolsas de grife e mais magia.

Circe, tomada pelo ciúme, decidiu se vingar de Cila e envenenou as águas onde a jovem costumava se banhar, transformando-a em uma criatura monstruosa. Essa versão aparece no livro XIV de Metamorfoses, do poeta romano Ovídio.

Agora, vamos analisar essa situação com calma: Glauco se apaixonou por Cila, Cila não queria Glauco, Circe queria Glauco e Glauco não queria Circe. Resultado? Cila virou um monstro. Meninas, eu realmente gostaria de entender como chegamos a essa conclusão, porque a matemática emocional desse povo não está fechando.

O que mais me incomoda nessa história é que Cila não fez absolutamente nada contra Circe. Ela não tentou conquistar Glauco, não disputou sua atenção e sequer demonstrou interesse nele. A jovem simplesmente existia, e isso foi suficiente para despertar a ira de outra mulher.

E aqui temos algo que continua sendo reproduzido até hoje: a ideia de que outra mulher é automaticamente uma ameaça quando recebe a atenção de um homem.

Quantas vezes encontramos situações em que uma mulher descobre uma traição e direciona toda a sua raiva exclusivamente para a outra mulher? O homem, que era justamente quem tinha um compromisso, muitas vezes acaba recebendo uma parcela menor da responsabilização, enquanto a outra pessoa se transforma na grande destruidora de lares da história.

É claro que existem situações em que uma terceira pessoa sabe perfeitamente que está participando de uma traição e precisa assumir a responsabilidade por suas escolhas. Mas existe uma diferença enorme entre reconhecer isso e agir como se o homem envolvido fosse apenas uma pobre criatura indefesa que tropeçou e caiu acidentalmente em um relacionamento extraconjugal.

Na história de Circe e Cila, o que vemos é uma mulher direcionando sua frustração para outra que não tinha qualquer responsabilidade pela rejeição que ela sofreu. E é interessante perceber como essa estrutura narrativa continua aparecendo, de diferentes maneiras, milhares de anos depois.





Outro mito que me fez pensar bastante foi o de Medusa, provavelmente uma das figuras femininas mais conhecidas da mitologia grega. Afinal, quem nunca viu a representação daquela mulher com serpentes no lugar dos cabelos, capaz de transformar qualquer pessoa em pedra com um simples olhar?

Mas o que muita gente não sabe é que existem diferentes versões sobre sua origem. Na Teogonia, de Hesíodo, Medusa já aparece como uma das três Górgonas. Entretanto, em uma versão posterior, narrada por Ovídio no livro IV de Metamorfoses, encontramos uma história que permite uma reflexão bastante diferente.

Segundo esse relato, Medusa era uma jovem conhecida por sua beleza, especialmente por seus cabelos. Poseidon, o deus dos mares, a violentou no templo de Atena, e a deusa, diante da profanação de seu espaço sagrado, transformou os cabelos da jovem em serpentes.

E aqui eu preciso abrir um pequeno parêntese porque, sinceramente, a mitologia grega tem momentos em que parece uma reunião de condomínio onde todo mundo está indignado, mas ninguém está cobrando explicações da pessoa certa.

Percebam a situação: Poseidon comete a violência, o templo de Atena é profanado e Medusa sofre a transformação. Enquanto isso, a narrativa não descreve uma punição equivalente para o deus dos mares. É praticamente o equivalente mitológico de uma mulher denunciar um problema e, de alguma maneira inexplicável, acabar sendo tratada como o próprio problema.

Diferentemente da história de Circe e Cila, Atena e Medusa não estavam disputando o amor de um homem. O conflito envolve violência, poder e a profanação de um espaço sagrado. Ainda assim, existe algo em comum entre os dois relatos: uma mulher sofre consequências devastadoras em uma situação na qual as ações masculinas são fundamentais.

E, infelizmente, não precisamos voltar à Antiguidade para encontrar situações semelhantes.

Até hoje, mulheres que sofrem violência sexual precisam enfrentar questionamentos sobre suas roupas, seus comportamentos, os lugares que frequentavam e até suas escolhas pessoais. Em vez de concentrarmos a atenção na responsabilidade de quem praticou a violência, muitas discussões acabam girando em torno daquilo que a vítima poderia ter feito para evitar o acontecimento.

O que ela estava vestindo? Por que foi até aquele lugar? Por que não reagiu? Por que demorou tanto para contar? Será que não deu a entender outra coisa? É quase como se existisse um questionário interminável que uma mulher precisasse responder antes que sua palavra pudesse ser considerada.

E aqui não estou dizendo que os antigos gregos e romanos compreendiam a violência ou a responsabilidade da mesma maneira que nós. Precisamos considerar os diferentes contextos históricos e as versões de cada mito. Entretanto, podemos utilizar essas narrativas para refletir sobre padrões culturais que continuam aparecendo em nossa sociedade.

Quando penso em Medusa, gosto de questionar por que uma figura tão frequentemente apresentada como monstruosa também pode ser interpretada, nessa versão específica, como alguém que sofreu uma violência e acabou carregando suas consequências. Talvez isso diga bastante sobre a maneira como escolhemos contar determinadas histórias e sobre quais personagens recebem nossa empatia.




Agora, saindo um pouquinho do Olimpo e voltando para o nosso mundinho de filmes, séries, livros e fofocas cuidadosamente analisadas durante o café da tarde, quero falar sobre como essas narrativas continuam presentes no entretenimento.

Pensem na quantidade de histórias que apresentam duas mulheres disputando o mesmo homem. Normalmente temos a protagonista, aquela que devemos amar e apoiar, e uma rival construída para despertar nossa antipatia. Essa rival costuma ser mais vaidosa, mais ambiciosa, mais sexualmente livre ou simplesmente mais confiante. Características que, curiosamente, muitas vezes seriam consideradas admiráveis se estivéssemos falando de um personagem masculino.

Em Meninas Malvadas, por exemplo, vemos como a competição por popularidade, aparência, reconhecimento e relacionamentos influencia a maneira como as adolescentes se relacionam. Regina George é praticamente a personificação da garota popular que muitas meninas aprenderam a temer, enquanto Cady começa a reproduzir os mesmos comportamentos que inicialmente criticava. O interessante é que o próprio filme também satiriza essa dinâmica e mostra como ela pode ser prejudicial para todas as envolvidas.

Já em O Diabo Veste Prada, acompanhamos mulheres tentando conquistar reconhecimento em um ambiente profissional extremamente competitivo. A relação entre Andy e Emily mostra como a disputa por oportunidades pode gerar ressentimento, especialmente quando o sucesso de uma parece depender do fracasso da outra. E, sinceramente, Miranda Priestly provavelmente conseguiria fazer uma sala inteira precisar de terapia apenas levantando uma sobrancelha.

Também não podemos esquecer de Gossip Girl, uma série que eu adoro, mas que rende uma verdadeira tese sobre rivalidade feminina. Serena e Blair possuem uma amizade cheia de afeto, conflitos, comparações e disputas por reconhecimento. Em diversos momentos, a atenção masculina também interfere na relação entre elas. E, embora a série apresente personagens complexas, é curioso observar como até uma amizade tão importante para a narrativa frequentemente precisa atravessar competições e traições.

O mesmo acontece em inúmeras novelas e comédias românticas, onde encontramos a amante destruidora de casamentos, a ex-namorada inconveniente, a garota popular cruel ou a colega de trabalho que parece ter sido contratada exclusivamente para sabotar a protagonista.

Obviamente, não estou dizendo que essas personagens não deveriam existir. Aliás, adoro uma vilã bem construída, principalmente quando ela tem boas roupas, diálogos afiados e uma personalidade memorável. O problema não está em apresentar mulheres imperfeitas, mas em perceber como a competição entre elas se tornou um recurso narrativo tão familiar.

É como se sempre precisássemos de uma Circe e uma Cila, uma mulher para admirar e outra para odiar. E, muitas vezes, o homem que desencadeou todo o conflito acaba ocupando uma posição surpreendentemente confortável no meio da situação.

Conveniente, não?





Uma das coisas que mais me entristecem quando penso nesse assunto é perceber como a comparação entre mulheres começa muito cedo.

Desde pequenas, somos comparadas pela aparência, pelo comportamento, pelas notas, pelas roupas e até pela maneira como recebemos atenção. Sempre existe uma menina considerada mais bonita, mais comportada, mais delicada ou mais feminina. E, enquanto crescemos, essas comparações começam a ganhar novas camadas.

Na adolescência, muitas vezes passam a envolver o interesse masculino. Quem é mais bonita? Quem começou a namorar primeiro? Quem recebe mais atenção? Quem é considerada desejável? É aquela fase em que estamos tentando descobrir quem somos, mas aparentemente também precisamos disputar um concurso de popularidade cuja inscrição ninguém se lembra de ter feito.

Na vida adulta, os critérios mudam, mas a competição continua firme e forte, quase como uma assinatura que esquecemos de cancelar.

Quem casou primeiro? Quem teve filhos? Quem conseguiu um emprego melhor? Quem comprou um apartamento? Quem aparenta ser mais jovem? Quem consegue equilibrar carreira, relacionamento, maternidade, academia, alimentação saudável e ainda manter o cabelo hidratado?

Amigas, pelo amor de Deus, às vezes eu só quero terminar minha graduação, ler meus livrinhos, pagar meus boletos e conseguir dormir oito horas por noite. Será que podemos ter um pouquinho de paz?

O mais curioso é que muitas dessas expectativas são completamente contraditórias. A mulher que prioriza a carreira pode ser acusada de negligenciar a vida pessoal, enquanto aquela que decide se dedicar à família pode ser julgada por não investir suficientemente na própria independência financeira. A mulher que não quer ter filhos precisa justificar sua decisão, enquanto a que deseja ser mãe frequentemente recebe opiniões que nunca solicitou.

Se estamos solteiras, perguntam quando vamos encontrar alguém. Se estamos namorando, querem saber sobre casamento. Se casamos, começam os questionamentos sobre filhos. E se decidimos não seguir nenhum desses caminhos, parece que precisamos apresentar um relatório explicativo, de preferência com gráficos e referências bibliográficas.

E o pior é perceber que, muitas vezes, essas cobranças também partem de outras mulheres.

É nesse momento que considero importante falar sobre misoginia internalizada, que acontece quando reproduzimos preconceitos e ideias negativas sobre mulheres, mesmo pertencendo a esse grupo. Não porque nascemos naturalmente competitivas ou cruéis, mas porque crescemos inseridas em uma sociedade que também nos ensina determinadas expectativas.

Acredito que reconhecer isso seja fundamental para começarmos a mudar nossas próprias atitudes. Afinal, não adianta defendermos a liberdade feminina em um discurso bonito e, cinco minutos depois, julgarmos outra mulher por tomar decisões diferentes das nossas.


Antes de continuar, acho importante esclarecer uma coisa: não acredito que sororidade signifique concordar com absolutamente tudo que outra mulher faz. Até porque, convenhamos, se eu não concordo nem comigo mesma em algumas decisões que tomei na semana passada, imaginem concordar com uma população inteira.

Mulheres são humanas. Podemos errar, agir de maneira cruel, ser egoístas, sentir inveja e tomar decisões questionáveis. E precisamos assumir a responsabilidade por essas atitudes, assim como qualquer outra pessoa.

O que acredito é que devemos aprender a diferenciar uma discordância legítima de uma rivalidade que foi praticamente ensinada para nós.

Uma mulher ser mais bonita do que eu não significa que sou menos bonita. Uma mulher conseguir uma oportunidade profissional não significa que meu talento desapareceu. Uma amiga se casar, ter filhos ou conquistar determinado sonho antes de mim não significa que estou atrasada na vida.

E talvez essa última comparação seja uma das mais difíceis de abandonar, principalmente em uma época em que as redes sociais nos apresentam diariamente os melhores momentos da vida de outras pessoas.

Às vezes, basta abrir o Instagram para descobrir que alguém da nossa idade está viajando pela Europa, comprando uma casa, inaugurando uma empresa ou anunciando uma gravidez planejada com uma decoração impecável. Enquanto isso, estamos tentando descobrir como conciliar trabalho, estudos, vida pessoal e uma pilha de roupas que parece se reproduzir sozinha dentro de casa.

Mas a conquista de outra mulher não deveria ser interpretada como uma declaração de fracasso pessoal.

Acho que precisamos reaprender a admirar sem necessariamente nos comparar. Celebrar a conquista de uma amiga, reconhecer o talento de uma colega e entender que existem inúmeras maneiras de construir uma vida feliz são atitudes que podem parecer pequenas, mas representam uma mudança importante na maneira como nos relacionamos.



Uma das coisas que mais gosto quando revisito histórias antigas é imaginar como elas poderiam ser interpretadas de maneiras diferentes.

Circe era uma feiticeira poderosa, conhecedora de magia e capaz de realizar feitos extraordinários. Cila era uma jovem que simplesmente não queria corresponder ao interesse de Glauco. Nenhuma das duas precisava ser inimiga da outra.

Fico imaginando o que teria acontecido se Circe tivesse percebido que a rejeição de Glauco não diminuía seu valor. Ela poderia continuar vivendo sua vida, explorando seus conhecimentos e fazendo absolutamente qualquer coisa mais interessante do que envenenar o banho de uma mulher inocente.

Porque, sinceramente, minha querida Circe, você tinha uma ilha, poderes mágicos e uma existência extraordinária. Precisava mesmo gastar toda essa energia com um homem que não estava interessado? Um pouco de amor-próprio e um novo hobby talvez tivessem evitado uma tragédia mitológica.

Já quando penso em Medusa, fico imaginando quantas mulheres, ao longo da história, tiveram suas identidades reduzidas àquilo que sofreram. Quantas foram lembradas por escândalos, acusações ou situações de violência, enquanto os homens envolvidos continuaram sendo reconhecidos por seus feitos e conquistas?

Talvez seja justamente por isso que eu goste tanto de revisitar a mitologia sob uma perspectiva feminina. Não para transformar todas as personagens em heroínas perfeitas ou fingir que elas nunca cometeram erros, mas para questionar por que determinadas mulheres foram retratadas como monstros e quais circunstâncias contribuíram para essa representação.

Afinal, existe uma diferença enorme entre compreender as ações de uma personagem e justificar seus comportamentos. Circe continua sendo responsável pelo sofrimento de Cila naquela versão do mito, mas podemos analisar como sua reação está inserida em uma narrativa sobre rejeição e rivalidade. Medusa, por sua vez, pode ser interpretada de maneira diferente quando conhecemos a história de sua transformação narrada por Ovídio.

E isso me faz pensar sobre quantas histórias contemporâneas também poderiam ser contadas de outro ponto de vista.

Talvez aquela mulher que aprendemos a odiar em determinado filme tivesse uma história muito mais interessante se não existisse apenas para atrapalhar o romance da protagonista. Talvez a personagem considerada fria e ambiciosa estivesse apenas tentando sobreviver em um ambiente que nunca ofereceu as mesmas oportunidades para todos. Talvez duas mulheres pudessem discordar, competir e até brigar sem que o conflito precisasse girar em torno da aprovação masculina.

E talvez, só talvez, pudéssemos ter mais histórias sobre amizades femininas que não precisam ser destruídas para movimentar o enredo.





Depois de refletir sobre tudo isso, comecei a perceber que talvez a pergunta mais importante não seja por que mulheres sentem ciúme umas das outras, mas por que aprendemos a direcionar tanta atenção para a rivalidade feminina enquanto determinados comportamentos masculinos acabam recebendo menos questionamentos.

Não acredito que a mitologia grega seja a origem de todos esses problemas, muito menos que uma história escrita há milhares de anos possa explicar sozinha comportamentos contemporâneos. A sociedade é complexa, e nossas relações são influenciadas por inúmeros fatores históricos, econômicos e culturais.

Entretanto, acho fascinante perceber como determinadas estruturas narrativas atravessam os séculos e continuam sendo reconhecíveis. Mudam as roupas, os cenários, os nomes das personagens e até os meios pelos quais consumimos essas histórias, mas algumas perguntas permanecem assustadoramente atuais.

Por que uma mulher precisa ser considerada inferior para que outra seja admirada? Por que o sucesso feminino frequentemente é tratado como uma competição? Por que ainda encontramos tanta facilidade em responsabilizar mulheres pelas escolhas de homens adultos, plenamente capazes de responder por suas próprias atitudes?

E, principalmente, por que tantas vezes aceitamos essas narrativas sem questionar?

Hoje, aos 30 anos, uma das coisas que mais desejo é continuar aprendendo a olhar para outras mulheres com mais generosidade, sem transformar cada diferença em uma comparação ou cada conquista alheia em uma cobrança pessoal. Sei que não é um exercício simples, principalmente porque também cresci consumindo histórias que reforçavam determinadas expectativas.

Mas acredito que amadurecer também envolve reconhecer aquilo que precisamos desconstruir.

Quero continuar gostando de personagens femininas complexas, das vilãs maravilhosamente dramáticas, das protagonistas imperfeitas e das feiticeiras que provavelmente seriam bloqueadas em todas as minhas redes sociais se existissem na vida real. Só não quero aceitar sem questionar a ideia de que nossa existência precisa ser uma competição permanente.

Existe espaço para mulheres inteligentes, bonitas, ambiciosas, sensíveis, independentes, românticas, inseguras e contraditórias. Uma não precisa diminuir a outra para que suas qualidades sejam reconhecidas, assim como não precisamos seguir o mesmo caminho para que nossas escolhas tenham valor.

Talvez não possamos mudar os mitos que chegaram até nós, mas podemos mudar a maneira como os interpretamos e, principalmente, as histórias que escolhemos continuar reproduzindo.

E, da próxima vez que uma narrativa apresentar uma mulher como grande vilã de uma situação envolvendo um homem, pretendo fazer uma pergunta antes de decidir quem merece minha indignação: qual foi, exatamente, a responsabilidade dele nessa história?

Porque, depois de tantos séculos, acho que já passou da hora de parar de transformar mulheres em monstros enquanto alguns homens continuam atravessando o Olimpo tranquilamente, sem nem precisar prestar esclarecimentos.

E, entre nós, divas, se existe alguma coisa que não precisamos carregar para a próxima geração, é a responsabilidade emocional de um deus grego com problemas de rejeição.

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